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CINEMA, SONHOS… E UM OCEANO PELO MEIO

ANABELA BRANCO DE OLIVEIRA
Nos últimos três dias, percorri em quilómetros e vivi em emoções a força inexpugnável do cinema e o poder incalculável que ele exerce na vida das pessoas. O cinema tem o poder de transformar vidas, de criar necessidades, de projetar sonhos, de construir carreiras, de movimentar pessoas, de transpor fronteiras, de emocionat tudo e todos.
Viajei, na segunda-feira à tarde, para Ponta Delgada, Fui, enquanto elemento do júri, à cerimónia da entrega dos troféus do Prémio Ayres d’Aguiar para cinema e audiovisual. Ayres d’Aguiar, micaelense, foi um importante produtor do cinema português da primeira metade do século XX, através da Gray Films, empresa que, em Paris, dirigiu até ao início do anos 50. Trabalhou enquanto produtor com nomes incontornáveis do cinema europeu como os realizadores Marcel L’Herbier e André Cayate e os atores Jean Marais, Anny Ondra e Fernandel. Foi um dos produtores, em França, que mais contribui para a descoberta de novos talentos e para o lançamento de nomes importantes do cinema francês. Dedicou a sua vida, criativa e sempre interventiva, à produção e à realização cinematográfica. Viveu a últma fase da sua vida na sua terra natal, onde faleceu, em 2000, com 104 anos. O seu espólio mantém-se na Cinemateca Francesa, em Paris. Um perfeito desconhecido no meio cinematográfico português! De louvar a iniciativa do Governo Regional dos Açores através da criação deste prémio! De louvar, a vontade e a competência cinematográfica e cultural do Dr. Manuel Bernardo Cabral, autor de um documentário sobre a vida de Ayres D’Aguiar, integrado na série documental Açorianos de Cultura. O Prémio Ayres d’Aguiar destina-se a galardoar cineastas açorianos.
Foi, para mim, uma honra integrar o júri desse prémio ao lado de Manuel Bernardo Cabral e António Pedro Vasconcelos. Ficámos com a responsabilidade de divulgar a obra de Ayres D’Aguiar e trabalhámos para construir outros sonhos e divulgar outros açorianos. Desta dupla vontade, surgiram dois premiados: José Medeiros (Zeca Medeiros), reputado cineasta açoriano, com a ficção O Livreiro de Santiago, e o jovem realizador Diogo Silva Lima, com o documentário PDL-LIS. Com eles, de novo, o cinema concretizou a necessidade do conhecimento e abriu-nos portas até então desconhecidas. Zeca Medeiros, com O Livreiro de Santiago, abre-nos as portas para a vida e para a obra de um outro açoriano, corvino desta vez, totalmente desconhecido: Carlos Jorge Nascimento, editor que, em Santiago do Chile, descobriu e lançou dois grandes poetas galardoados com o Nobel da Literatura: Pablo Neruda e Gabriela Mistral. O filme de Zeca Medeiros (a seu tempo, escreverei muito mais sobre ele) é a metáfora de uma luta, a metáfora sobre o poder de um sonho, sobre a força de uma vontade. É uma intensa homenagem ao cinema e a prova de que a vontade supera tudo! O documentário de Diogo Lima é uma análise muito jovem, muito irreverente mas muito profunda sobre o sentimento da nossa relação com o espaço. É um documentário sobre a relação paradoxal entre o realizador e a sua ilha, sobre o mistério do amor/ódio que nos liga às origens, sobre aquela necessidade de sair repentinamente assaltada pela extrema necessidade de voltar. Dois filmes feitos com muita paixão e… com muito pouco dinheiro!
Dos Açores, sobrevoando o Atlântico, cheguei a Avanca para mais uma edição do Avanca Film Festival: a vigésima edição. A vigésima edição de um sonho improvável: a organização de um festival internacional de cinema numa pequena vila do litoral português! Um sonho improvável, sonhado por um homem que vive no limite de todas as improbabilidades: António Costa Valente. Foram homenageados os premiados da edição anterior e homenageados os amigos que, ao longo destes vinte anos, tornaram possível o sonho improvável! Avanca torna-se durante estes dias, o centro de todas as paixões cinematográficas, o centro de todas as culturas, de todas as técnicas e de todos os filmes do mundo. Vêem-se filmes, projetam-se filmes em casas particulares, em pátios e adegas e em carruagens de comboio em andamento, fazem-se filmes e partilham-se experiências. Com muito esforço, com muitas dificuldades, com muito pouco dinheiro…
Entre o cinema e os sonhos, em Portugal, existe um grande oceano. Existe o oceano que faz com que a cultura seja sempre a enteada de todos orçamentos oficiais; existe um oceano de ignorância e preconceito que faz com que a nossa comunicação social esqueça quase sempre este tipo de iniciativas.

Mas, com garra, com o indecifrável mistério das vontades da Blimunda, tudo se consegue! Porque o cinema é mesmo isso: o centro de todas as possibilidades improváveis!

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