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"DADA" – O QUE FOI ISSO?

(Curta divagação sobre um movimento cultural que não o chegou a ser; aquilo a que me disponho, nesta crónica, não aspira, de modo nenhum, a ser análise, muito menos crítica, daquilo que não foi, exclusivamente, um movimento artístico, literário, musical, político ou filosófico. É apenas uma das minhas divagações sobre coisas que nascem parecendo ser o que não são e morrem depois de terem sido aquilo que nunca foram: por isso são “divagações”.)
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ALVARO GIESTA
Hugo Ball, poeta, escritor e filósofo alemão, foi um dos principais “artistas” fundadores do Dadaísmo – ele escreveu o Manifesto Dadaísta que iria reger, por quatro anos, esta caricata manifestação de cultura, ou incultura, melhor dizendo. A marca indiscutível da sua poética de artista, são os poemas sonoros (poemas sem palavras), apenas com sons onomatopeicos imitando os sons daquilo que exprimem ou poemas sem sentido, metáfora da insignificância do homem, de então, frente à barbárie da guerra.
Ao fim de dois anos de intensa actividade dadaísta, Hugo Ball escreveu: “O que chamamos “Dada” é um pedaço de estupidez do vazio, no qual todas as grandiosas questões se tornaram envolvidas (…)“. Hugo Ball, para quem “o que normalmente é chamado realidade é, para ser preciso, um fútil nada“, renuncia àquilo que o envolveu e levou a ser, enquanto escritor e poeta, a rejeição do uso da palavra, a rebelião contra o mundo alienado pelo capitalismo e pela guerra.
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Nesse “Dada“, esse fútil nada que nada foi, me debruço hoje. Porque “Dada” não foi aquilo que poderia ter sido se soubesse aproveitar-se duma época em que na Europa e no mundo – mais precisamente na Europa – estava fortemente exacerbado o sentimento do nacionalismo, que era imperioso desmantelar, se tivesse sabido gerir a ascensão dos seus ideais anárquicos. E o que foi “Dada“? Foi todos os movimentos de arte e o seu oposto: movimento artístico, pela perversão de tudo o que era arte; movimento literário, pelo provocatório dos seus escritos; movimento musical, pelo caricato dos seus espectáculos. Resumindo: foi movimento cultural por tudo aquilo que não teve de cultura ao ter ridicularizado tudo quanto era manifestação cultural séria. Por querer ser tudo e ser nada, por ser um movimento de negação, é que o dadaísmo morreu à nascença. Mal se desmamou – apenas com quatro anos de idade (1916-1920) – morreu. O seu próprio criador, talvez o mais radical, chega no seu próprio radicalismo a afirmar que “o dadaísmo morreu com alguns meses, apenas, após o seu nascimento”.
Pretendia o Dadaísmo – nascido como reacção à situação política de então, no período da Primeira Grande Guerra (1914-18), criar uma nova ordem político-social. Para isso, valendo-se da sua habilidade auto-publicista, aproveitou-se da ebulição das massas jovens francesas e alemãs exiladas na Suíça para fugirem ao serviço militar do seu país, incentivando nelas as suas – dos dadaístas – decepções em relação à incapacidade da ciência, da religião e da filosofia para evitar a destruição da Europa. Mas ficaram-se por aí. Mal germinaram os seus propósitos culturais, porque de tão altos caíram por terra antes de nascerem. O próprio público, aliando-se às autoridades instituídas, reagiram como protesto àquilo que os Dadaístas perseguiam: impor pela surpresa, pelo choque e pelo escândalo deliberadamente calculados.
Quase sempre os seus eventos radicais – manifestações de poesia, de cinema, de arte – terminavam em tumultos e distúrbios não controlados. O público, se comparecia nesses eventos de provocação dadaísta, era para se divertir, ao contrário do pensamento dos seus mentores que era para levarem ao distúrbio pelas manifestações exaltadas. Em consequência são banidas revistas literárias, são fechadas e confiscadas exposições, são presos os seus artistas. Assim se enterram essas manifestações de cultura – ou incultura – pelo interesse que decai, dia após dia, e o movimento “Dada” morre nos espectáculos perversos que inventa, nas manifestações de (in)cultura que cria, nos distúrbios que causa: o riso sarcástico que pretendia impor ao mundo, volta-se contra si e o movimento acaba por ser vítima do seu sucesso que não soube gerir.
Às convulsões político-sociais da época pretendia a juventude dadaísta opor-se com acções que desequilibrassem a ordem pré-estabelecida com trabalhos (in)culturais anárquicos, irracionais, contraditórios e sem sentido. Na arte escultórica, por exemplo, pretendem impor-se pelo contraditório daquilo para que o objecto foi criado – Man Ray dá-nos o seu ferro de engomar com uma fileira de catorze pregos de cobre na base: deixa, assim, de desempenhar a sua função de engomar, alisar, vincar a ro

