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O SER HUMANO NO SÉCULO XXI

SÓNIA CARVÃO 
Se para outra coisa não servir, ao menos que sirva para gerar, com a ajuda da morte, outra coisa que não seja o SER HUMANO que vigora nos nossos dias proclamador dos valores universais sem os aplicar. Este, que vigora no Séc. XXI, flutua ao sabor das ondas, mais do que o do Séc. XX e este mais do que o do Séc. XIX. e assim sucessivamente. São poucas as traves que têm ficado intactas, genuínas, íntegras, Humanas. A rigidez e a pequenez não têm impedido o desenvolvimento de formas variadas e tem vindo a agrupar-se em seres rugidores.
Dizem que o Humano é um Ser que é, mas o gato também é um Ser que é. A diferença é que o gato mia e ronrona e o Humano faz rugidos. Contudo, com boa vontade, o Humano pode cumprir o seu dever, isto é, o de ser verdadeiramente humano.
Avistamos neste século, pior do que nos anteriores, uma fortaleza plantada no alto da colina, que nos faz andar às voltas e perguntar – Onde estão os Humanos? Dentro ou fora da fortaleza? Quanta mentira nos assola neste mundo terráqueo? Quantos são os Humanos que cuidam em ter os ingredientes que nos dão a indicação de que somos humanos? Que ingredientes são? A genuinidade, a reciprocidade, a verdadeira amizade, entre muitos outros?!
Perguntas e mais perguntas porque pesam as quilhas num Planeta de ditos Humanos que perderam a noção do que é sê-lo proclamando valores atrofiantes e domadores. Há pretensão constante do engano, do engenho e, cada vez mais, o egocentrismo e individualismo substituem os ingredientes referidos acima. Matam-se animais na selva, matam-se crianças com as guerras, destroem-se países inteiros com bombas, saqueiam-se bancos e não se vai preso, ou se vai e fica numa jaula de bronze enquanto o que rouba uma galinha fica em prisão perpétua e de ferro. Ah! Como a vergonha não intimida o HUMANO e este faz-se amigo do outro para conquistar o que pretende, usa e abusa sem olhar a meios para atingir os seus fins!
Soltam-se os cabelos é acusado de gadelhudo, deixa crescer a barba e chamam-lhe barbudo. O sargo deixa de ter escamas e a dourada muda de cor e o Humano ri-se contente e feliz quando lhe coloca azeite e alho em cima. É, deste modo, que corre o Século XXI, mais do que o carapau de corrida em alto mar!
Já a brisa e o nevoeiro disfarçam os acusadores do gadelhudo e a pesca de arrastão arrasta tudo, deixando as águas despidas tal e qual a alma do HUMANO. Tudo em nome do Ser Humano!
Os Humanos vendem-se como vendem o carapau em vias de extinção. Perde-se a noção da liberdade e escolhe-se o pico mais alto da cordilheira para dar nas vistas. De facto, sobre nós recai a ameaça do arbítrio da fortuna, seja ela material ou intelectual! As crianças pensam, conversam, são levadas a decorar em vez de ensinadas a pensar o pensamento. As prioridades no Ensino são numéricas e quantitativas, tal e qual a pesca do bacalhau, da sardinha e outros.
Estamos a chegar a um ponto em que seremos vencidos pelos astros e pelos rios e presos nas margens enquanto o receio de cada um, em Ser HUMANO, aumentar, enquanto não se entender que a Paz não quer saber dos cabelos soltos, da barba gigante e quer antes saber da concórdia nas diferenças, na diversidade, na vibração das trombetas, dos tambores, das danças, dos risos, das alegrias, do SER VERDADEIRAMENTE RESPEITANDO-SE E RESPEITANDO O OUTRO.
SER-SE HUMANO, é ser mais do que racional e ser mais do que aquele que defende os valores universais. Ser-se humano ultrapassa o visível. É intrínseco, está dentro, em primeira instância, nos movimentos peristálticos mas, neste momento, os corpos parecem estar atados, atrofiados, sem plasticidade e vilosidades. Encontramo-nos à beira de uma tragédia quando nem sabemos muito bem quem somos! Fala-se de valores, diz-se que deixaram de existir! Alguma vez existiram?! O que é isso? Quem fala de valores e mente logo a seguir, aldraba, engenha e manipula, mas proclama valores universais, sabe o que diz e o que faz? Talvez saiba e bem, mas há que desconstruir e desconstruir não é destruir e falsificar. Antes nos aprece ser construir a relação, o caminho para o diálogo e este não é a luta pela opinião mas antes a desconstrução do mundo numa relação dialógica, sustentada, construindo um caminho de outra relação dialógica com a Natureza. Esta que já cá estava quando o Humano apareceu. Quando olharmos para a Natureza com olhos de lince, de elefante, de arara de animal não humano, entenderemos o que andamos cá a fazer, quem somos e porque devemos respeitar o outro. Não bastam os tais valores universais pois esses estiveram sempre aí e nem por isso abriram caminho para que o humano o tivesse sido verdadeiramente. Atrofiado, tem estado castrado, originando uma sociedade xenófoba, preconceituosa, sexista, repleta de mentiras e hipocrisia. Os valores devem ser usados com o corpo, alma e espirito permitindo que cada um de nós o seja verdadeiramente e não patrocinando um caminho de imagem hipócrita, do parecer mal e bem, da aparência. Falta genuinidade, plasticidade, reciprocidade, integridade … no “Humano” e não valores universais para SER verdadeiramente HUMANO!

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