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NESTE PAÍS… DE LENDAS E HISTÓRIA FEITO (COSTA VICENTINA)

ALVARO GIESTA
«Há momentos em que, na maré vazia, o mar se retira e faz descobrir uma areia plana onde a água, escorrida, proporciona belos efeitos fotográficos ao aficionado da fotografia. É o Sudoeste Alentejano onde o tempo consolidou e modelou as encostas areníticas, ora rosa, ora ocre, ora vermelhas (no Alentejo, predominantemente arenitos), ora brancas e pretas (no Algarve, xisto e basalto).» [sic]
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De um trabalho de campo que realizei por todo o País, para determinado fim, que aqui não importa referir, e do qual já aqui publiquei um texto em resumo e sem imagens virado para o Alto Alentejo e Beiras com enfoque nas dez aldeias históricas de Portugal; agora este, virado para o Sudoeste Alentejano, também em resumo mas com algumas imagens (minhas e cedidas e/ou  com D.A. reconhecidos).
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Banhemo-nos em qualquer das belíssimas praias da Costa Vicentina para depois partirmos à descoberta do Algarve.
Extensa faixa costeira, entre S. Torpes (logo abaixo do complexo industrial de Sines) e o Burgau (a seguir ao Cabo de S. Vicente que lhe haveria de dar o nome), é uma enorme extensão debruçada para o Atlântico vinda da aridez de um Alentejo seco, com especificidade própria, cuja paisagem se caracteriza por uma sucessão de arribas altas e barrancos fundos, cursos de água temporários ou permanentes, praias e pequenas ilhas, rochedos isolados, estuários, sapais e charnecas.
Arribas e falésias xistosas dos períodos Triássico e Jurássico, espreitam, na Costa Vicentina, o Oceano Atlântico com quem se debatem numa luta constante contra a erosão marinha. Uma abundante vegetação xerófita nestas encostas areniticas, onde a Armeria Welwitschii, espécie em extinção, ainda teima em persistir.
Com lendas e um pouco de história à mistura, que o tempo e a investigação não definiram sobre a sua veracidade, vamos ver pequenas coisas na denominada Costa Vicentina para depois convidarmos o leitor amigo a dar connosco um mergulho nas cálidas águas das praias Algarvias. Vamos satisfazer o ego apaixonado, neste verão quente, pelo azul do mar e pelo erudido das costas alentejanas, que lhe sustêm o ímpeto de entrar por aí adentro e apertar, num abraço húmido no inverno e cálido no verão, as áridas planícies alentejanas salpicadas por já raras e seculares azinheiras que vão oferecendo, aqui e além, a sua aconchegante, saudosa e refrescante sombra.
Porto Covo, a espreitar ali ao lado a Ilha do Pessegueiro, é uma antiga povoação de pescadores que foi recuperada pelo Marquês de Pombal após o terramoto de 1755. Ao forasteiro, que a visita, aconselhamos ver a sua praça principal, com o nome do Marquês, setecentista, de traça quadrangular à maneira das praças pombalinas. Percorra esta Aldeia piscatória que suscita paixões a escritores e artistas, de casas baixas, imaculadamente caiadas de branco, numa simbiose perfeita entre a arquitectura tradicional alentejana e a traça pombalina e depois vá deleitar-se nos prazeres balneares das suas águas tépidas ou daqui parta à descoberta das terras do interior.
Sobre a Ilha do Pessegueiro, que parece insignificante, há muito de histórico a dizer: “A ilha do Pessegueiro, ao largo de Porto Covo, a cerca de 250 metros da actual linha de costa, é um dos ex-libris da Costa Sudoeste. A ilha, naviforme, tem cerca de 340 metros de comprimento e uma largura máxima de 235 metros. É toda ela de arenito dunar assente sobre xistos e deve ter-se formado durante a última glaciação (Wurmiana) quando o nível do mar desceu cerca de 120 metros em relação ao nível actual. verhttp://portocovo.planetaclix.pt/ilhado.htm
E dizem os entendidos na matéria, que “parece existirem evidências que os Cartagineses se estabeleceram na ilha ainda antes da II Guerra Púnica (218-202 a.C.)”. E que “na época romana (entre meados do séc. I d.C.) a ilha foi centro produtor de preparados de peixe”. Ela foi também, durante séculos, refúgio de piratas. E terá sido Filipe III que, em 1603, pela necessidade de defender a ilha dos ataques dos piratas, mandou construir um forte na “Ilha do Pixiguero”que não terá resistido às investidas dos mesmos ou, quiçá, a ataque espanhol durante as guerras da restauração. Em finais do séc. XVII, D. Pedro II terá ordenado a construção de novo forte, que comportaria uma guarnição de 30 homens e 5 peças de artilharia.
Siga connosco o investigador Júlio Gil em “Os Mais Belos Castelos de Portugal”, e fique a saber que, para evitar um ataque a partir do continente foi construído o forte da “ilha de dentro”, hoje abandonado, onde ainda é possível ver “o seu fosso e as bem aparelhadas muralhas quase intactas. (…)”. E que o amplo terraço, é o “mirante directo da ilha do Pessegueiro, da praia, dos rochedos que protegem Porto Covo, da continuidade da orla marítima até Sines”.
Pedimos desculpas aos nossos leitores do alongamento sobre tal ilha, mas achámos de todo importante para lhe retirarmos o mito de “ilha insignificante” perdida na costa do sudoeste alentejano.
E, sem nos determos agora em pormenores e mais demoras, passaremos por Vila Nova de Milfontes, no estuário do rio Mira, para espreitarmos a praceta que homenageia os aviadores Brito Paes e Sarmento de Beires que, com o mecânico Manuel Gouveia, há quase 80 anos partiram no avião Pátria com destino a Macau. Entre tons de laranja e anil, o sol despede-se na Foz do Rio Mira, tal como nós, neste fim de dia que se aproxima, a caminho do outro lado do mundo, num adeus colorido às gentes de Vila Nova de Milfontes.
A partir daqui, a costa eleva-se e as falésias chegam até ao Cabo de S. Vicente. São 26 Km de falésias que chegam a ter 45 metros de altura no Cabo Sardão. Entre elas há praias, dunas e charnecas ricas de diversidade rochosa, faunística e florística.
Um dos mais bonitos percursos, em dunas móveis, vai de Almograve, com as suas dunas de terra vermelha e ferruginosa, à Zambujeira do Mar. Uma visita à praia faz regressar ao passado, extremamente remoto, do nosso país, numa análise presente e interactiva às transformações geológicas ocorridas.

