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“AUTONOMIA VS INDEPENDÊNCIA”

GABRIELA CARVALHO
Na minha 1ª crónica abordei genericamente a Terapia Ocupacional, para vos dar conhecimento da minha profissão, desconhecida de forma geral, pelo senso comum.
Hoje, continuo dentro do mesmo assunto, explanando pontos específicos.
Partindo do geral para depois poder particularizar, só assim me faz sentido.
Metódica? Talvez o bastante!
ONDE ENCONTRAR UM TERAPEUTA OCUPACIONAL?
Os Terapeutas Ocupacionais como profissionais de saúde que são podem exercer as suas funções em diferentes tipos de instituições, em várias áreas de intervenção, com diversos tipos de populações ou patologias e faixas etárias variadas.
Desta forma podem exercer as suas funções em instituições como: 
– Hospitais (Centrais, Psiquiátricos, Particulares)
– Centros de Saúde
– Unidades da Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados*
– Centros de Dia
– Lares*
– Instituições Privadas de Solidariedade Social
– Cooperativas de Ensino e Reabilitação de Crianças Inadaptadas
– Centro de Recursos para a Inclusão
– Associações (Associação Portuguesas de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental; Associação Portuguesas de Paralisia Cerebral; Associações de Utentes)
– Clínicas de Reabilitação
– Escolas e Jardins de Infância
– Clínicas de Saúde Mental
– Empresas de Produtos de Apoio e Empresas em geral
(*Os meus locais de trabalho. A área de intervenção que irei abordar e partilhar convosco em fases futuras.)
Autonomia VS Independência
No dicionário:
– A autonomia refere-se à capacidade de gerir a própria vida e de tomar decisões.
– A independência refere-se à capacidade de realizar actividades quotidianas. 
Para um Terapeuta Ocupacional (T.O.) identificar de forma eficiente a diferença entre os dois termos, é a chave para um bom trabalho.
E porque é tão importante perceber esta distinção na prática de um T.O.?
Porque após avaliar o indivíduo o T.O. vai intervir para criar ou promover/ estabelecer ou restabelecer/ manter/ modificar/ prevenir (por exemplo a perda) da autonomia e/ou a independência. Ou seja, em muitos casos, não conseguimos que o utente seja independente, mas conseguimos que seja autónomo e o meio envolvente facilite essa mesma autonomia na dependência do indivíduo.
O contrário também se verifica. Por vezes, a pessoa não é capaz de ser autónoma, mas reúne competências para ser independente. Então, a equipa (que deve incluir sempre que possível a estrutura de suporte da pessoa) deve trabalhar para esse objectivo.
Casos há em que conseguimos aliar a autonomia à independência.
Portanto, a autonomia “significa o exercício do autogoverno, auto-regulação, livre-escolha, privacidade, liberdade individual e independência moral. Refere-se à liberdade de experienciar os eventos de vida com harmonia com os próprios sentimentos e necessidades.”
Enquanto a independência “é a capacidade funcional, isto é a capacidade de realizar as actividades básicas do dia-a-dia (alimentar-se, fazer a higiene pessoal, vestir-se…) e actividades instrumentais da vida diária (fazer compras, pagar as contas, usar meio de transporte, preparar uma refeição, cozinhar, cuidar da própria saúde, manter sua própria segurança). 

