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OS DISSABORES DA RAZÃO

REGINA SARDOEIRA 
Quando olho o céu e o vejo azul e infinito (nem penso na ilusão do azul ou na impossibilidade de dizer o infinito), quando me deixo imbuir da profundidade do mar, azul e ignoto, como o céu, e, como ele, pleno de movimentos e imbuído de cambiantes indizíveis, quando o verde profundo de uma planície ou o tumultuar sereno de um ribeiro me enchem todos os sentidos, percebo que o mundo é belo. 
Percebo, com a cumplicidade dos meus sentidos, que posso alimentar-me da luz do sol e deixar o resto de lado, seja trabalho, obrigações, regras morais e tudo o que os homens acrescentaram, pelo tempo fora, às abundantes riquezas, aí mesmo oferecidas a todos, no esplendor natural do mundo. 
Sinto-me, desse modo, plena de euforia e vejo que lhe pertenço, a esse terreno imaculado e ao ar e à luz, como parte do todo e afinal como o todo na parte. Nada me falta, está tudo aí, ao alcance das mãos, na fímbria dos dedos. 
De repente, uma nota dissonante rompe a harmonia que estava em mim e se comprazia na unidade com o todo. 
Uma estrada, pode ser apenas uma estrada, de asfalto negro e traços brancos, e muitos símbolos e sinais a oprimir – dizem que a regular – o meu fruir da brisa, da luz e do azul. E logo, em avalanche, as máquinas velozes que conduzem os homens e que eles conduzem, o estrépito dos motores e o odor metálico ou a reverberação multicolor, feita faísca, de um mundo às avessas, me remete para um nicho muito escuro onde os sentidos se quedam em silêncio exangue. 
Então, percebo que não compreendo esta humanidade de que sou parte. Sinto que a racionalidade que nos conduziu para além de todos os demais habitantes da natureza, em algum momento deverá ter seguido o caminho inverso àquele para o qual se estruturou; e o caos irrompeu da ordem absoluta do mundo que nunca mais teria a pureza dos inícios. 
Quando olho os símios, nossos irmãos inferiores ( proclamamos nós), vejo neles uma espécie de equivoco. Têm no olhar certa clarividência que os aproxima dos humanos; mas também uma toada nostálgica, como se vislumbrassem o para além de si mesmos e não soubessem como ali arribar. Nós chegámos um tudo nada à frente desses primatas de cérebro grande e eles ficaram um tudo nada atrás da nossa clarividência. E quando os observo, nas suas ocupações primitivas, sinto que são um arremedo de gente e que se pudessem ( e talvez possam) se apressariam a dar o passo redentor. Em simultâneo percebo que talvez eles permaneçam apenas símios, porque assistiram ao longo dos milénios à insensata caminhada da razão; e talvez obliterem a consciência que os tornaria humanos, para se manterem fiéis à natureza por nós negada. 
Sinto que somos uma espécie estranha, esta a que chamamos humana. Estranha e já obsoleta na degenerescência dos seus traços, na escalada irreversível de abusos e crimes contra si mesma. Não sei como, o quê ou quem terá poder para salvar o mundo dos homens, e o homem, e o mundo, mesmo sem os homens. Julgo que esta visão, decerto apocalíptica, do fim da utopia da consciência, de que somos representantes, será entrevista por muitos. É que já não pode negar-se o descalabro a que nos deixamos conduzir: ele é de tal modo patente que todos e cada um têm dele uma consciência implícita. Mas ninguém ousa proferir em voz alta as palavras que ecoam nas profundezas da mente humana. E é por isso que nos deixamos ir, vogando, neste mar de ilusão lúcida, olhando os amanhãs que ainda trarão, por breves instantes, o lampejo do azul, o reflexo do sol e a ondulação sem mácula do mar.

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