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CRÓNICA DO TEMPO

REGINA SARDOEIRA 
Crónica vem de Cronos e cronos significa tempo. O tempo decorre dia a dia, hora a hora, minuto a minuto e por ai adiante, segundo o relógio, ou então em dimensões impalpáveis que dificilmente seremos capazes de atingir. O tempo é um mistério e o relógio uma máquina imperfeita pela qual o vamos, ilusoriamente, medindo. Eu sei que um minuto tem sempre 60 segundos, de acordo com o mecanismo; mas também sei que, numa outra dimensão que nenhum relógio abrange, os segundos, os minutos, as horas, os dias, os anos escapam à medição e decorrem, real e objectivamente, umas vezes mais rapidamente e outras menos. 
Ontem foi o meu aniversario e eu não consigo compreender, de modo nenhum, os anos que completei. 
Sou uma mulher madura, com uma história de certo modo longa, e devo olhar para trás com nostalgia e lamentar o inevitável andar para a frente? Sou uma mulher jovem, incompatível com a minha idade real, que olha o futuro como um longo caminho, ainda a percorrer? Sou uma adolescente perdida em torvelinhos e crises de identidade, apta a partir em viagens de reconhecimento do mundo – que ainda não fiz? Sou a criança entusiasmada que se levanta cedo para fruir o dia, em pleno, ansiosa pelo bolo e pelas prendas? 
Estranhamente, creio que sou todas estas, que tenho, ao mesmo tempo, 10 anos e 15 e 20 e os outros todos, num só momento e que, de facto, não sinto a decepção de já não ter 10 ou 15 ou 20… porque o certo é que procedo muitas vezes de acordo com esse tempo cronológico e nada, no meu íntimo, me diz: “Já és uma mulher madura e certos actos não são para a tua idade. “
Por isso, não sei muito bem que idade completei ontem, a menos que olhe para o bilhete de identidade e confirme a cronologia. Mas mesmo esses dados inscritos no documento de identificação trarão, efectivamente, a certeza absoluta do meu tempo de vida? 
A Persistência da Memória,  de Salvador Dali.)
Creio que não. E creio-o com toda a segurança possível. O tempo contraiu-se muitas vezes e atrasou-se, vivi com intensidade e nesses momentos deram-se várias explosões que romperam a linearidade da contagem; e tive momentos de lapso temporal que não contam para o número, porque vagueei em outras dimensões. 
Não estou, de modo nenhum a efabular, e sei que o tempo de uns não é o tempo dos outros e o pêndulo do relógio não tem sempre a mesma velocidade. Einstein descobriu que a velocidade da viagem encurta objectivamente o tempo. Criou uma teoria complexa que poucos entendem, de facto. Quanto a mim percebo que a intensidade do meu ritmo diminui mesmo o número dos dias que vivi e que, por essa razão, não sei qual é a minha idade real, porque ainda não estudei a fundo a teoria da relatividade. Talvez nunca o venha a fazer, porque é inútil estudar o que pressinto. Prefiro esta sensação fantástica de me saber sempre a mesma, por mais dias de aniversário que me aconteçam. Olho-me ao espelho e lá está a rapariguinha de 10 anos, escondida numa certa máscara, e também a adolescente de 15 e as outras todas. E recupero-as sempre, mesmo que precise de afastar o invólucro biológico que tem vindo a moldar -me, como ser da natureza que sou. 
Uma crónica é exactamente o que acabo de escrever: a narração do tempo que vivo agora, o relato da experiência que me é dada em cada dia. Que nem sempre tem, de facto, as tais 24 horas.

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