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CHAPEÚS HÁ MUITOS, SEU PALERMA! COMÉDIAS TAMBÉM!

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
A propósito da recente estreia de A Canção de Lisboa, de Pedro Varela, e relembrando os outros filmes desta nova trilogia (O Pátio das Cantigas e O Leão da Estrela, de Leonel Vieira, ambos de 2015), aproveito para relembrar os filmes que, nos anos 30-40, inspiraram estas mais recentes versões.
Nos primeiros minutos de O Pátio das Cantigas, de Francisco Ribeiro (1942), o narrador apresenta-nos as personagens do pátio do Evaristo e sublinha o caso “nunca visto das tentações do demónio”
E uma das tentações do demónio é precisamente a chamada comédia portuguesa que encanta os espetadores dos anos 30-40 do século XX. Um cinema, uma época, uma multiplicidade de vozes, de atores e de imagens. À volta deste pátio do Evaristo, encantámo-nos com A Canção de Lisboa (1933) de Cottineli Telmo, O Pátio das Cantigas (1942) de Francisco Ribeiro e O Leão da Estrela (1947) de Arthur Duarte.
Elas fazem parte da denominação comédia à portuguesa, uma máquina de sonhos do Estado Novo: sonhos a preto e branco, sonhos inspirados pelas comédias de Hollywood, que enchiam as salas de cinema e a imprensa da época.
O pátio do Evaristo é um pedaço de Lisboa que é, ao mesmo tempo, um espaço arquitetural e um produtor de histórias da cidade porque a comédia portuguesa é também a imagem de uma cidade, de uma cidade apaixonada das casas de fado e das pequenas tabernas, uma cidade de bairros típicos e marchas populares – o Castelo, a Estrela, o Bairro Alto, Sete Rios.
O sucesso, na altura, deveu-se à extrema cumplicidade entre as realidades vividas pelo público e a ficção representada pelas personagens. Os pequenos comerciantes, os funcionários públicos, as “criadas de servir”, os jardineiros, os motoristas e os pequenos proprietários identificavam-se com as personagens, com os bairros e os jardins que apareciam no ecrã. Os filmes eram as vozes que lhes transmitiam os valores que eles tinham aprendido a respeitar e a enganar: os valores do Estado Novo e as formas, muito subtis, de criticar o regime enganando a censura. Estas comédias projetam precisamente o valor da voz, da modulação vocal de um dos atores mais emblemáticos destes filmes: António Silva, que, em O Pátio das Cantigas, interpreta o « Evaristo, pessoa de génio agreste »
António Silva, através das personagens que cria, é sempre dominador, através do mau feitio ou de uma ternura submissa e interesseira; é sempre manipulador e criador de esquemas mirabolantes e hilariantes. Tem sempre solução para tudo e encontra sempre as palavras certas para toda a gente.
Com uma voz inesquecível, ele é o criador de jogos de palavras, jogos de homonímias, de homofonias e de polissemias. Uma voz injuriosa – “ó seu grandessíssimo e alternadíssimo camelo”, ou os célebres jogos com os verbos “sincronizar” et “des-sincronizar” em O Pátio das Cantigas.
António Silva divide o protagonismo destas comédias com outro monstro sagrado destas andanças: Vasco Santana. Com eles e com tantos outros, a comédia à portuguesa traz-nos um conjunto de vozes e de memórias, expressões que recordamos, piadas que não esquecemos e que ainda atualizamos e que conferem um espírito intemporal a este tipo de comédias, muitas vezes repetidas na televisão e difundidas em dvd. Não esquecemos a célebre sequência de Narciso, completamente bêbado, a falar para o candeeiro com o conhecido “compreendi-te!” em O Pátio das Cantigas. Está sempre presente a famosa aventura no Jardim Zoológico de Lisboa – “chapéus há muitos! Seu palerma!” em A Canção de Lisboa. E aquela famosa receita para curar as manchas da girafa – “a partir de hoje só água fervida” – uma verdadeira paródia para os atuais regimes de emagrecimento. Em 
O Pátio das Cantigas, Evaristo perde as estribeiras quando alguém lhe pergunta « Ó Evaristo, tens cá disto? ». O Engenhocas, inventor, homem do telégrafo e dos primórdios da rádio, deixa-nos, no pátio do Evaristo, a célebre frase – “m como manteiga, m como manteiga” e “senhora Rosa, senhora Rosa, chegou a sua filha, chegou a sua filha”.
A “comédia à portuguesa” dá-nos atores – António Silva, Vasco Santana, Beatriz Costa, Laura Alves, entre tantos outros – expressões, canções, cenas mirabolantes, retratos de uma época que o público tornou intemporais.
Estrear filmes com o mesmo nome e montar uma excecional máquina publicitária para atrair público, trabalhar com bons atores e misturá-los com outros menos bons mas muito mediáticos, é muito fácil! Fazer a ponte entre a Lisboa, as mentalidades, as expressões e as vivências dos anos 30-40 e as atuais já requer um pouco mais de mestria. É preciso ter a dimensão histórica, conhecer as condições de receção, analisar as condições políticas e estéticas que levaram à criação de umas e de outras comédias. Não é o mesmo público, não é a mesma situação!
Nestes remakes de 2015 e 2016, nada disso foi contemplado: trabalhar assim é defraudar o público. É, através da memória de atores exímios, desrespeitar outros atores, atuais, igualmente exímios. Trabalhar assim é difundir um humor barato, um processo narrativo muito forçado, um guião muito fraquinho. Poderemos dizer que estas adaptações são um caso “nunca visto das tentações do demónio”.
O Vasquinho da anatomia dizia “Chapéus há muitos, seu palerma!” E comédias também! É possível fazer remakes destas comédias com qualidade? Claro que é! Com muita qualidade. Não foi este o caso!

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