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EMIGRANTE DE AMARANTE

HÉLDER BARROS
Corria o ano de 1968, estávamos numa quinta de São João de Várzea, Amarante. Manuel era o filho mais velho de uma prole de dez irmãos. Estava a chegar a idade de cumprir o serviço militar obrigatório, que na altura implicava ir lutar numa guerra sem sentido, pelo menos para ele, nas nossas antigas colonias ultramarinas. Nada sabia de política, muito menos de guerras, a vida dele foi sempre dedicada a auxiliar o Pai, nas suas tarefas diárias, a trabalhar como caseiro numa grande quinta nas fraldas da Serra do Marão. Conhecia isso sim, os ciclos naturais da agricultura: as regas, as podas, as sulfatações, semear e mondar milho, puxar os bois com o arado e com carradas de mato que cortava com o seu progenitor, vindimar, apanhar azeitona, entre muitas outras tarefas que um lavrador tinha, naquele tempo. Um rapaz que sabia fazer de tudo, numa agricultura que ainda era muito tradicional, muito rústica e de braços humanos e de tração animal, não se pode dizer que não sabia nada da vida… sabia muito, digo eu que nada sei, perante o que ele já sabia…
Ainda conheci alguns lavradores antigos, na minha meninice e adolescência, estando á vontade para afirmar que eles eram, na sua generalidade, muito sábios. Conheciam os ciclos da vida de uma forma plena, sabiam quando ia chover ou estar sol, quando ia estar calor e frio, a influência da lua na terra, nas pessoas e animais. Pouco estudaram, mas faziam contas como ninguém, raramente se enganavam, podiam não saber ler cartas ou livros, mas liam muito bem os sinais com que a vida os confrontava. Sabiam quando ia parir a vaca, quando deviam por os ovos a chocar nas galinhas, quando semear, quando plantar, quando colher… enfim, dominavam o ritmo natural da vida.
Voltando ao problema que o Manuel tinha que enfrentar, tornou-se claro para ele que, ao invés de ir lutar para uma guerra sem razão para ele, seria preferível dar o salto para França como tinha feito um primo dele. Além disso, o futuro dele na sua terra, passava por trabalhar de sol a sol e a não sair da cepa torta… note-se que estávamos ainda no Estado Novo e os ventos que Abril haveria de nos trazer, ainda eram apenas uma simples miragem. Manuel decidiu ir para França, pedir um dinheirinho ao seu Pai, ao seu tio e primos que já lá estão, para a subsistência nos primeiros tempos e que lhe tentassem arranjar trabalho. Foi à mercearia do Ribeirinho e à tasca do Alfredinho tentar arranjar contatos para a tentativa de salto na fronteira em Chaves e arranjar alguém que lhe ajudasse a escrever uma carta ao seu tio de França.
Depois de todos os contatos efetuados e recebidas as respetivas confirmações, lá arrancou Manuel para Chaves, de boleia num camião que levava madeira em folhas de contraplacado das famosas fábricas TABOPAN de Amarante. Como não havia espaço na frente de cabine do camião, foi aconchegado nos lugares traseiros da mesma, na chamada cama do motorista e ajudantes. Chegou à terra dos flavienses na tarde do mesmo dia de verão, em que partiu de São João de Várzea e depois de agradecida a boleia ao conhecido de seu Pai, esperou que a noite caísse e depois dirigiu-se para junto do rio Tâmega, no local e hora, marcados. Lá apareceu António Passa, que lhe solicitou a quantia previamente combinada e pediu que Manuel o seguisse em silêncio. A noite estava escura como breu, o Passa escolheu uma noite que se previa sem luar, como era seu costume de homem experiente no ofício. Passaram o rio num vau, mas o Passa ia á frente segurando a mão do Manuel, pois se escorregassem poderiam apanhar uma corrente mais rápida e serem puxados rio abaixo. António seguia na frente, conhecia aquelas pedras de cor, ouviram cães e agacharam-se no meio do mato. Falso alarme, era um cão vadio, provavelmente a fazer a corte a uma fêmea na mesma condição. A barriga do Manuel ia roncando, não comia desde manhã cedo e não sabia quando comeria outra vez… o dinheiro era todo preciso para a viagem e não poderia prever se seria o suficiente. Finalmente passado para o lado de lá da fronteira, foi dormir num alpendre abandonado depois de caminhar até perto de Verin, cheio de fome e completamente exausto. No meio do sono, sentiu ratos grandes a passarem por cima de si, mas de tanto cansaço apenas os sacudia com as mãos e caía logo num sono profundo.

De manhã levantou-se cheio de fome e de frio, talvez mordido numa mão, por um roedor do palheiro, e logo procurou a estrada, tentando apanhar boleia para o primeiro ponto da viagem, em que seguiria de comboio. Escusado será dizer que, foi outra viagem bastante atribulada até apanhar o comboio que o levaria à fronteira com a França. A fome é negra e junta com o cansaço, levou a que dormisse sempre no comboio, fosse de dia ou de noite. Depois a linha mudava de bitola e apanhou outro comboio até Paris, mas na fronteira não resistiu á fome e foi a uma padaria comprar pão que devorou rapidamente, quase ficando entalado.

Chegado a Paris, procurou o seu tio e passado algumas horas a pedir informações e a andar de quarteirão em quarteirão, apanhou finalmente um autocarro que o levou a uma cidade na periferia da capital Francesa, onde o encontrou. O tio depois de o recolher e de lhe dar estadia e comida, tratou de lhe arranjar um emprego como servente da construção civil. Aos poucos, foi motorista de táxi, dos autocarros em Paris, até que criou uma empresa de transporte entre França e Portugal, e, vice-versa. Criou fortuna e por meados da década de oitenta decidiu investir em Portugal: comprou uma quinta onde fez uma grande casa, com uma valente piscina. Os seus filhos não mais quiseram regressar a Portugal, pois nasceram em França e lá tinham as suas vidas organizadas e com muito mais perspetivas. Escusado será dizer que Manuel depressa se arrependeu amargamente de ter investido o seu dinheiro em Portugal; a vinha já a cortou pois em meados da década de 90, começou a dar imenso prejuízo… o dinheiro pouco lhe rende nos aforros que fez… equacionaria voltar a França se conseguisse vender o seu património sem perder muito valor; mas, não há sequer potenciais compradores…
Quando escrevi esta estória do Manuel de Várzea, podia ter escrito com muitos outros nomes, pois em Fregim, Mancelos e em Amarante em geral, conheci ainda muitos emigrantes dos anos 60-80 e, o minimo que posso dizer, é que se podiam fazer livros s

obre estes aventureiros que, não partiram em caravelas como os nossos grandes conquistadores, mas comeram o pão que o Diabo amassou, como costuma dizer e bem, o povo; não sabia ainda o resultado da final do campeonato europeu entre Lusitanos e Gauleses. O que posso dizer quanto a isso é que, a alegria que a nossa seleção nos concedeu e, particularmente, aos nossos emigrantes em França, aos quais não fizemos ainda enquanto pátria, uma homenagem mais do que devida e merecida, tem que ser dedicada, mormente, a eles. Em caso de vitória ou de derrota, a nossa alegria tem que ser grande, como o será, estou certo, para os emigrantes portugueses. Ainda bem que é em França, onde vejo gente que, apesar de os bancos portugueses lhe terem subtraído economias de suor e de sangue, ainda choram de forma autêntica com o nosso hino, idolatram os nossos bravos jogadores, amam verdadeiramente a nossa pátria! E pensar que o Cristiano Ronaldo poderia, muito bem, ter sido um deles… e sim, é fado nacional, ter que sair de Portugal!

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