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EXTENSÃO DE LUZ (DE UMA NETA QUE PROCURA O AVÔ)

ANABELA BORGES
Procurei-te por todo o lado.
Já te procurei pelos estreitos caminhos e pelas ruas mais largas. Procurei-te pela estrada de paralelos que percorríamos de mãos dadas, desde a escola até casa, mas nunca mais o fiz a pé (agora a mãe vai sempre buscar-me de carro, porque diz que não tem tempo para ir a pé).
Procurei-te no caminho de terra batida que vai da minha casa à tua e continuei pelo monte, a serpentear entre as giestas, na vereda que vai surgindo e desaparecendo misteriosamente nos desníveis, fui ao ribeiro onde refrescávamos os pés poisados sobre os limos macios (mas nunca mais fiz as expedições que fazíamos, tu e eu, porque não quero fazê-lo com mais ninguém).
Já calcorreei com os olhos muitas autoestradas, a vista bem estendida para a frente, a alcançar o horizonte, e não eras tu que ias a conduzir (faltas-me nessas viagens pelo país, avô).
Já até sobrevoei os ares à tua procura, ao largo, num extenso campo de visão, ao redor da tua casa e da minha casa, da escola, do monte, do mundo inteiro (mas tu não ias nesse avião). E para que preciso eu de aviões, quando consigo voar apenas com a imaginação, como tu me ensinaste, avô?
E não te encontrei.
Onde foste, avô? Será que foste fazer a viagem de que me tinhas falado?
Contaste-ma em segredo, como um segredo só nosso.
Disseste-me que era uma viagem sem igual, que um dia irias fazê-la, e que era quando irias descobrir os mistérios de Universo. Disseste que a saudade seria a única coisa a separar-nos. Dizias, “O que é a saudade comparada com as tantas coisas boas que temos e que nunca irão acabar?”, dizias, “Sim, eu sei que a saudade é difícil, que é como um vazio permanente no nosso coração, como um buraco que se abre e temos dificuldade em tapar. Eu sei! Mas quando ela vier, lembra-te da alegria a sorrir nos nossos olhos, da tua mão pequena na minha mão já quase sem idade, das histórias que inventámos, e dos nossos segredos só partilhados com a lua. Ainda te lembras que nome isso tem?”.
Sim, avô, lembro-me: felicidade.
A saudade é permanente, “O que é permanente, avô?”, e tu explicavas, “Permanente é uma coisa que fica sempre”.
Onde estás, avô, que não consigo ver-te? Procuro-te por todo o lado e não consigo ver-te.
Fala comigo, avô, como falavas. Diz-me onde estás.
A sala de jantar tem uma mesa tão comprida, agora que não estás, avô. E o teu lugar não é ocupado por mais ninguém, como se estivesse à tua espera de forma permanente.
A tua casa parece que cresceu, avô. Tudo era tão mais aconchegado quando estavas aqui. Será possível as casas crescerem? Bem, talvez que nas nossas brincadeiras tudo tivesse esse poder de crescer e encolher, acho que sim.
A cal da casa parece encardida, os degraus das escadas são agora mais altos.
O jardim tem as ervas daninhas que tu arrancavas para não matarem as flores que apanhavas fresquinhas, pela manhã, para oferecermos à avó.
Olha, os olhos da avó agora são murchos e já não têm brilho. E os olhos da mãe e do pai também já não sorriem como sorriam (agora sorriem-me apenas com os lábios, mas eu sei que esses sorrisos por vezes são forçados, que os sorrisos naturais veem-se nos olhos, sei isso porque me ensinaste, avô). Os meus olhos também já não querem sorrir.
As folhas das laranjeiras não estão verdes e viçosas como tu dizias que eram, não estão não, avô, estão amarelecidas e viradas para o chão como se já não quisessem viver.
O caminho para a escola não parece o mesmo visto do carro, não tem a magia nas pedras, nem os encantos que noa abraçavam. E para fazer o caminho da tua casa para a minha, parece que o caminho é mais comprido, porque as minhas pernas cansam-se e quebram-se nos joelhos a perderem as forças.
O cão desapareceu, o nosso cãozinho, que não sei dele também. E eu sei que foi à tua procura. Tenho a certeza disso, porque ele sempre esperava por ti, feliz, com um sorriso de cão, e a abanar a cauda.

Adormeço. Estou cansada, avô.
O dia amanheceu com o frio de janeiro, branco e cheio da luz do inverno, cheio daquele frio que aquecia os nossos corações à lareira. Vieste buscar-me para me levares à escola. Fomos a conversar durante todo o caminho, com as mãos dadas a balançar para trás e para a frente. O dia custou a passar, ansiosa que eu estava que voltasses para me buscar. No regresso, tivemos ainda tempo para subir ao monte e apanhámos galhos para fazer estacas para as ervilheiras que precisavam de ter onde se agarrar para crescerem belas ervilhas que a avó haveria de pôr na sopa. E rimos porque assustámos um coelho selvagem, que correu pelo monte até desaparecer por completo e, na verdade, o restolhar que ele fez assustou-nos a nós, e muito! Espreitamos os nossos esconderijos, as nossas cabaninhas, as grutas, verificámos os estragos e tudo o que teríamos de remendar, na primavera, depois das chuvas.
Acordei. Não te vi.
Agora estou ainda mais atenta às coisas que me rodeiam, como tu me ensinaste, avô. E consigo ouvir, no caminho para a escola, o eco da tua voz sábia e animada. No jardim, há plantas que me dizem que não estão a morrer, que estão só um bocadinho tristes, mas eu sei que posso cuidar delas, como tu me ensinaste. No monte, há ainda aventuras por descobrir, durante toda a minha vida com os meus amigos – e os meus filhos, quem sabe, ou os me

us netos –, histórias para contar e segredos que poderei revelar-lhes. E a casa, eu sei que a casa pode tornar-se, lentamente, novamente numa casa alegre se todos fizermos por isso.

Quando vou por aí fora, consigo ver tantas coisas lindas: os céus de cinza a pintarem-se de azul; o sol líquido de fim de tarde a derramar-se, lento, sobre os telhados; as copas douradas das árvores dançando ao vento; as campânulas inclinadas nas bermas dos caminhos; a urze doce no outeiro. 
À medida que se eleva, o sol aspira o nevoeiro, e vemos tudo com mais clareza, também me ensinaste isso.
Os olhos da avó, da mãe e do pai já sei o que têm – têm saudades como os meus.
O cão não voltou a aparecer. Talvez tenha feito a mesma viagem que tu e esteja muito satisfeito, sentado ao teu lado.
Cada pessoa é única na sua individualidade, e cada pessoa deixa sempre um pouco de si quando parte, numa extensão de tempo e espaço, dentro e fora de nós, como uma energia, uma luz que não se apaga.
Aparentemente, quando olhamos em volta, ou mais em volta, ao longe, parece-nos ver muitas irregularidades ou mesmo o caos. Mas quando se olha de cima parece que tudo se conjuga, tudo encaixa e está feito para funcionar. Talvez tu estejas a ver-nos assim.
Quando olhamos para as coisas, podemos ver a forma como se encaixam, de alguma maneira, umas nas outras. Há uma espécie de harmonia cósmica de formas e tamanhos por todo o lado.
Afinal, avô, tu estás em todo o lado. Disseste-mo nos sonhos.
Já sei onde te encontrar. 
————–
*Conto publicado na anthologia ATÉ SER PRIMAVERA, Anabela Borges.

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