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ENVELHECIMENTO: GERIATRIA e GERONTOLOGIA

GABRIELA CARVALHO
A Terapia Ocupacional actua em vária áreas, nomeadamente na Geriatria e Gerontologia, como já referi noutros momentos; podendo ser a intervenção realizada nas 8 respostas sociais reconhecidas oficialmente pela Segurança Social, para os idosos em Portugal:
– Centro de Convívio (CC)
– Centro de Dia (CD)
– Lares para idosos (Lares)
– Residência
– Serviço de Apoio Domiciliário (SAD)
– Acolhimento Familiar de Idosos (AFI)
– Centro de Acolhimento Temporário de Emergência para Idosos (CATEI)
– Centro de Noite (CN)
Hoje, abordarei a Geriatria e a Gerontologia – que é a minha área de actuação – focalizando em crónicas futuras a intervenção específica do Terapeuta Ocupacional em Lares (a minha experiência).
“Envelheço, quando o novo me assusta e a minha mente insiste em não aceitar.
Envelheço, quando me torno impaciente, intransigente e não consigo dialogar.
Envelheço quando o meu pensamento abandona a sua casa e retorna sem nada a acrescentar.
Envelheço, quando muito me preocupo e depois me culpo porque não tinha tantos motivos para me preocupar.
Envelheço, quando penso demasiadamente em mim mesmo e consequentemente me esqueço dos outros.
Envelheço, quando penso em ousar e antevejo o preço que terei que pagar pelo acto, mesmo que os factos insistam em me contrariar.
Envelheço quando tenho a chance de amar e deixo o coração que se põe a pensar: Será que vale a pena correr o risco de me dar? Será que vai compensar?
Envelheço, quando permito que o cansaço e o desalento tomem conta da minha alma que se põe a lamentar. 
Envelheço, enfim, quando paro de lutar!”
(Reinilson Câmara)
De acordo com o Ministério da Saúde em 2004, o Envelhecimento Humano é um “processo de mudança progressiva da estrutura biológica, psicológica e social, que se desenvolve ao longo da vida”.
O envelhecimento da sociedade é uma realidade inevitável, dado haver uma maior longevidade do Homem (maior esperança média de vida) e menor taxa de natalidade, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE).
No entanto, também se tem verificado que este aumento da população idosa está muitas vezes associado a índices de dependência acrescidos e a uma maior vulnerabilidade do idoso.
Em Portugal a população idosa (>65 anos) duplicou nos últimos 40 anos e o INE prevê que dentro de 50 anos este grupo represente cerca de 32% da população.
Deste grupo existe um aumento acentuado de pessoas acima dos 80 anos (considerados por alguns autores como a “quarta idade”), tendo a maioria deles, dependências associadas.
Assim, pode-se ainda dizer que em Portugal se vive um duplo envelhecimento:
– Mais idosos em função do aumento do índice de envelhecimento associado a um aumento da esperança média de vida;
– Uma diminuição do número de jovens, em função de um índice sintético de fecundidade, insuficiente para permitir o rejuvenescimento da população.
Este aumento da longevidade coloca obrigatoriamente novos desafios em diversas áreas e domínios, principalmente, saúde e prestação de cuidados.
Estes dois são principalmente importantes, porque deles advém o Envelhecimento Normal, que segundo a Organização Mundial de Saúde (2001) é “constituído pelas alterações biológicas universais que ocorrem com a idade e que não são afectadas pela doença e pelas influencias ambientais”.
É este envelhecimento normal que está na génese da GERONTOLOGIA: estudo de todas as modificações morfológicas, fisiológicas, psicológicas e sociais consecutivas à acção do tempo no organismo (envelhecimento), independentemente de qualquer fenómeno patológico.
Assim, o envelhecimento resulta de um conjunto de alterações psicológicas, biológicas e sociais que ocorrem ao logo da vida, pelo que se torna difícil, encontrar uma data especifica a partir da qual se possa considerar as pessoas como sendo “velhas”.
É usual considerarmos como pessoas idosas, todos aqueles que têm idade igual ou superior a 65 anos, sendo esta também a idade de entrada para a reforma. No entanto, não podemos esquecer que este critério se reporta a Portugal e varia de país para país e mesmo dentro do país, varia em função da profissão, sistema social, etc. Assim sendo, este apesar de ser o critério mais utilizado nem sempre é o mais fidedigno.
De um modo geral o envelhecimento ocorre ao longo da vida e ninguém fica velho de um momento para o outro. Assim, há que considerar as alterações progressivas a nível físico e mental como indicadores de velhice e ter cautela relativamente ao critério da idade cronológica como indicador do estado de ser idoso.
No entanto, utilizar como referencia a idade cronológica para aglutinar um grupo de pessoas com características comuns, parece ser a melhor solução.
Assim, é habitualmente aceite em Gerontologia a idade dos 60 aos 65 anos como idade limiar para o aparecimento do envelhecimento.
Na prática clínica, sugere-se uma abordagem individual ao envelhecimento, de forma diferenciada, de acordo com a história e o percurso de vida de cada um.
Surge assim a GERIATRIA: considerada como o aspecto terapêutico da Gerontologia, ou seja, a que estuda os

meios para lutar contra os efeitos do envelhecimento.

