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A INDIFERENÇA MORA AO PÉ DE MIM

ALVARO GIESTA 
Fecho o caderno em que escrevo. Já nada leio nele senão a mágoa de viver neste tempo de desencanto. A indiferença mora ao pé de mim.

Tudo me pesa. Até a luz que tarda em cair, desassossegada, sobre os meus ossos anciilosados, se me nega hoje. Pesa-me a frigidez dos dias vizinhos do inverno. Abro a janela. Lá fora o melro de bico amarelo que habitualmente me desperta cedinho, ainda a noite é fechada, hoje, também ele se passeia mudo no canteiro da frente meio florido, desajeitadamente florido, e vai despenteando o solo coberto de cascas de pinheiro à procura da larva distraída.
Olho-me, arrepiado, ao espelho e vejo-me a impotência de ter sido jovem e explorado pelo país que, quando se é velho, deixa de se ter préstimo, qualquer préstimo, ainda que tenha tido a importância, no passado, suficiente para que o arrebatassem à terra e à família e o desterrassem para a lonjura de outro hemisfério diferente e desconhecido em defesa daquilo a que chamavam pátria, e de onde veio, depois, para o outro hemisfério de onde partiu e agora também, nele, desconhecido. Agora vejo-me abandonado, relíquia do e dum passado com um pedaço de lata em forma de escudo preso ao peito e outro, de ferro, em forma de cruz, agarrado à memória, desperdício dum tempo, me diziam, que havia de ser novo, porque renovado pelos ventos da nova história. Vento veloz, qual sirôco do deserto, que até serviu às tropas dos Comandos para dar nome às façanhas das operações de terra queimada, de combate, morte e cinza por essa Angola, além.
E no fundo de mim esta voz, em surdina, hoje sarcástica, ontem de aviso, a recordar-me o que então me dizia “olha que se agora te chamam herói, amanhã te esquecem, te desprezam e te enterram nu e sem orações numa vala comum sem tabuleta, sequer, a indicar os restos de ti.”
Esta persistente voz em tumultos grita-me, surda, dentro de mim, inquieta-me, pertinaz e incomodativa, tão arreliadora quanto esta aranha turbulenta que me atormenta o lóbulo parietal direito passeando-se, sempre inquieta, entre a fronte e a nuca, em tom de escárnio “…tu, agora, és um desperdício do tempo, um deserdado da pátria, um ancilosado sem remédio, corpo movido a custo e à custa das artroses reumáticas cuja semente herdaste nas inúmeras emboscadas nessas noites perdidas no silêncio a que te obrigavas para que a morte passasse a teu lado sem te ver, noites em que vivias atolado de água até à cintura para defenderes a puta da pátria que agora te mija em cima”.
Sempre esta puta desta voz a atazanar-me os ouvidos e fazer esgaravatar, cada vez mais e cada vez com mais persistência, esta aranha movediça e incomodativa dentro da minha cabeça, a fazer-me reviver tempos de ira e de revolta que procuro matar, de vez, dentro de mim. Mas o raio da mordaça que uso para lhe abafar a voz, rompe-se e ela regressa em tumultos, bafarolas quentes e ácidas e com o cheiro da pólvora queimada. Depois, ainda esta dor, esta marca atroz da coronha que não sai do ombro direito e a dormência que fica após o coice da espingarda.
Somos um bando de cobardes, meu pai; tu que me pensavas herói, que me incitavas a sê-lo, quando me vias fardado de camuflado e com aquelas divisas doiradas a enfeitar os ombros. Gargalha sarcasticamente a tal voz “a ser um herói…”. Eu, tão cobarde como tu que nunca vestiste uma farda; tu, mais cobarde do que eu que sabias que tudo era uma mentira, quando me incitavam a defender uma pátria que não era minha. Somos um bando de cobardes, mesmo reconhecendo-nos que nos transformaram, a seu bel-prazer, nos espectros da amostra do ser a que nos reduziram em vida, pela defesa desta puta de pátria mal agradecida que agora nos rouba o amargo pão que colhemos.
Tu bem me dizias, meu velho, e eu não queria crer que assim fosse, que essa juventude empenhada um dia em salvar um império, não serviria senão para ser espremida e abandonada num talego fechado, que não rompesse, para que aí ficasse quieta e calada, até à morte, a fim de não incomodar aqueles que um dia nos iam transformar em desperdício, lixo e empecilhos, e nos iriam reduzir o tempo de vida ao maior percentil que pudessem, arrebanhando-nos o pouco da reforma que nos deram e por direito por nós adquirida.

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