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O NOSSO LUGAR NO MUNDO PODE ESTAR AO ALCANCE DE UM PASSO

REGINA SARDOEIRA
Somos, intrinsecamente, animais. Dir-me-ão que temos qualidades e características que nos conduziram para além da animalidade, a ponto de já pouco termos em comum com aqueles a que chamamos bichos: a consciência, o pensamento, a razão, uma alma, eis o que reservamos para nós, humanos, sonegando – o aos bichos. 
Apesar disso, continuo a afirmar que somos intrinsecamente animais e ainda que eles, os bichos, têm muitas vantagens, quando comparados connosco. No seu território, nascidos e criados no local certo, os animais são auto-suficientes, podem desfrutar da natureza e cumprir o seu papel. Não existem animais inúteis, seres que por aqui andam, podendo ser aniquilados. Todos, elefantes ou formigas, representam um papel na ordem natural, nem mais nem menos importante que o nosso; e todos, desde a formiga ao elefante, reconhecem o seu lugar no mundo. Excepto nós. 
Há alguns dias tive uma experiência singular. 
Com uma preparação mínima – tinha visto algumas fotografias num site sobre lugares extraordinários – fui fazer o percurso dos Passadiços do Paiva. E, durante todo o dia, senti uma irmanação profunda com o meu ser natureza, com o meu ser daquela natureza, rude, primitiva, plena de uma vida que não precisa de ser compreendida, mas que me atingiu suavemente deixando um rasto benéfico. 
Sei bem que o trabalho dos homens que projectaram e construíram aquele percurso de madeira, em escadarias abruptas e em passagens planas, respeitando a serra e bordejando o rio, possibilitando vistas sublimes e atirando-nos para cima e para além, foi a causa de eu tomar conhecimento de semelhante local. Sei bem que apenas o engenho de homens arrojados e sensíveis pôde idealizar e fazer nascer um tal empreendimento. Mas o que eu obtive, nas horas que demorei a fazer 16 quilómetros, não se resume à caminhada em si, à perfeição das passagens construídas, ao marulhar das águas do rio, ao céu límpido do dia estival e a muito mais que por mim também passou, porque foi muito para além disso, devolvendo-me o sentimento intrínseco de quem sou. E do que sou. 
Não experimentei arroubos de exaltação, não soltei exclamações de júbilo, não desatei a fotograr-me avidamente, retendo todos os planos pitorescos. Mas fui una com o sítio, percebi-me ser da natureza e animal e também vegetal e mineral porque não se deu a quebra ou a desarmonia em nenhum momento, em nenhum lugar. 
Soube que toda a angústia humana que frequentemente me acossa, como acossa a todos, não faz o mínimo sentido, e também que a verdade e a beleza residem, por inteiro, na minha e na nossa natureza primordial, presente em cada animal, planta ou pedra e alienada em mim e em nós, seres pensantes, racionais e manipuladores. 
Não quero descrever as linhas do meu passeio, porque não é isso que importa. Qualquer um pode ir lá e ver e sentir com o seu próprio ser. E eu tenho a certeza que cada um fará, da sua própria caminhada, uma narração diferente. 
O que acima de tudo ganhei naquele dia foi a consciência plena de mim, na unidade primordial e talvez nem consciência lhe possa chamar, pois só vim a percebê – lo depois e não enquanto caminhava, e via, e sentia. Sabendo que aquele sítio tem uma localização concreta, sabendo que um mapa pode dar o itinerário e que, para chegar, há que seguir certos caminhos, percebi que, uma vez lá, as rotas, as sinalizações, o dia e a hora pouca importância tiveram, no fundo. 
Foi ali, algures, no norte de Portugal; muitas pessoas lá estiveram ao mesmo tempo que eu; precisei de fazer uma reserva e de pagar uma entrada. Mas o espírito do lugar transportou-me para regiões ignotas e selvagens, senti-me como um explorador primitivo que busca o seu lugar no mundo e que nele se instala quando o encontra – porque aquele é o seu lugar e nenhum outro. 

Steinbeck, no seu livro “A um Deus Desconhecido” , descreve este sentimento de pertença a um lugar, quando Joseph Wayne, o protagonista, encontra o sítio onde percebe que tem que instalar-se criando aí o seu mundo. É uma experiência mística e transcendente aquela que o faz sentir que ali é o centro do seu mundo e ali deve unir – se com a terra a que pertence. Li o livro de Steinbeck há muitos anos, não saberia descrevê -lo nos seus variados episódios, de um modo integral: nunca esqueci, porém, o sentimento de Joseph quando deparou com o centro do seu universo. Na terra. Debaixo de um antigo carvalho. 

Quis explicar a mim mesma o que me aconteceu naquele dia. E só consegui, puerilmente, descrever os meus sentimentos dizendo que me aconteceu a felicidade. Não quis, em nenhum momento do dia, estar noutro sitio ou fazer outra coisa; não me desanimaram as dificuldades do percurso, nem me ocorreu desistir e voltar para trás, quando entendi que não fora equipada com os sapatos certos e que, por isso, iria sentir dores e ficar ferida; não me provocaram raiva de maior as atitudes incorrectas de alguns caminhantes. Fui até ao fim, sem pressas e regressei de igual modo. E o próprio cansaço e as dores e tudo o resto que resulta de não estar habituada à comunhão com a natureza não prejudicaram em nada o sentimento profundo de unidade que ficou em mim para mudar, decerto, o rumo da minha existência.

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