BIRD Magazine

MEDITANDO

ALVARO GIESTA
Caro leitor que, porventura, também será autor. Parafraseando “Moita Flores” da sua crónica de hoje para o CM, poderia ter escolhido como tema para esta crónica da BIRD com quem tenho o grato prazer de trabalhar, o Campeonato Europeu de Futebol de 2016 ou muitos dos motivos trágicos que quase diariamente assombram a humanidade. Mas, como de “bola” nada percebo e de “política” muito menos, deitei-me a meditar sobre a tentativa que muitas vezes faço de leituras, mal começadas e nunca acabadas, de obras que passo em revista num extenso espaço de uma grande área comercial onde, vou todos os sábados durante o período da manhã, depois de aí tomar a “bica” habitual.
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Hoje dão-se à luz maus escritos; talvez porque se escreva, apressadamente, de tudo e de nada ou, ainda, porque se queiram dar a conhecer escritos de antanho deixados, anos a fio, a apodrecer no remanso escuro das gavetas acumulando pó sobre pó, como se estratos sobre estratos fossem – muitas vezes fragmentos irregulares de nada sobre nada, na expectativa de que o futuro lavrasse inspiração e escritura para dar continuidade a algo que nunca foi – e aspirassem, esses estratos, a serem, um dia, obra consolidada. 
Aqui deliberadamente não falo de poesia: a nobre escrita por tantos tão maltratada.
Por salões decrépitos se passeiam, hoje, romances e contos mal aparelhados sem cuidar de rever, polir e actualizar a sua lavra, na ânsia apressada (que o tempo é veloz e não perdoa) de nos darmos a conhecer. Afitiva esperança de que em nós reparem – nós que nunca fomos talhados para fecundos, ainda menos para famosos escritores – quando avançamos a passos lestos para o eterno fim: o sempre implacável e sem retorno. Aflitiva esperança de sermos vistos: esperança que se nos escapa por entre os dedos como frágil e escorregadia água deslizante em turtuosa e íngreme gateira. Todos queremos ser escritores! Oh malfadada fama que, de nós, outros, sempre andaste tão arredia!…
Na pressa de nos darmos a conhecer – nós, os não fadados para escritores – escrevemos, em vertigem, sem pensarmos, maduramente, naquilo que escrevemos: tão grande é a “tal ânsia” de nos mostrarmos! Furtamo-nos aos grandes temas que nos obrigam a uma meditação mais séria e mais profunda, e enveredamos por aqueles que nos são quotidianos e repetitivos, mas banais. E que, de tão repetitivos e banais, cansam e causam enjoo. Insistentemente falamos deles e, porque batemos sempre na mesma tecla, corremos o risco de a desafinar e de ferir os tímpanos dos mais exigentes ouvintes.
Há escritores fabricados como há os geniais iludidos: são aqueles escritores que nunca serão coisa nenhuma. São como a música “pimba” que, de tão corriqueira e oca que é, não passa do próximo verão. Mas vende, enquanto é, ainda que o lucro recheie apenas as algibeiras da editora. Uns e outros ficam felizes porque criam algo de seu. O escritor, o livro; o editor, a ganância sem escrúpulos.
São estes escritores “fabricados” que, porque são maus, são publicados por editores que nem têm tempo para os ler e nem sequer sabem decidir, lendo-os, se o seu produto tem ou não tem qualidade. Aqui, a qualidade que importa é que ele, o tal escritor fabricado, tem o ou esteve no tal programa das más audiências, ou seja, dos maus leitores-ouvintes, a falar de nada, mas alucinou as massas enquanto esteve. Funcionou como “ópio do povo”. O que importa é vender, mesmo sabendo que vai ser vendido a quem não sabe o que compra, porque também não lê. E, se o tal programa “vende”, vamos publicar o “tal” escritor ou escritora. Porque, fazendo rir, mesmo que com riso forçado, aqueles que até têm pouca vontade de rir, ou gerando conflitos que espicacem a curiosidade do ouvinte para que se faça esquecer dos impostos, vai vender com certeza. Se prende ao programa os tais “muitos” leitores-ouvintes, dê-se-lhe uma caneta e um bloco e diga-se-lhe: “Escreve, que eu publico. Tu vendes!”. Apenas não se lhe diz: “Do produto que venderes eu, editor, arrecado 90%” e “do total dos livros publicados (ou que dizem que publicam), 50% ficam a meio caminho entre os escaparates e os armazéns das livrarias” à espera de vez, no rito da devolução ao editor, que os encaminhará, mais tarde, para um destes fatais destinos: na pior das hipóteses, para a picadora de papel; na melhor das hipóteses, para as prateleiras dos supermercados das grandes áreas comerciais onde permanecerão “entalados” entre artigos de bazar e artigos de mercearia à espera da compra ao preço da uva mijona.

Por ali fica aquela literatura de cordel em que as histórias que se contam não contêm histórias nenhumas, misturadas com caixas do “lava mais branco” e fortes odores a “queijo da serra” ou do “chouriço caseiro com tempero de vinho tinto”. Triste sina lhe estava reservada, a essa literatura proveniente dos escritores de encomenda e de ocasião. Mas, pior dor, é ver também os “Pessoas”, os “Saramagos” ou os “Lobos Antunes” em repouso absoluto com aquela literatura “enlatada” à mistura com pneus e champôs de toda a gama…

A política é sempre a mesma: é que ali sempre há-de haver alguém que compre um “livrito”, daqueles que trazem na capa o retrato do seu autor, para oferecer em dia de aniversário mesmo sabendo-se, à partida, que o aniversariante detesta ler. Até a boa escrita, que não conhece (!…), quanto mais a má do tal genial iludido, só porque nos entrou pelos olhos dentro como marca de prestígio que se decidiu lançar no mercado. Não será marca de prestígio mas poeira que se lança aos olhos de quem ainda vê!

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