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FUMAR É COISA DO PASSADO

VERA PINTO
É com grande satisfação que cada vez mais sou abordada com pedidos de ajuda para deixar de fumar. A luta pela consciencialização dos riscos e perigos associados ao tabagismo, levada a cabo pela sociedade é intensa e parece estar a dar frutos. O modismo do estilo de vida saudável, as recentes alterações legislativas neste campo, as várias campanhas de alerta para este grave problema de saúde pública, assinaladas pelo dia do Não fumador a 17 de Novembro e o trabalho de orientação dos vários profissionais de saúde constituem as armas de combate ao tabagismo que é já reconhecido como uma verdadeira epidemia. Esta visão optimista não representa uma declaração de vitória, mas um incentivo à mudança. Tenho plena consciência que o caminho a percorrer é extraordinariamente longo.
O tabagismo é a segunda maior causa de morte no mundo, vitimando um em cada dez adultos todos os anos. Inicialmente usado para fins terapêuticos, como dores de cabeça ou como repelente de insectos, para rituais religiosos e mágicos como forma de purificar e proteger os guerreiros das tribos, o tabaco chegou à Europa trazido pelos espanhóis, decorria o século XVI. Nessa altura, apenas os homens ricos e mulheres de má reputação fumavam. A mulher honrada era considerada indigna se fumasse, considerado um crime que lesava a virtude feminina. Com a revolução industrial, o tabagismo enraizou-se em todas as idades e raças e foi arrastado pelo simples espírito da imitação, arruinando a saúde. O hábito de fumar tornou-se tão comum quanto como hoje tomar um cafezinho. Vários foram os motivos que levaram à proliferação do vício: uns fumam para passar o tempo, outros para se acalmarem, outros para se inspirar com melhores ideias para soluções de problemas, porque acreditam pensar melhor sobre o impulso sugestivo do fumo a elevar-se em espirais, outros ainda, porque se passou a aliar o fumo do tabaco ao charme feminino e à masculinidade do homem.
Independentemente da razão que leva a pessoa a acender o cigarro, quem paga é a saúde. Os principais responsáveis por estes malefícios são a nicotina substância que causa dependência, o alcatrão e o monóxido de carbono. Após a inalação, e em apenas alguns segundos a nicotina liga-se a receptores nicotínicos específicos localizados no sistema nervoso central, activando-os, e provocando libertação de dopamina. Este mensageiro químico está relacionado com a sensação de prazer associado ao acto de fumar. O fumo do tabaco afecta quase todos os órgãos do corpo humano, com consequências sérias para quem fuma e para quem não fuma. A nível respiratório causa tosse e garganta irritada, afecta a ventilação, está na base de problemas respiratórios graves como a asma e a DPOC (doença pulmonar obstrutiva crónica), aumenta o risco de cancro do pulmão, outros tumores das vias respiratórias e infecções das mesmas, nomeadamente em pessoas expostas passivamente e diminui o efeito de tratamentos para outras doenças. A nível cardiovascular eleva a pressão arterial e acelera os batimentos cardíacos, aumentando o risco de doenças do coração e artérias, como aterosclerose, AVC, doença coronária ou insuficiência cardíaca. A nível reprodutor afecta a fertilidade em ambos os sexos, aumenta o risco de parto prematuro e os bebés de mães fumadoras para além do risco de nascerem com baixo peso são também mais vulneráveis a doenças respiratórias. Aumenta o risco de úlceras gástricas, cancro do estômago e pâncreas, envelhecimento prematuro da pele, sobretudo a nível do rosto. Socialmente afecta a saúde das pessoas que convivem com o fumador e acaba por estar associado a modelos sociais pouco saudáveis: um pai que fume terá dificuldade em evitar que o filho não lhe copie o hábito.
Nenhum fumador o é por desconhecimento dos malefícios de fumar. Deixar de fumar é difícil, mas é possível. Qualquer razão é boa para parar. Desde o receio de desenvolver cancro ou vir a sofrer de uma doença cardiovascular, passando pelo desejo de engravidar ou até mesmo pelas desvantagens económicas que o vício acarreta, tudo conta. A motivação é sem dúvida o factor crítico de sucesso na estratégia de cessação tabágica. Contudo, é importante lembrar que, apesar do fumador desempenhar o papel mais importante deste processo, ele não está sozinho nesta batalha. Co-responsabilizar e envolver a família, amigos e colegas de trabalho e procurar o apoio de profissionais de saúde, por forma a encontrar a melhor estratégia para deixar de fumar, avaliar a necessidade de recurso a medicamento e prevenir recaídas faz parte deste angustiante processo de mudança. Desistir não é opção.

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