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REGRESSAR AO PASSADO SEM CRIATIVIDADE

CATARINA VASQUES RITO


O estilo ‘rétro’ representa a moda que surge a partir dos anos 40 até aos anos 90, do século passado, expressão extensível à arte ou à decoração de interiores. A pesar de estar na moda, o ‘rétro’, não significa que seja moda, pelo simples facto de não criar novidade.
A última década mostra que as tendências estão fortemente associadas ao passado, tempos de desconhecimento para muitas gerações e de familiaridade para muitas outras. O século XXI trouxe inércia criativa às artes, de uma forma geral, e à moda, em particular. O estilo ‘rétro’, tão em voga na última década, recua no tempo num máximo de 76 anos e num mínimo de 20 anos. Exemplo disso mesmo são as coleções Primavera-Verão 2016 e Outono-Inverno 2016-17, que voltam a recriar um universo ultrapassado e revisitado nos últimos anos, sem criatividade quer por parte dos designers quer por parte de quem consome. “O rétro não se assemelha a moda alguma porque já não se define por cânones estritos e inéditos, mas apenas pela referência flexível ao passado e pela ressurreição dos signos defuntos da moda, mais ou menos, livremente combinados”, afirma Gilles Lipovetsky, filósofo francês. 
Louis vuitton
A verdade é que desde os finais da primeira década deste século, que se assiste ao regresso de marcas que se destacaram há mais de 25 ou 35 anos, como é o caso da Dr. Martens, num franco apelo ao saudosismo. A ideia não é inovar mas recordar, voltar a usar, sem pensar em reinventar. O estilo ‘rétro’ induz em erro, uma vez que não apela à imaginação mas sim à estagnação, como salienta Gilles Lipovetsky, numa atitude amorfa e inerte, disfarçada de uma falsa modernidade ou atualidade. Na verdade, as tendências fingem estar em ação criativa, numa incessante procura de novidade, disfarçada por novos tecidos ou materiais tecnológicos, ou ainda pela feroz sobreposição de estilos e ideias que acabam por induzir a uma interpretação errónea junto de quem consome. Ideia essa propositada, uma vez que o que se pretende é que o consumidor não pense, apenas consuma. “O ‘rétro’ não tem conteúdo, não significa nada e aplica-se, numa espécie de paródia ligeira. (…) Nada está mais na moda do que aparentar não ligar à moda ”, afirma o filósofo francês seguindo uma linha de pensamento idêntica à de Yves de Saint-Laurent quando este anunciou que “já não está na moda andar à moda”, ou seja, cada indivíduo é responsável pela construção da sua imagem, evitando as imposições dos ‘trendsetters’, ‘designers’ e/ou ‘visionários da moda’.
Miu Miu
“Se o modernismo assentava na aventura e na exploração, o pós-modernismo repousa na reconquista, na auto-representação, humorística para os sistemas sociais, narcótica para os sistemas psíquicos. (…) Quando a moda deixa de ser um pólo altamente marcado, o seu estilo torna-se humorístico, tendo por motor o plágio vazio e neutralizado”. Mas a verdade é que o ‘rétro’ faz sorrir… 

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