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A ARTE COMO POESIA ESSENCIAL EM QUE UM POVO DIZ O SER EM MARTIN HEIDEGGER


ISABEL ROSETE
Martin Heidegger é absolutamente peremptório quando afirma que a Arte é, por essência, Poesia, qual modo privilegiado do obrar humano onde a Verdade acontece e se epifaniza. Na essência da Arte, por sua vez, repousam o Artista e a Obra de Arte, elementos a partir dos quais a Verdade (entendida como des-ocultação) é posta em obra, ao mesmo tempo que nos transporta para os domínios do in-habitual, para além do dado na trivialidade da mostração quotidiana, para além do comum dos homens que não nomeiam, como o Poeta, a originariedade do Ser: “(…) a poesia é aqui pensada num sentido tão vasto e, ao mesmo tempo, numa união essencial tão íntima com a linguagem e a palavra que tem de permanecer em aberto se a arte, e mais propriamente em todos os seus modos, desde a arquitectura à poesia, esgota a essência da poesia».[1]
A Arte, na medida em que deixa advir, com a máxima fidelidade, a Verdade do ente é, por excelência, Dichtung, ou seja, Poema. Por Dichtung não se entende, em sentido próprio, a Poesia enquanto género literário, pois o Poema jamais é concebido como o resultado de uma “vagabundagem do espírito” inventada ao bel-prazer do seu autor, ou como um deixar fluir da imaginação até terminar numa espécie de irracionalidade. Dichtung, enquanto verdadeiro Poema, é um projecto de iluminação na Abertura, na Lichtung, na Clareira do Ser, algures postada no seio dos densos e emaranhados caminhos da Floresta, naturalmente invisível para os olhos alienados do Homem Moderno, que a Técnica e a Ciência modernas minaram; naturalmente inaudível para ou ouvidos ensurdecidos pelos ruídos das máquinas.
A essência do Poema só poderá ser inquirida, com um alcance suficientemente claro e evidente, se a desviarmos dessa qualidade da alma[2] coligida pelas emoções, pelas sensações, pela Experiência-Vivida (Erlebniz), que a afastam do seu núcleo originário de adveniência: o Ser, em si mesmo, na sua nudez; o Ser, ainda não-desvirtuado, ainda não-maculado pelos traços da modernidade; da Linguagem originária só passível de ser expressa pelas Palavras-de-Origem, as da Língua da Tradição que o nomeia sem desvirtuamentos.
Aliás, “mesmo quando atingimos o inexprimível, este não existe senão na medida em que a Significação (Bedeutsamkeit) da palavra nos conduz ao limite da Língua. Este limite é ainda, por si só, qualquer coisa que pertence à Língua e que abriga em si a relação do termo e da coisa”. A significação é ontológica. A Linguagem é sempre a Linguagem do Ser, pelo que a Poesia só pode ser contextualizada por Heidegger no âmbito específico da ontologicidade da Linguagem, de que ela é a obra suprema. A suposta existência do inefável, do indizível, não tem aqui lugar, porque a Linguagem só é Linguagem porque Diz, e o Dizer é a mostração da coisa que é, em si mesma, na Linguagem.
A reflexão do filósofo sobre a Linguagem não se fundamenta numa mera perspectivação da relação possivelmente patenteada entre a Linguagem e a Realidade, sobre a propriedade ou impropriedade daquela para descrever as coisas, nem tão-só numa mera análise sobre um “aspecto” do estar-aí (Da-sein) do Homem. Trata-se de uma cogitação sobre a forma mais eminente do mostra-se da experiência e da expressão da própria Realidade. É na Linguagem que se dá a abertura do Mundo, que se dá o aparecer do Ser de todas as coisas e, por isso, o verdadeiro modo de perscrutação daquilo que se afirma como existente, que realmente é, só pode ser atingido através do auscultar do significado primordial das palavras.
As coisas não são fundamentalmente coisas presentes no mundo-exterior, mas na Palavra que as nomeia originariamente e as torna acessíveis, até mesmo na presença espácio-temporal. As coisas só são, no sentido do recolectante “fazer-morar”, na Linguagem emergente como Poesia. É neste preciso sentido que devemos entender a tese que afirma ser, apenas, a Palavra que “torna coisa” (be-dinget), a coisa (Ding)”.
Para compreendermos este modo de ser da coisa na Palavra, devemos pôr em cena o gosto heideggeriano pela Etimologia, o meio privilegiado de remontar, através das vicissitudes e das conexões das Palavras, às dimensões autênticas, ontológicas, da coisa em si mesma nomeada. A figura etimológica, a escavação da origem do significado dos significantes a partir das raízes verbais e da história das palavras é, na sua mais plena acepção, uma emergência, um des-ocultamento, isto é, um movimento-para-a-luz.
Qualquer investigação séria sobre o ente deve adoptar, como ponto de partida, as considerações linguísticas, em virtude de a Linguagem se apresentar como a chave-mestra que abre a porta do des-velamento do Ser, do Homem e do Mundo.
A Palavra é um caminho (Weg), ou melhor, o caminho privilegiado que nos permite pensar, através do depoimento existencial que transmite, o Ser do ente, quer dizer, o Ser daquilo que realmente é, amiúde obnubilado no nosso discurso quotidiano, no seio do qual as palavras perderam o seu referente primordial, remetendo umas para as outras e não mais para o Ser. Deparamo-nos, todos os dias, com discursos vazios de conteúdo. O modo de significação do que é emaranha-se na sequência mais ou menos lógica, no encadeamento de um conjunto de fonemas mais ou menos articulados, mas que perderam de vista a sua veraz significação ontológica. As coisas só são, realmente, enquanto se dão na proximidade do próprio Ser, tomado como aquilo que funda e abre toda a abertura histórica, embora ele-mesmo não se reduza a uma tal abertura.
Perspectivando à luz da tese heideggeriana as vivências quotidianas do “Homo Superfulus” – que habita cada vez mais em cada um de nós – não podemos deixar de afirmar que a Palavra e a Linguagem jamais são invólucros onde as coisas podem ser empacotadas para o comércio daqueles que as utilizam. Não se podem consumir do mesmo modo que os triviais produtos que esta sociedade consumista nos apresenta e nos pressiona a angariar, sem que tenhamos a mais lúcida consciência disso, nos tão frequentados hipermercados, onde as palavras e os livros que as encerram são comercializados de modo similar e, quiçá, com o mesmo estatuto do quilo de arroz.
O pensamento ocidental esqueceu, desde há muito, a máxima essencial: é na Linguagem, nas Palavras, que as coisas

