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AMIZADE ESTELAR

“Éramos amigos, tornamo-nos dois estranhos. Mas isso é realmente assim, não vamos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois navios que possuem, cada qual, o seu objectivo e o seu caminho; podemos cruzar-nos e celebrar juntos uma festa, como já fizemos – e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado ao seu destino e ter tido um só destino. Mas, então, a todo-poderosa força de nossa missão afastou-nos novamente, em direcção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo – ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis modificaram-nos! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é a lei acima de nós: justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que as nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajectos – elevemo-nos a esse pensamento! Mas a nossa vida é muito breve e a nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade. – E assim acreditemos na nossa amizade estelar, ainda que tenhamos de ser inimigos na Terra.”

Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência 
REGINA SARDOEIRA
É o meu aforismo de eleição, quando escolho escrever sobre amizade, este, de “A Gaia Ciência” , de Nietzsche. Julgo estar contido nestas palavras o essencial do que significa, de facto, a sublime união entre dois seres, o seu afastamento por razões, ora elevadas, ora mesquinhas, mas também o que pode ficar, no fim, quando os dois rompem e partem para destinos diversos. Amizade estelar, assim intitulou Nietzsche este texto, aludindo a uma possível união etérea, em órbitas invisíveis, para lá do mundo e do tempo finito que separou os amigos. Tão próximos que eles eram, dois navios ancorados no mesmo porto, sob o mesmo sol; e depois, a partida para novas viagens, rumo a outras aventuras do corpo e da alma, e o esquecimento, quem sabe ainda a memória ressentida por agravos e ofensas que nenhum conseguiu resolver e sanar. Mas sempre a luz da esperança, a pequena centelha que poderá continuar a fulgir na rota invisível de outras atmosferas, criando o espaço para novas festas de encontro, no intervalo entre duas ausências. 
Leio este texto e evoco, de imediato, quantos amigos se desviaram de mim (e eu deles) numa curva do caminho, e nos perdemos, reciprocamente, o rasto, sem tão pouco sabermos por que se deu a ruptura, ou porque não fomos capazes de resolver diferendos e equívocos, decerto fúteis – pois éramos amigos. Mas percebo também que o tempo e as novas experiências nos vão mudando e talvez, se encontrarmos de novo esses amigos perdidos, já não saibamos quem eles são, de facto, e não sejamos capazes de renovar os laços interrompidos ou desfeitos. 
Porém, quando assim falo de amigos perdidos e de obstáculos a construírem barreiras e muros entre seres outrora próximos, talvez não me refira ao que julgo ser a verdadeira amizade, essa que nasce de uma irmanação profunda, de um encontro de pessoas que falam a mesma língua e continuarão irmanados e a usar o mesmo léxico ainda que a distância física lhes impeça a comunicação no quotidiano. Existem espíritos afins, para quem um ano de afastamento parece apenas um segundo, quando se dá o reencontro, almas que nasceram do mesmo ventre terreno ou etéreo e a quem basta um toque ligeiro, uma palavra, um sinal para saberem que existe a simbiose. 
O resto que assim corre sob o nome de amizade, mais não será que o hábito da convivência, a vizinhança, o acaso que leva os humanos a frequentarem os mesmos lugares, num certo tempo. E um dia, rompidos a convivência, a vizinhança, o acaso, sentirão que nada os ligava, afinal, a não o ser essa exterioridade – se é que voltam a pensar uns nos outros. 

A amizade, se existe, é a afirmação constante e continua da identidade na diferença, a troca de tesouros e a restauração de elos, a cura das feridas e a renovação do tecido da união , quantas vezes fragilizado nos revezes do mundo. 
Reflicto nestas minhas palavras e no aforismo nietzschiano e perturbo-me com o pensamento trágico de que talvez a amizade não seja do mundo, deste nosso mundo, onde as querelas se agigantam e a traição esconde as suas farpas, entre sorrisos solícitos, para poder granjear o terreno perfeito para as brandir e arremessar. Sempre supus (e ainda suponho) que tenho em mim as coordenadas perfeitas para ser amiga, sendo- o, de facto, incondicionalmente e sem reservas. Sinto que a partir do momento em que me relaciono com alguém sou responsável por ele, devo-lhe ajuda, compreensão, solidariedade e isso até ao fim da vida de um e do outro e mesmo para além. Pratico e pratiquei esse compromisso (de mim para mim própria) e descobri que outros já o escreveram, ao reflectirem sobre a amizade. 

“Se queres um amigo cativa-me” diz a Raposa ao Principezinho (de Saint Exupery), e “ficas para sempre responsável por aquele que cativaste”; e escreve Levinas ” És inteiramente responsável pelo teu amigo e se ele não o é para contigo, o problema é dele e não teu.” Palavras idênticas li em Dostoievski, não sei ao certo em que obra desse profundo psicólogo russo. 

E a raposa ensinou ao Principezinho a importância de regar a sua rosa, deixada no pequeno planeta de onde caíra, porque, contrariamente ao belo jardim, na Terra, onde centenas de rosas desconhecidas criavam um belo cenário, embora alheio, a rosa frágil e mimada do seu reino dependia dele e dos seus cuidados cúmplices, para poder resistir. 
Se a rosa não agradece os cuidados do Principezinho, se o amigo se esquece de retribuir os favores do amigo e continua pedindo mais, o problema é dele e não do amigo que, sendo-o, deve continuar a sua dádiva. 
Julgo que a falência da amizade deriva de queremos que nos paguem o bem que fazemos ao amigo e de nos sentirmos insultados se ele não reconhece a nossa dádiva. Julgo que vivemos num mundo de trocas comerciais e a amizade dos humanos raramente passa disso mesmo. 

“Os homens já não têm tempo para tomar conhecimento de nada – diz a Raposa – compram as coisas feitas aos mercadores. E como não existem mercadores de amigos, o

s homens já não têm amigos.” 


* Cito Emanuel Levinas e Dostoievski (e também Saint Exupéry), de cor. Dos dois primeiros, não saberei dizer, agora, a respectiva obra; de Saint Exupéry é, obviamente, “O Principezinho”.

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