Zambujeira do Mar é ainda um dos paraísos do litoral alentejano. As praias continuam a ser o seu principal atractivo, mas muito mais há a descobrir ao longo desta costa, integrada no Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. No cimo da falésia a pequena povoação, que desde tempos remotos se dedica às artes da pesca, é um miradouro natural para o imenso oceano. O mar foi recortando as grandes arribas de xisto, estendendo grandes areais ou criando pequenas praias, muitas delas milagrosamente desertas.
Mais do que as palavras para falar sobre as praias do Sudoeste Alentejano, ou Costa Vicentina, também designada, nada melhor do que as imagens colhidas lá do alto, que um conhecido do momento nos forneceu desta zona costeira, tiradas em tempo e com mérito reconhecido, por certo “capitão dos ares” de quem, por incúria e imperdoalvelmente se não registou o nome para que agora merecidamente aqui constasse. São as marcas da idade, que o tempo deixa inexoravelmente numa pessoa…
Aljezur, “a honrada”, como lhe chamou D. Manuel I, com o seu castelo, último reduto dos árabes e a cascata de casas brancas ao longo da encosta até ao vale da ribeira de Aljezur ou Vila do Bispo, a norte do Cabo de S. Vicente e a Praia do Castelejo de mar bravio, onde grandes rochedos e calhaus muito rolados brancos e negros consomem a vista e o tempo ao mais amante das imagens da natureza.
E chegámos, enfim, neste curto resumo descritivo, a Sagres, numa cansativa e vertiginosa digressão ao volante dum TT, que nos gastou um fugaz dia de primavera, ainda vizinha do inverno, embora com abertas prometidas e abençoadas para a fotografia, mas nos fez bem ao espírito que se libertou do stress diário da azáfama citadina, para aliviar o corpo que, com prazer, calcorreou dunas e buracos traiçoeiros e encharcados, numa exploração às ditas plantas e flores em vias de extinção, não tão meticulosa como merecia a bonita paisagem. Mas são imposições de que os ponteiros do relógio e os calendários se não compadecem…
Sagres, onde o Infante D. Henrique fundou a escola náutica das Descobertas renascentistas portuguesas, e onde já os sacerdotes Celtas haviam erigido os seus toscos altares feitos de rocha.
Os Romanos chamaram-lhe “Promontorium Sacrum”, de onde se originou o nome de “Sagres”, ponto extremo do ocidente, onde o Sol, no seu ocaso, “fazia ferver as águas do oceano”. Um promontório onde, por estranho que pareça, não é ventoso no inverno.
E como de início nos propusemos dizer – de lendas e história feito – deste torrão luso, conta a lenda, dos Corvos ou de S. Vicente, que quando o rei Rodrigo perdeu a batalha de Guadalete e os Mouros ocuparam a Península Ibérica e ordenaram que todas as igrejas fossem convertidas em mesquitas muçulmanas, os cristãos de Val

