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O ARROZ DA TERRA – DOS PEQUENOS SEGREDOS DA GUINÉ-BISSAU

JOANA BENZINHO 
A Guiné-Bissau nos anos 30 a 60 do século passado era um dos celeiros de Portugal. Dali vinha o arroz que ainda hoje inebria as papilas gustativas dos que têm a sorte de degustar o pouco arroz da terra que ainda se compra nos mercados locais. Este cereal, base alimentar na Guiné-Bissau, é hoje, na sua maioria, proveniente do Vietname, da Tailândia e de outras origens longínquas com uma qualidade muitas vezes inferior ao produzido no país e a preços, mesmo se não muito mais altos, incomportáveis para muitas das bolsas guineenses.
A cultura do arroz na Guiné segue todo um cerimonial de produção ancestral com os homens (essencialmente da etnia balanta) responsáveis pela preparação dos diques e comportas, pelo sulcar das terras curvados com as suas alfaias, como o Kebiné (um arado tradicional) num trabalho duro e de sol a sol e a circular muitas vezes de terra em terra com as alfaias às costas para trabalhar nas bolanhas vizinhas e assim também procurar raparigas disponíveis para fins matrimoniais, mostrando aos pais de família toda a sua virilidade e capacidade de trabalho, na arte de trabalhar os campos. As mulheres, pelo seu lado, plantam o arroz nos viveiros e fazem a transplantação para as bolanhas e participam activamente na recolha e transporte do arroz até ao seu destino (normalmente para auto-consumo), dando um especial colorido às verdes bolanhas com as suas roupas de cores vivas e lenços vistosos na cabeça.
O território guineense, que na época das chuvas que vai de maio a outubro, se vê privado de cerca de 1/3 da sua área, submersa com o aumento do caudal dos rios e rias que o atravessam, tinha noutros tempos muitos hectares de bolanhas (terrenos de águas salobras e tarrafes nos quais os agricultores após a entrada das águas salgadas arquitectam uma forma de esta ser drenada e deixar o sal suficiente para garantir um arroz de qualidade) que empregavam grande número de mão-de-obra e faziam da Guiné-Bissau um país totalmente ou praticamente auto-suficiente. Mas entre outros factores, a Guerra Civil de 98 que durou mais de um ano e ceifou a vida a muitos guineenses abalou irreversivelmente a economia do país, a sua sociedade, a sua agricultura e, consequentemente, a produção de arroz.
As bolanhas, abandonadas à sua sorte pelos agricultores e respectivas famílias que tiveram que fugir da guerra, foram invadidas pelas águas do mar e ficaram com altos teores de salinidade, de acidez e de toxicidade assim como sem a estrutura de diques e comportas que se foram deteriorando, tornando-se incapazes de acolher novas colheitas e produzir o arroz de qualidade de outros tempos.
A guerra terminou, já lá vão quase duas décadas, mas estas maleitas continuam a atingir as bolanhas, parte delas impróprias para cultivo. As alterações climáticas, com a irregularidade das chuvas vieram agudizar o problema.

A sua recuperação, que passa pela sua dessalinização e preparação de todo um complexo sistema de diques e comportas é onerosa, exige a sabedoria ancestral que se foi perdendo pelo desuso das técnicas tradicionais e não está ao alcance da maioria das bolsas dos agricultores guineenses. Há programas de apoio de organizações internacionais que têm apostado neste trabalho de reabilitação das bolanhas mas muito ainda está por fazer num país onde a subnutrição e a má-nutrição ainda dão cartas.

Apesar de a Guiné já não ser hoje auto-suficiente e um saco de arroz ser para muitas famílias um elemento de luxo na despensa (mesmo tratando-se da sua base alimentar) aproveitam-se ao máximo as bolanhas ainda activas e recorre-se ao cultivo do arroz de sequeiro ou pam-pam, também ele muito saboroso, apesar de comportar consequências nefastas para animais e para a flora dado que é produzido através de um processo de queimadas prévias à plantação. E esperam-se novos dias para este cereal de qualidade amplamente apreciada.
Aos que tiverem a oportunidade de passar pela Guiné-Bissau um destes dias, fica o conselho. Experimentem um caldo de chabéu com arroz da terra. E acreditem no que vos digo, dificilmente se irão arrepender da escolha.

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