upa para a rasgar. Desafia a lógica racionalista da utilização do objecto. É também aproveitado nas cenas (in)culturais sarcásticas para dizer que a diferença é nenhuma: se com os pregos o ferro rasga, sem eles o ferro queima. Nesta manifestação de cultura anárquica do objecto que perde o fim para que foi criado, cria-se no observador um conflito irremediável entre a sua personalidade e o fracasso da sua função. À semelhança e com a intenção do mesmo conflito, Raoul Hausmann com a sua escultura “Cabeça Mecânica” (O Espírito da Nossa Era, como ele lhe chamou como título alternativo) construída usando materiais gastos, tem em mente demonstrar o descartável e a futilidade em que o ser humano se tornou.

O Dadaísmo, como movimento revolucionário que pretendia ser contra a guerra, morre em 1920. Contudo, nas décadas seguintes, ele foi revivido vezes sem conta – ainda hoje o parece ser – como atitude mental. Ocupam, os dadaístas, através das suas formulações literárias e artísticas revolucionárias e anárquicas, uma posição histórica no seu tempo que veio a servir de ponto de referência para uma geração mais nova de artistas que se guiaram por essa verdade dadaísta.
A par do Expressionismo e do Surrealismo, filosofias culturais da primeira metade do século XX, também o Dadaísmo “flutuou” na mesma onda artística; contudo, os dadaístas foram pioneiros nos seus processos criativos. Reagiam com terror e  repugnância à brutalidade da guerra e à matança mecânica, anónima e maciça, usando a suposta lógica dos seus argumentos para legitimarem a sua política de guerra contra a guerra. O próprio termo do movimento “Dada[Dadá], numa combinação do som onomatopeico (da criança) com a liberdade de significado interpretado, foi o grito de guerra mais adequado ao assalto às tradições de todas as manifestações culturais até aí manifestadas. “Dada queria destruir as fraudes da razão e descobrir uma ordem irracional“, no objectivo imposto por Hans Arp (pintor, escultor e poeta franco-alemão, um dos grandes representantes do movimento artístico dadaísta). Ora tomando parte no debate político numa tentativa de cativar o seu público (grupo de Berlim), ora baseando-se unicamente na ironia, na irracionalidade e no efeito de choque das suas provocações literárias (grupo de Zurique).
São estes que inventam novas formas de expressão literária em poemas sonoros foneticamente, sem sentido, e nos poemas simultâneos em que todos os intérpretes, presentes em palco, liam os seus textos ao mesmo tempo. Amálgama absoluta: toda a ordem tradicional das palavras e a interacção entre som e significado eram abolidos; dissecavam-se as palavras em sílabas fonéticas individuais esvaziando, assim, a linguagem de qualquer sentido; recombinavam-se os sons numa nova linguagem sonora, roubando, tais métodos, à linguagem, a sua função. E porquê? E para quê? Porque, segundo os Dadaístas, as instruções, os comandos e a transmissão de informações, privavam a linguagem da sua dignidade. E nada melhor, para simbolizar o troar dos canhões e o ruído de fundo das trincheiras contra os quais de debelavam, do que estes poemas sonoros e sem sentido e este atropelo anárquico de leituras simultâneas em palco. Nada melhor do que os “poemas aleatórios”, sem sentido e sem ordem definida, para provar que o dadaísta era igual a si mesmo.
Morte à arte – pretendiam os dadaístas. Diletantes, ergueram-se contra a arte. A arte morreu. Viva Dada – gritava Walter Serner.

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