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A IRRITANTE TURBA DOS CONCERTOS AO VIVO

LUÍS ARAÚJO
Há uns dias atrás uma amiga convidou-me para a acompanhar a um concerto do Elton John. Foi um momento um bocado constrangedor, obviamente para mim, porque fiquei de imediato a saber que ela acha que sou gay. Não há nada que estabeleça mais rapidamente uma orientação sexual do que ir a um concerto do Elton John. Colocar um anúncio na primeira página do Jornal de Noticias, deambular pelo Chiado de sapatilhas cor de rosa, ou ser amigo do José Castelo Branco são apenas pueris tentativas de sair do armário, ir a um concerto do Elton John é uma sólida afirmação… Aos berros!!!
Por acaso faço parte daquela ínfima parcela da sociedade que, não gostando propriamente de homens até aprecia Elton John, consequências de uma adolescência vivida nos confusos anos 80 onde nos enganaram vilmente, dando a entender que Nikita era uma mulher, e um heterossexual pode usar óculos em forma de coração e sapatos compensados.
Ora, como os meus planos para aquela noite eram basicamente ficar no sofá a assistir a um compacto de filmes holandeses com legendas em esquimó, e, para mim, um concerto é aquela antecâmara de fúria alcoólica, decisões duvidosas e momentos embaraçosos, lá fui, carregando nos ombros o peso de saber que no fim definitivamente não iria haver beijinhos.
Um concerto ao vivo é sempre um momento único e inesquecível e o meu ultimo foi o de Bruce Springsteen no Rock in Rio, há já vários anos, um concerto intimista, pois éramos só 91000 pessoas e onde tive a sorte de encontrar 3 ex-namoradas, andar à porrada com um escocês perdido de bêbado e parvoice e apanhar uma piela monumental, tudo devidamente enquadrado com uma banda sonora épica de voz rouca. Será para sempre inolvidável.
Fiquei bastante surpreendido com a diferença para os concertos de hoje em dia.
Mal entrou, a minha amiga sacou do smartphone e começou a tirar fotografias a tudo, desde o pôr do sol até as pedras da calçada e a “postar” a uma velocidade tal que, se eu a perdesse por momentos de vista, sabia mais facilmente onde se encontrava utilizando o facebook, do que recorrendo a um gps.
Ainda não estava bem refeito da minha estupefacção e, enquanto me encontrava a, mentalmente, aferir da sanidade mental da companhia para aquela noite começo a ouvir os primeiros acordes de uma balada delico-doce.
De imediato instalou-se a histeria. A minha amiga, alternava entre filmar, gravar e enviar sms’s ao namorado, à minha direita um grupo de senhoras de respeitável idade ia-se revezando a gravarem tudo no tablet, imediatamente à frente uma teenager brasileira filmava através de um telemóvel com tal destreza que faria Spielberg corar de embaraço e, de tão absorta que estava em arranjar um bom ângulo nem se apercebeu que estava a roçar as nádegas na minha cintura, mais a frente, um casal de meia idade, estava apostado em levar as selfies a um patamar estratosférico.
Uma quantidade insana de ecrans ergueu-se no ar criando uma cortina intransponível que apenas permitia vislumbrar, entre telemóveis, maquinas fotográficas e tablets, um esconso canto do palco, o que me provocou o impulso de juntar o meu nokia de 1998 aquela multidão, mas contive-me a tempo.
Os concertos hoje em dia são um bocado diferentes, principalmente porque ninguém la vai para ver o concerto, mas sim para gravar o concerto.
Aparentemente, e, sem que me tenha apercebido, há um novo movimento social em que se gasta uma pequena fortuna num bilhete, não para se ver o espectáculo, não para ouvir a musica, mas para que toda a gente, que não se encontra ali porque tem mais que fazer, saiba o que estão a perder, pelo que se ocupa o tempo todo a filmar, tirar fotos, postar, entrar em chats, e outras porras que tal, utilizando os telemóveis com um fervor bíblico, a uma velocidade estonteante, limitada apenas pelos limites do processador, da memoria e da bateria, a santíssima trindade dos tempos modernos para quem, desinformado como eu, tinha a ingénua expectativa de ir ver algo mais para alem de uma montra do Media Markt.
Acaba por ser engraçado, se se for um naturalista e não se tiver dinheiro para ir ao Congo estudar os hábitos sociais dos chimpanzés bonobos, para a restante população é uma bela porra.
E assim fui acompanhando o concerto, alternando entre os ecrans dos iphones, samsungs, huaweis, wikos e bq’s, percebi que o Sir Elton não trazia sapatos compensados e usava uns óculos bastante discretos.
Definitivamente, os concertos já não são aquilo que eram.

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