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ERA UMA VEZ O FREQUENTE VERBO IR (E O CONVÍVIO)

SÉRGIO LIZARDO
Hoje, já não se vai tanto. Já não se sai tanto para ir. Já não se vai tanto ao encontro. Já não se põe tanto, como em tempos idos, os pés ao caminho. Foi-se, o frequente verbo ir. E deixou saudades. Tenho saudades dele. Tenho até saudades de saber de histórias, hoje raras, de “vou ter contigo” e de “vem ter comigo”. Já não se vai tanto ter com, vai-se ao encontro de alguém, figuradamente. No imaginário lugar onde as pessoas hoje se encontram mais, as pessoas não têm braços – por isso, não se abraçam, escrevem a palavra abraço. No imaginário lugar onde as pessoas se encontram, as pessoas não têm lábios – por isso, não se beijam, escrevem a palavra beijo, ou beijinho, ou jinho, ou jokas. Tudo porque o frequente verbo ir, deixado ao abandono sabe-se lá onde, definhou e passou a jazer, sem placa, num lugar aonde não se pode IR(!) para que possa ser homenageado, como merece ser, digna e merecidamente, homenageado um verbo que faz abraços e beijos acontecerem com a gente lá presente. Onde esteja, que descanse em paz. O frequente verbo ir era, faz muito tempo, utilizado para as… idas frequentes. Rezam lendas que pessoas marcavam, com maior frequência, encontros em lugares de verdade para falarem sobre as coisas com toda a importância ou sobre as coisas com importância nenhuma, e iam. Que pessoas queriam saber como estavam familiares e amigos de lugares distantes e, com maior frequência, iam a esses lugares. Que pessoas queriam conhecer gente nova e, com maior frequência, iam conhecer lugares novos. Que pessoas que apenas queriam conversar com alguém (assim como hoje se faz com ecrãs pelo meio), iam, com maior frequência, a lugares em que, pelo meio, havia mesas, copos de cerveja e chávenas de café. Que pessoas queriam conhecer o mundo das fotos que hoje vemos na internet e, com maior frequência, viajavam (iam). Tudo porque o frequente verbo ir existia, mas existia mesmo. O frequente verbo ir era muito como o repetido verbo amar: o repetido verbo amar só existe quando se ama; se amas, conjugas e conjugas e conjugas o verbo amar e torna-lo de hoje, torna-lo vivo; quando se ia mais, o frequente verbo ir respirava no mundo das pessoas do mundo de então. Hoje, o mundo está órfão do frequente verbo ir. E quem perde são as pessoas. Se as pessoas soubessem o quanto valem as palavras ditas ao pé e essas palavras ouvidas à ilharga de um amigo… talvez ressuscitassem o verbo ir e, com ele, multiplicassem os abraços de peito com peito e os beijos de lábios na pele. Talvez até engrandecessem o desusado conviver.
Vá. Conviva. E conjugue bem o verbo viver.

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