EM EXEMPLOS PRÁTICOS:
AUTONOMIA
O Sr. Manuel teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e perdeu todos os movimentos do lado esquerdo do seu corpo: é hemiplégico. No entanto, o Sr. Manuel está consciente e orientado no tempo, no espaço e na pessoa. Por isso, o Sr. Manuel é capaz de gerir a sua vida: o despertador toca, ele sabe que é de manhã e que tem que se levantar, fazer a sua higiene e vestir-se para depois tomar o seu pequeno-almoço.
O SR. MANUEL É AUTÓNOMO.
No entanto, no caso específico do Sr. Manuel, ele não é capaz de fazer a sua higiene e de se vestir sem ajuda (esta necessidade de ajuda varia de acordo com a gravidade da lesão).
O que faz o Terapeuta Ocupacional?
Neste caso específico o T.O. respeita a individualidade do Sr. Manuel e explica isso mesmo a quem com ele lida diariamente. Ou seja, é fundamental deixar que ele seja AUTÓNOMO e organize na mesma o seu dia-a-dia e as suas actividades, dando-lhe o apoio que necessita de acordo com a sua dependência (o que não significa que se tenha que ser “fazer tudo por ele”).
O T.O. vai intervir com o Sr. Manuel de forma a MANTER a sua autonomia e a ESTABELECER uma nova capacidade de ser independente através do recurso a estratégias, nomeadamente treinos de higiene pessoal e de despir e vestir por forma a criar as condições necessária à independência do Sr. Manuel.
Muitas vezes, consegue-se que os “Srs. Manueis” se tornem independentes; outras vezes, os “Sr. Manueis” mantêm-se dependentes e intervém-se também com os seus cuidadores para que dentro da dependência se mantenha a autonomia (se mantenha a capacidade de gerir a sua vida).

INDEPENDÊNCIA
A Sra. Ana tem diagnosticada uma demência. A nível motor não apresenta nenhuma dependência, nenhuma dificuldade em realizar qualquer movimento. No entanto, a Sra. Ana está desorientada no tempo e no espaço, sendo apenas capaz de dizer o seu nome, o mês e o ano em que nasceu (já não sabe o dia em que nasceu nem mesmo a sua idade). Por isso, a Sra. Ana é capaz de fazer as actividades do seu dia-a-dia, ou seja, é capaz de fazer a sua higiene se for encaminhada até à casa de banho e lhe for dito para se lavar abrindo a torneira e usando o sabonete e no final se limpar usando a toalha; de se vestir se lhe for ditoque tem que vestir uma camisola e uma saia e lha colocar sobre a cama; e de tomar o seu pequeno-almoço se lhe for dito para ir ao frigorífico buscar o leite, o deitar na chávena e colocar a aquecer no microondas.
A SRA. ANA É INDEPENDENTE.
No entanto, no caso específico da Sra. Ana, ela não é capaz de sequenciar e gerir a sua vida: acorda de manhã e não sabe o que fazer. Não sabe que tem que se levantar da cama, de fazer a sua higiene e onde e quais as etapas para o fazer e de se vestir para depois tomar o seu pequeno-almoço (nem é capaz de sequenciar as tarefas para preparar o próprio pequeno-almoço).
O que faz o Terapeuta Ocupacional?
Neste caso específico o T.O. apoia a Sra. Ana na sua independência e intervém com ela e com os seus cuidadores (se possível) para facilitar a sua autonomia.
Portanto, é fundamental deixar que ela seja INDEPENDENTE e faça/execute/desenvolva as tarefas do seu dia-a-dia e as suas actividades, dando-lhe o apoio que necessita na organização/ estrutura/ sequenciação.
O T.O. vai intervir com a Sra. Ana de forma a MANTER a sua independência, ESTABELECENDO estratégias que apoiem a sua autonomia de forma a PREVENIR perdas ainda mais significativas, nomeadamente através de exercícios de estimulação cognitiva que permitam exercitar a sequenciação.
Muitas vezes, consegue-se que as “Sras. Anas” se tornem capazes de sequenciar as suas rotinas novamente; outras vezes, as “Sras. Anas” não são capazes de se autonomizar e intervém-se também com os seus cuidadores para que mantendo a independência se encontrem formas de facilitar a autonomia.
Por isso, enquanto Terapeutas Ocupacionais é tão fundamental identificar e avaliar adequada e correctamente a autonomia e a independência da pessoa que nos propomos a tratar.
“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional acrescenta vida aos anos.”

Bibliografia

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