“A maioria dos Homens quando atinge a meia-idade tem medo e odeia a velhice… É por isso que a maior parte deles envelhece mal e morre antes do tempo.” (G.P. Papini séc. XVIII)
A Geriatria nasceu da Medicina e tem origem muito recente, sendo o seu principal objectivo de estudo os aspectos clínicos das doenças de que as pessoas com mais idade são portadoras.
O conceito de Geriatria foi pela primeira vez defendido por I.L. Nascher num artigo publicado na revista New York Medical Journal em 1909 e initulado “The diseases of the old age n their treatments”.
O conceito foi evoluindo e, actualmente, a Geriatria é uma especialidade médica na maioria dos países, embora ainda não em Portugal.
“O Prof. Doutor João Gorjão Clara, Médico Especialista em Medicina Interna e Cardiologia, Membro da Academia Europeia de Medicina para o Envelhecimento, Coordenador da recém-criada Unidade Universitária de Geriatria da qual nasceu a Consulta de Geriatria do Hospital Pulido Valente – Centro Hospitalar Lisboa Norte refere que lamentavelmente, em Portugal não existem competências em Geriatria, e a Geriatria ainda não é reconhecida como especialidade. Na maioria dos países desenvolvidos existe como especialidade organizada e autónoma (…) A título de exemplo posso apontar-lhe o caso de Espanha, onde a Geriatria é reconhecida como especialidade autónoma desde 1978.
O facto do ensino pós-graduado teórico e prático só muito recentemente se estar a desenvolver, leva a que ainda hoje se mantenham crenças, mitos e estereótipos relativos aos mais idosos e que há muito deveriam ter desaparecido. São exemplos de mitos a ideia de que a velhice é sinónimo de doença, de que todos os indivíduos de idade avençada são dementes e que as doenças dos velhos não cedem facilmente.
Na verdade, apesar de serem mais prevalentes nos indivíduos de certa idade as doenças como as demências vasculares por aterosclerose ou a demência de Alzheimer, artroses, insuficiência cardíaca, entre outras, não é menos verdade que cerca de 80% dos idosos ultrapassam os 70 anos de idade sem sinais clínicos de falência respiratória ou cardíaca e com um estado mental perfeitamente compatível com a sua independência no que respeita às tarefas do dia-a-dia.
No entanto, também é verdade que não se deve ignorar que a passagem dos anos produz nos organismos vivos desgaste das suas capacidades e que depois dos 80 anos de idade podem ser identificados diferentes graus de insuficiência orgânica para as quais os profissionais de saúde devem estar atentos, para que as medidas de prevenção especiais sejam implementadas de forma a não agravar a qualidade de vida.
Segundo Helena Saldana em 2009, os temas sobre a Geriatria são vastíssimos, sendo os mais frequentes em Portugal:
– História clínica do velho doente e suas particularidades
– Sindroma geriátrica e sindroma de fragilidade
– Problemas de mobilidade e quedas
– Doença arterial periférica
– Sindroma de incontinência
– O idoso com úlceras de pressão
– Sindroma de polifarmácia
– Sindromas tromboembólica
– Diabetes mellitus no idoso
– Osteoporose em idade avançada
Em crónicas futuras, serão abordados alguns destes temas (os mais pertinentes para a Terapia Ocupacional).
“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional acrescenta vida aos anos.”
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Referências Bibliográficas:

– Ferreira, O. G. L., Maciel, S. C., Silva, A. O., Santos, W. S. d., & Moreira, M. A. S. P. (2010). Envelhecimento activo sob o olhar de idosos funcionalmente independentes. Esc Enferm USP, 44 (4), 1065-1069.
– Ferreira, O. G. L., Maciel, S. C., Costa, S. M. G., Silva, A. O., & Moreira, M. A. S. P. (2012). Envelhecimento ativo e sua relação com independência funcional. Contexto Enfermagem, 21(3), 513-518.
– Organização Mundial de Saúde (2005). Envelhecimento ativo: uma política de saúde. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde.
– Ribeiro, O., C. Paúl (2011). Manual de Envelhecimento Activo. Lisboa, Lidel – edições técnicas, lda.
– Sequeira, C. (2010). Cuidar de idosos com dependência física e mental. Lisboa, Lidel – edições técnicas, lda.

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