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PORTUGAL A ARDER

RUTE SERRA
Chegou a época estival, e com a canícula sentida, outra coisa não era de esperar: em plena fase “Charlie”, e em especial no dia em que escrevo estas linhas, estão declarados, em Portugal Continental e ilhas, 173 incêndios em curso, 12 classificados como “ocorrência significativa”. No total, estão registados 289 incêndios, em fases distintas, como “chegada ao TO (teatro de operações) ou “despacho de 1º alerta”. A localização da quase totalidade é no litoral norte.
Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de arborização. É sabido que o elevado número de ocorrências está diretamente relacionado com óbices no interface urbano-florestal: alta densidade populacional e mau ordenamento territorial, o qual proliferou numa época em que o termo era desconhecido da grande maioria dos autarcas e governantes. Por outro lado, o aumento ao longo dos anos do combustível nas florestas, provocado desde logo pelo êxodo populacional das zonas rurais, potencia a verificação de incidentes.
Apesar das altas temperaturas sentidas, a principal causa de ignição de um incêndio é antrópica, i.e., causa humana, pois a percentagem de causas naturais, representam uma parcela insignificante dos números. Infelizmente, as investigações criminais carecem de meios e as condenações judiciais não abundam, o que provoca, ainda que indiretamente, o incremento das práticas criminosas.
Seria porventura útil não olvidar, que o impacto a nível ambiental, económico e social de um incêndio pode ser devastador: o perigo para a vida e a saúde das populações, associados à eventual perda associada de bens, a devastação da floresta (essencial à biodiversidade) e os custos preventivos e reativos, inerentes ao incêndio.
Para 2016, o DECIF (Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais), gerido pela ANPC (Autoridade Nacional de Proteção Civil), dispõe de 70 milhões de euros para o combate aos incêndios. É este o custo do envolvimento de 9.708 operacionais, 2.235 equipas (a grande maioria voluntários ressarcidos, sendo que não há dinheiro que pague arriscarem a vida por nós), 2.043 viaturas e 47 meios aéreos (onde se incluem três helicópteros Kamov a 35.000€/hora de voo). O valor gasto com a prevenção é, infelizmente, cerca de quatro vezes menor. Porquê? Não sabemos. Mas devíamos.
A floresta tem diversas funções que podem e devem ser valorizadas economicamente: gera riqueza, pois representa uma fonte natural de madeira, cortiça e resina, frutos e mel; fornece o oxigénio essencial à nossa sobrevivência; protege o solo da erosão hídrica e eólica; favorece o turismo e alberga e conserva diversas espécies. Para se ter uma ideia, a floresta Laurissilva, anterior ao último período de glaciação e que existia profusamente há mais de 20 milhões de anos na bacia do Mediterrâneo, Norte de África e Sul da Europa, já só subsiste (e é Património Natural Mundial da UNESCO) no arquipélago da Madeira, hoje fustigado até à exaustão, de acordo com os últimos relatos.
Há urgência numa gestão florestal sustentável e eficaz: as normas, essas, existem: e.g. a NP 4406:2009 que estabelece critérios para a gestão florestal. Faltam sobretudo políticas que miscigenem os interesses económicos nos recursos naturais com a educação florestal pública.
No rescaldo, vamos pagando todos nós. Uns vão sofrendo e morrendo. Outros arriscam altruisticamente a vida. E Portugal está a arder.

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