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OS INCÊNDIOS E A HERANÇA DE NERO

“Contudo, nem por indústria humana, nem por larguezas do imperador, nem por sacrifícios aos deuses, foi conseguido afastar a má fama de que o incêndio tinha sido mandado. Assim pois, com o fim de extirpar o rumor, Nero inventou uns culpáveis, e executou com refinadíssimos tormentos os que, aborrecidos pelas suas infâmias, chamava o vulgo cristãos. O autor deste nome, Cristo, foi mandado executar com o último suplício pelo procurador Pôncio Pilatos durante o Império de Tibério e, reprimida a perniciosa superstição, irrompeu de novo não somente por Judeia, origem deste mal, senão pela urbe própria, aonde conflui e se celebra quanto de atroz e vergonhoso houver por onde quer. Assim, começou-se por deter os que confessavam a sua fé; depois pelas indicações que estes deram, toda uma ingente multidão (multitudo ingens) ficaram convictos, não tanto do crime de incêndio, quanto de ódio ao género humano. A sua execução foi acompanhada por escárnios, e assim uns, cobertos de peles de animais, eram rasgados pelos dentes dos cães; outros, cravados em cruzes eram queimados ao cair o dia como se fossem luminárias nocturnas. Para este espectáculo, Nero cedera os seus próprios jardins e celebrou uns jogos no circo, misturado em vestimenta de auriga entre a plebe ou guiando ele próprio o seu carro. Daí que, ainda castigando os culpáveis e merecedores dos últimos suplícios, tinham-lhes lástima, pois acreditavam que o castigo não era por utilidade pública, mas para satisfazer a crueldade dele próprio.”

REGINA SARDOEIRA 
Assim escreve Tácito, nos Anales, acerca do incêndio de Roma, na época do imperador Nero. 
Muitas explicações podem ser expostas (ou inventadas) para este acto criminoso de um homem muito poderoso. 
Diz-se que Nero terá sido poeta, músico e cantor. Deste modo, o espectáculo das chamas e os gritos das multidões apavoradas terão inspirado o artista a compor uma melodia e a executá -la, enquanto o fulgor do incêndio iluminava os ares. 
Diz-se ainda que ele havia encomendado um projecto urbanístico para a nova Roma. Incendiar a antiga seria a oportunidade exacta para erguer dos escombros incinerados uma urbe mais grandiosa. 
Diz-se ainda que era necessário atemorizar os cristãos, cujo número crescia e ameaçava o império. E o incêndio, ordenado pelo imperador, tornou-se pretexto para perseguição e execução dessa seita temerária que teimava em resistir.
Quando vejo um incêndio e penso no perfil psicológico do incendiário, lembro-me, invariavelmente, do imperador Nero. 
Aqueles tempos originaram seres monstruosos, homens e mulheres ávidos de poder, capazes de se assassinarem entre si – mães contra filhos e filhos contra pais, irmãos contra irmãos e maridos contra mulheres e outras aberrações criminosas – e também a necessidade de granjear cada vez mais poder, de perseguir os mais fracos e mais pobres, tornando-os bodes expiatórios, de, enfim, superar a mediocridade, alterando o curso da história e a organização das cidades. E sim – inventar motivos poéticos e poder tocar a cítara na exaltação de emoções bárbaras engendradas na contemplação de fenómenos extraordinários. 
O fogo é um espectáculo grandioso e é por causa disso mesmo que uma festa digna desse nome inclui espectáculos de pirotecnia, que uma celebração de aniversário não dispensa as velas a arder, que iluminamos os nossos pátios, terraços e varandas em convívios pela noite dentro. E acendemos fogueiras nas praias, para nos juntarmos à sua volta, em comunhão, e insistimos em iluminar um halo do nosso rosto com a luminária do cigarro que prazeirosamente fumamos e, em suma, se não fosse a descoberta do fogo nos primórdios, a civilização dos homens não teria acontecido. 
O fogo serve para punir, e outrora queimaram-se as bruxas, os feiticeiros, os hereges. Mas também tem poderes purificantes e acendem-se velas nas igrejas apelando à misericórdia de Deus e louvando os santos. 
O fogo é, pois, um símbolo poderoso da humanidade. 
Prometeu, diz o mito, roubou-o aos deuses para dá-lo aos homens e foi punido no sempiterno rochedo; os jogos olímpicos de outrora e de hoje têm início com a corrida da tocha até ao lugar onde esplenderá, enquanto durarem os jogos. 
Quando deflagra um incêndio, quando uma mão temerária (ou criminosa) lança a faísca, sabendo que vai devastar zonas verdes e fazer perigar todo um sistema de vida, natural e humano, dois fenómenos contrários sucedem nessa hora: o mundo iluminar-se-á, de facto, um espectáculo grandioso terá início, para possível deleite de quem, assim, reencarna Nero; e logo a seguir, um monte de cinzas e uma nuvem de fumo, um triste despojo de ruínas calcinadas e terra negra será o reverso da tendência orgíaca daquele que admite incendiar. 
Sim, qualquer incendiário é louco, embora existam muitos tipos de loucura. E, pelo que temos visto, esses loucos são deixados à solta por aí, mesmo sinalizados como tal, mesmo confessando às autoridades os seus gestos dementes. Logo, talvez não sejam apenas eles os culpados, mas sim esta herança antiga dos Neros da história, este desejo de acender luzeiros e criar esqueletos incinerados, para depois reerguer novas cidades e plantar novas árvores e renovar o mundo. 
Dizem que, por detrás de um incendiário, há uma plêiade de interesses e que tais actos não têm a gratuitidade inocente da loucura ou a necessidade inerente à criação artística, após o espectáculo grandioso. A custo, tenho conseguido apreender os contornos de semelhantes interesses e em nenhum deles sou capaz de vislumbrar apenas a loucura, apenas o desejo de renovar o mundo, iluminando-o. Vejo ainda que, no deflagrar de um fogo posto, aquele que o protagonizou e o seu mandatário, por razões talvez diversas, sentem aumentar ou firmar-se a sua sede de poder. E esta é ainda uma herança de Nero, o recrudescimento do poder individual sobre os outros homens, a sensação de domínio de um certo grupo sobre todos os demais. 
Há ainda palavras incendiárias que talvez não produzam o fogo das labaredas que devoram as florestas, mas ao serem atiradas do alto dos púlpit

os desenham, noutros horizontes, a força demoníaca da consumpção. E até parece que o auge do calor solar e as cabeças ardentes que a ele se expõem explodem em actos desvairados, incinerando consciências. 

Dois tipos de incêndio, ambos violentos, ambos oriundos da mesma fonte maléfica, destruindo terra e anquilosando todos os valores.
E eu vejo, claramente, nas cenas macabras que os incêndios provocam nos nossos territórios, na nossa paisagem, na nossa atmosfera, nos rostos angustiados daqueles a quem o furor das chamas destrói a mais elementar condição de vida e também nas palavras acesas com que forças antagónicas vão incendiando e destruindo a concórdia, o sinal da decadência humana, o dedo de forças destruidoras, marca e timbre de um sangue contaminado, vejo em tudo isso o fim daquela humanidade a quem Prometeu outorgou o fogo, roubado aos deuses e por quem enfrenta um castigo eterno. E depois lembro-me do Nero romano, leio nas entrelinhas dos seus actos ( que mais não é possível fazer), e encontro, neste país latino em que vivo, a contaminação genética desse imperador de outrora.

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