ência, entre os quais um deão (decano) quiseram pôr a salvo o corpo do mártir S. Vicente que estava guardado numa igreja. E navegaram pelo Mediterrâneo com intenção de chegarem às Astúrias, levando consigo o corpo do santo. Na turbulência do Atlântico rumaram à costa Argarvia. À pergunta que terra era aquela tão bela e que cabo era aquele o mestre respondeu que a terra se chamava Algarve e que o cabo se chamava “Promontorium Sacrum”. Foi então que os cristãos de Valência consideraram a hipótese de desembarcar e construir um templo em memória de S. Vicente e dar o nome do santo ao cabo mais ocidental, junto ao promontório de Sagres. Nestas considerações, o barco encalhou, forçando-os a passar ali a noite. Na manhã seguinte, quando se preparavam para retomar viagem, avistaram um navio pirata. O mestrepropõe afastar-se com o navio para evitar a abordagem dos corsários, enquanto os cristãos seescondem na praia com a sua relíquia. Depois viria buscá-los. Mas o barco nunca mais voltou e os cristãos ficaram naquele lugar e construíram o templo em memória de S. Vicente, formandouma pequena aldeia à sua volta, isolados naquele lugar ermo.

D. Afonso Henriques entra em guerra com os mouros do Algarve e estes vingaram-se dos cristãos de

S. Vicente, arrasando-lhes a aldeia e levando-os cativos. Passados cinco décadas um cavaleiro veio avisar D. Afonso Henriques que existiam cativos cristãos entre os prisioneiros feitos numa batalha contra os Mouros. Chamado à presença do rei, o deão, já muito velho, contou-lhe a sua história e confidenciou-lhe que tinham enterrado o corpo de S. Vicente num local secreto, pedindo ao rei que resgatasse o corpo do mártir para um local seguro. Assim, D. Afonso Henriques zarpou num barco com o deão a caminho de S. Vicente. Mas o deão morreu durante a viagem ficando sem se saber onde estava o santo enterrado. D. Afonso Henriques ao aproximar-se do cabo e das ruínas do antigo templo, avistou um bando de corvos que sobrevoavam um certo lugar; ordenou aos seus homens que escavassem nesse sítio e neleencontraram o sepulcro de S. Vicente, escondido na rocha. Trouxeram o corpo de S. Vicente de barco para Lisboa e durante toda a viagem foram acompanhados por dois corvos, cuja imagem ainda hoje figura nas armas de Lisboa em testemun

ho desta história extraordinária.[sic]

E a história… da importância do Cabo de S. Vicente pela posição estratégica como local de culto desde o Neolítico, comprovado pela existência de importantes núcleos de menires, e pelo relato, de autores gregos (séc. IV a.C.), sobre cerimónias religiosas envolvendo libações, tal como da proibição da presença de seres humanos durante a noite, dado ser frequentado por deuses. No período em que os fenícios tinham benfeitorias no Algarve, existiria em Sagres um santuário invocando a divindade de Cronos-Saturno-Baal.
Local de passagem obrigatória dos navios em direcção ao Mediterrâneo, o Cabo de S. Vicente foi palco de importantes batalhas navais. Fastidioso seria estar aqui a enumerá-las, mas fossem elas travadas entre corsários ou entre almirantes nobres ingleses, não deixaremos de referir que, a esquadra ao serviço do rei absolutista D. Miguel foi aqui capturada em 1833, pela armada das hostes liberalistas.
Salema e Burgau, duas praias ali ao lado onde pode expor o corpo, num nu integral, num brinde directo e saudável com a natureza.

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