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VIZINHA QUE PASSAS A VIDA À JANELA

ELISABETE SALRETA
Tenho uma vizinha que passa a vida à janela.
Sabe de tudo o que acontece pelo bairro e embora não opine, não deixa de ser expressiva.
Dou comigo a sorrir quando se mostra mais atenta, pois a sua cabeça e todo o seu corpo se esgueira, sem pejo, à procura do acontecimento.
Tem uma predileção por viaturas e se forem camiões nas suas manobras largas, ela não desvia o olhar. Será um desejo secreto de dominar uma daquelas máquinas?
Espreita quem passa por debaixo da sua vidraça, remexendo nas aromáticas e nos morangueiros dos vasos dependurados.
Tanto se estica para fora da janela, que faz uma verdadeira ginástica para se segurar àquele parapeito tão estreito.
E mais uma vez, consigo aperceber-me das suas curvas onde perco o meu olhar.
Adivinho a maciez da sua pele, pelo brilho que emite. A luz e as cores da primavera têm aqui uma rival para a sua beleza.
O meu coração bate mais rápido e reteso os meus músculos numa ansia vertiginosa.
Abro a janela de mansinho e tento absorver o seu cheiro. Imagino-o a vir até mim pelo vento.
Escondido por entre os cortinados, dou conta dos seus olhares.
E que lindos são aqueles olhos, sempre atentos.
Tomara eu ser o objecto desse olhar e devoção.
Têm um azul indiscritível, que vai muito além do céu. Muda com a intensidade do sol e com o decorrer do dia.
Decorei todos os seus tons para os recordar nas noites longas.
No inverno não a vejo tão bem, mas basta-me conhece-la como a conheço e nem os pingos da chuva no vidro da janela deturpam a sua imagem.
Está gravada na minha mente e acompanha-me sempre.
Levo-a comigo quando sonho. Mas aí … aí estamos os dois caminhando lado a lado por um jardim florido, sentindo o calor do sol em nós e a brisa que mistura a nossa essência.
Imagino-nos sentados num bonito tronco e eu com o meu nariz no seu pescoço, dando-lhe beijos sem fim. Imagino-a com os olhos semicerrados em prazer absoluto, aproveitando aquele momento a dois. Depois, acontece um abraço e o nosso calor mistura-se num só. Respiro fundo e sinto o seu perfume inundar-me e a ocupar cada espaço livre em mim. Idealizo que ficamos os dois neste abandono até que o sol se ponha. E eu chego-a mais para mim para que não sinta a brisa da noite. Suspiramos quando o sol se põe e voltamos o mais encostado possível, para um serão no sofá, enroscados.
Imagino o meu sorriso largo de tanta satisfação. E ouço a minha mãe a chamar-me de “parvalhão”.
Assim que o dia começa corro para a cortina, procurando-a e ao seu cheiro na névoa da alvorada, em cada gota de orvalho que orla os temperos nos vasos.
O que me faz lembrar do vaso de hortelã em que ela esfrega o peito quando se debruça.
Também existe um cá por casa, e eu esfrego-me nele para partilhar o perfume dela. Imagino como será o seu aroma quente misturado com esta singular aromática.
Imagino que seja parecido com canela, e lá deito o nariz de fora para sentir que noticias me trará o vento.
Depois avisto o céu e tento comparar se hoje rivaliza em cor com os seus olhos, mas nunca. Os dela prevalecem.
E eu passo a vida à minha janela numa devoção platónica.
É assim a minha vida
Serafim, o gato (vizinho) do lado esquerdo.
Adoro esta Siamesa!!!

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