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HOLLANDE E OS SEUS CABELOS

GABRIEL VILAS BOAS
Em França o assunto do momento já não é a humilhante derrota da seleção gaulesa frente aqueles nojentos dos “Bidonville”, mas o salário do cabeleireiro do presidente Hollande: dez mil euros. Sim, dez mil euros para pentear um careca, ou melhor, a calvície de um presidente que exibe algumas melenas na cabeça. Deve ser trabalhoso ter de lavá-las, penteá-las, pintá-las e portanto dez mil euros é um ordenado perfeitamente aceitável.
O fait-divers diverte a França que se mostra indignada com o seu presidente e levou François Hollande a responder: “Fiz diminuir o orçamento do Eliseu de 109 milhões de euros para 100 milhões, desde 2012 até agora. Reduzi 10% ao efetivo do Eliseu. (…) O meu salário foi reduzido em 30% e vêm ter comigo por causa de um assunto do qual não sou o primeiro responsável? Admito qualquer crítica, mas essa não!”
Hollande esteve bem na resposta, exceto no facto de… ter respondido, não respondendo. 
Hollande respondeu com aquilo que deve ser respondido: a despesa com o pessoal do Eliseu baixou; o ordenado do presidente baixou. O resto não interessa. Se não interessa, por que se deu ao trabalho de responder? E, optando por responder, por que não respondeu ao que lhe foi perguntado? Se ele não é o responsável pelo seu cabeleireiro pessoal, quem é?
A situação é ridícula e embaraçosa, mas a melhor maneira de a enfrentar ter sido não lhe responder ou dispensar os serviços de um cabeleireiro que a careca do presidente não justifica.
A resposta do presidente a este divertido fait-divers suscita-me no entanto uma outra reflexão: Hollande não se preocupou em explicar aos franceses o anémico crescimento económico da França, os problemas com os emigrantes, os sucessivos incumprimentos do défice público, a insatisfação dos trabalhadores, mas teve necessidade de justificar o salário bruto de um cabeleireiro, para dizer que era uma tontice. Daqui se pode concluir que Hollande só responde a tontices, porque para assuntos sérios não tem resposta.
Este fenómeno não é um exclusivo do presidente francês, mas de muitos políticos um pouco por todo o mundo. São notícia pelos faits-divers, estão sempre dispostos a alimentá-los quando não a provocá-los, mas fogem a perguntas sérias e objetivas sobre os principais problemas dos povos que governam.
Esta maneira oportunista e pequenina de atuação política e gestão da informação pública é estupidamente alimentada pelos media, especialmente a imprensa, que, em busca do último caso para entalar o seu odiozinho político de estimação, gasta o tempo e a paciência das pessoas com assuntos menores e esquece de apresentar e explicar o plano governamental (ou presidencial) para as diversas áreas económicas, sociais, culturais. Graças a esta gestão show off, vários diretores, ministros, primeiros-ministros escapam ao escrutínio das suas medíocres decisões, das suas omissões, dos seus enganos.
Quando passamos a vida a discutir o superficial, obviamente o essencial fica por avaliar. Depois é fácil escolher outro porque o resultado deste foi mau. O problema é que poucos sabem dizer por que correu mal, o que teria sido possível fazer de diferente nas circunstâncias em que determinadas decisões ocorreram.
Discutir o cabeleireiro de um careca é divertido, mas não deve ocupar mais tempo que o de uma boa anedota.

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