nascem e são. Afirmar a existência, dizer que uma coisa é, significa falar do ser das coisas, como somente a Linguagem originária pode fazê-lo. Impõe-se-nos, como estritamente necessária, a refutação da tese que defende a existência de uma arbitrariedade entre o que se diz e o que é, entre o Dizer e o Ser, porque em cada sentença que proferimos o Ser é efectivamente nomeado.

Devemos recusar a tendência nominalista da sociedade contemporânea, particularmente registada depois do grande advento da Publicidade e que tem feito crer ao comum dos mortais – vagueantes, com as suas mentes errantes por este universo de uma quase arbitrariedade semântica – que as coisas, os objectos da experiência, não têm realidade intrínseca fora da Linguagem que as descreve e as faz falar. A Linguagem opera o des-velamento das significações do Mundo, não havendo, portanto, dois planos: o do percebido e o do conhecido; o do falado e o do expresso.
A Palavra não introduz um sentido num conteúdo. É o conteúdo que se revela significante na Linguagem. É forçoso, propõe-nos o filósofo da Floresta Negra, que destruamos a perspectiva metafísica: a Linguagem não se torna significante a partir dos objectos compreendidos pelo pensamento e significados, em seguida, pelas palavras. São os objectos que adquirem a sua plena capacidade de significação a partir da Linguagem falada.
O sentido do Discurso – definido por Heidegger em Sein und Zeit (Ser e Tempo) como sendo a articulação significativa da compreensão do ser-no-mundo no sentimento de situação[3] – nunca é construído, mas sempre descoberto. O mundo mostra-se-nos investido de significações utilitárias e poéticas. Daí que a Linguagem seja entendida como uma leitura hermenêutica da experiência, assumindo uma vasta e originária significação ontológica, ao indicar a manifestação do carácter linguístico do Acontecimento do Ser.
O Homem compreende sempre o Mundo no interior de um projecto interpretativo, cuja Linguagem é a sua única justificação. Muito embora as coisas existam fora do gesto falado, o Mundo, esse horizonte inteligível que abre o acesso aos entes, só existe em sentido autêntico, na e pela interpretação efectuada através da Linguagem. Apenas onde há Linguagem há Mundo, quer dizer, uma esfera em permanente transição de decisão e de obra, de acção e de responsabilidade, mas também de arbítrio e de con-fusão.
A análise existencial não é senão um estudo do Homem (Da-sein) no universo do Discurso. O Da-sein determina o modo como o próprio Homem se interpreta como ente que fala. Falar equivale a fazer surgir o Ser do real: a Linguagem é um modo do Ser, uma estrutura da Ek-sistência. Porém, o Homem não é um existencial entre outros, mas o existencial fundamental no qual todos os outros ganham corpo. A Linguagem não é somente uma possibilidade do Da-sein, mas uma determinação essencial do ser-homem, não obstante constituir, a um tempo, a sua grandeza e a sua miséria. O Discurso do Mundo é, inextricavelmente, uma palavra do Ser. E a Ek-sistência é o Discurso que reflecte esta Linguagem fundamental: «a linguagem é a casa do ser», na qual o homem habita e, deste modo, ek-siste, pertencendo à Verdade do Ser que ele próprio vigia. Em Unterwegs zur Sprache (Caminhos da Linguagem), Heidegger afasta toda a falsa interpretação desta metáfora que, aliás, é muito mais do que uma simples metáfora: uma casa recolhe passivamente aqueles que abriga, enquanto a Linguagem tem o poder efectivo de trazer à luz, de des-velar a essência do Ser e o ser do Homem.
A importância crucial conferida pelo filósofo à Linguagem, na citada passagem de Briefe Über den Humanismus (Carta sobre o Humanismo) resulta, justamente, da firme convicção segundo a qual a Linguagem é própria do Homem, não apenas porque, para além de todas as suas outras faculdades, o homem também tem a genial capacidade de falar, de comunicar inteligivelmente através das palavras mas, sobretudo, porque apenas por intermédio desta irredutível via tem acesso privilegiado ao Ser.
——

[1] Heidegger, UKW, in Holzwege, pp. 59 e 62.
[2] Martin Heidegger, op. cit., p. 82.
[3] Martin Heidegger, Sein und Zeit, p. 201.

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