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EMBRIAGUEZ

“Nunca confies em ninguém que não beba.” Aqueles que não bebem têm um segredo a esconder, um segredo horrível que lhes escapará se alguma vez se embriagarem. Bebendo juntos provamos que não temos nada a ocultar. 
Nick Flinn, Mais uma noite de merda nesta cidade da treta, Teorema
REGINA SARDOEIRA
O livro que tenho andado a ler (para descobrir que deu origem a um filme que vi há pouco tempo, com Robert de Niro, Paul Dano, Julianne Moore, entre outros) é uma autobiografia e relata a existência de um conjunto de vidas marginais de bêbados e sem-abrigo de Boston. O pai do autor e ele próprio são os protagonista da narrativa que, como aparece na capa, abaixo do titulo, é uma história de vida e pode ter dois autores. 
A citação que tomo como mote, hoje, apanhou-me na página 114 e obrigou-me a reflectir.
A primeira frase, que está entre aspas, é uma sentença da mãe do autor, uma espécie de proclamação ou de entendimento da zona da vida com que lhe foi dado conviver até se suicidar. Descubro uma certa verdade nesta apologia da bebedeira, percebo que o álcool cria uma desinibição naquele que se deixa possuir por ele e lhe solta todas as amarras do íntimo, fazendo com que revele a verdade de si. E então, aquele que se embriaga, fá-lo porque não teme expor -se, despindo-se de segredos e de preconceitos, revelando-se a nu.
Não sei se o autor tem razão, ignoro se a sentença proferida pela sua mãe deverá ser seguida. Mas, se a frase me tocou, a ponto de a assinalar no livro, é na medida em que me forçou a tentar perceber-me, a mim, enquanto absolutamente abstémia, a mim, que jamais me embriaguei e que, a crer na citação, devo guardar segredos horríveis que, na inconsciência lúcida do álcool, me escapariam.
Será verdade? Guardarei, efectivamente, pensamentos inconfessáveis e será por isso que não bebo, que nunca bebi? 
Na sequência desta reflexão, evoquei um texto de Baudelaire, em que ele apela à embriaguez, escrevendo: 
” Deveis andar sempre embriagados. Tudo consiste nisso: eis a única questão. Para não sentirdes o fardo horrível do Tempo, que vos quebra as espáduas, vergando-vos para o chão, é preciso que vos embriagueis sem descanso.
Mas, com quê? Com vinho, poesia, virtude. Como quiserdes. Mas, embriagai-vos.
E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, na verde relva de uma vala, na solidão morna do vosso quarto, despertardes com a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão:
– É a hora de vos embriagardes! Para não serdes escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos! Embriagai-vos sem cessar! Com vinho, poesia, virtude! Como quiserdes!”
Não me parecendo, à partida, que traga em mim segredos horríveis que não queira ver desvendados – e que seja essa a razão por que não bebo – já fazia menção, de vencer a minha verdadeira aversão ao álcool e embriagar-me, perante um grupo de amigos, para que depois me relatassem o que revelei de mim, em semelhante estado, quando a evocação do texto de Baudelaire me salvou desse, que seria um acto de profundo sacrifício. 
Efectivamente, não tenho necessidade do vinho para soltar os meus presumíveis demónios, porque consigo embriagar -me de poesia, ou de música ou de beleza, em geral e, nessas horas, percebo que me ausento do mundo e vogo em outras esferas – com uma vantagem, relativamente aos bêbados: é que depois me recordo na integra do estado a que aderi. E mais. Ficam, muitas vezes, como reflexo desses surtos de embriaguez artística, testemunhos vivos com os quais posso iluminar o mundo.
No mundo dos viciados em álcool, como aquele que é retratado em todas as páginas que já li desta autobiografia, a revelação deles mesmos, em toda a sua beleza ou fealdade pode, efectivamente, acontecer. Mas, ao mesmo tempo, a degradação corporal e psíquica arrasta os ébrios para lodaçais de miséria e autodestruição, atira-os para becos e antros de marginalidade e crime: e eu não sei se valerá a pena pagar esse preço em nome da veracidade. 
Por outro lado, o mundo pode ser – e é-o efectivamente – um lugar terrível para se viver de um modo lúcido. Em cada canto espreitam-nos espectáculos abomináveis de gente cuja mente apodreceu de facto. Valerá a pena estar aí, com os sentidos vigilantes e a consciência activa, e vermo-nos enredados na fealdade das multidões, no espectáculo abominável das massas?
Sim, eu embriago-me, mas não de vinho. Embriago-me de vapores subtis que encontro, ora dentro, ora fora de mim, e, desse modo, suporto o “fardo do Tempo” de que fala Baudelaire. E os segredos que guardo vão saindo, fluidamente, da ponta dos meus dedos.

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