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UMA ESCOLHA QUE PARECE FÁCIL

LUÍS ARAÚJO
Fim de tarde em Lisboa, acabado de sair de uma reunião na zona de Alcântara preparo-me para uma deliciosa caminhada à beira-rio de volta ao hotel, um “guilty pleasure” nas minhas fortuitas idas à capital, e que permite apreciar a transição da cidade com a chegada do lusco-fusco.
Assim que dou as primeiras passadas, três ou quatro trovões, a antecederem mais do que certa bátega avisam-me da impraticabilidade de tão bem urdido plano. Forçado a optar entre uma molha descomunal, mais do que certa gripe, dores, febre, internamento e quiçá a morte ou apanhar um táxi, rendido, dirigi-me à postura mais próxima.
Aí, sou brindado com uma viatura Citroen Xsara com mais de 15 anos, um milhão de quilómetros e nenhum tipo de cosmética que disfarçasse estas duras realidades.
Imediatamente após iniciar a viagem, o taxista, que deve ter pensado que éramos amigos há vários anos, achou por bem entabular profunda conversa sobre questões tão diversas como a política interna, as últimas contratações do Benfica, ou as malditas obras que afectavam o seu desempenho profissional, obrigando-o a desviar do pré-estabelecido roteiro.
E eis como um promissor fim de tarde se transformou rapidamente em meia hora de conversa aborrecida, amparada por um assento desconfortável e um odor que era elaborada mistura de diversos cheiros – felizmente – indecifráveis.
Há quem pense que odeio taxistas, o que não podia estar mais distante da realidade.
Com uma língua tão rica como a portuguesa, onde abundam diversos adjectivos para traduzir um sentimento tão profundo e bonito como o desprezo total e absoluto, não me parece muito correcto dizer-se que odeio esses bravos e esforçados profissionais, que, com uma atitude a roçarem a marginalidade e uma falta de educação generalizada brindam o incauto cliente com inolvidáveis momentos, muitas das vezes em viaturas que só com muito boa vontade podem ser epitetadas de carros.
O que me deixa com um problema de consciência, pois recentemente fiz uma viagem de Uber… E fiquei em choque.
É indescritível a sensação de se sair de um avião, puxar do telemóvel e passados dois minutos ter um carro de gama média alta, semi-novo, com interiores imaculados e um motorista com aspecto de ter algum cuidado com a higiene pessoal a transportar-nos silenciosamente ao destino.
Há dois tipos de taxistas, o taxista mau e, muito abaixo deste, num novo nível do Inferno de Dante, o taxista do aeroporto. Quem nunca foi aldrabado no preço de um táxi, ou teve que, em desespero, explicar o destino ao mal humorado taxista não compreenderá a sensação imensa de conforto que é a Uber, mas também, com toda a certeza nunca teve uma hospedeira de farda sensual a servir-lhe champanhe e a aconchegar a almofada antes de adormecer.
E daí o meu problema de consciência , pois foram os taxistas que nos deram a Uber.
Décadas e décadas de maus, péssimos serviços, de Bangkok a Nova Iorque, da Austrália à Islândia, levaram não só à criação da Uber, mas à sua fácil , facílima, explosão global.
De facto, se os taxistas, não prestassem um serviço tão “merdoso”, a Uber não tinha razão de existir. E a Uber é das melhores coisas à face do globo, a par da pornografia online e das refeições pré-cozinhadas, claro.
Obrigado, taxistas, e… Até nunca mais.

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