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UM RAPAZ, SOZINHO, A LER UM LIVRO

DIOGO VASCONCELOS
Ontem estava numa esplanada à beira rio a ler um livro, uma atividade sempre enriquecedora e que funciona como um xanax para o nosso cérebro. Viajamos para dentro da história, conseguimos por umas horas abstrair-nos do mundo, das pessoas à nossa volta. Somos apenas nós e o livro, o livro e nós numa relação tão intensa como um ato sexual. Após finalizar uma série de capítulos, parei para fumar um cigarro e observar as pessoas há minha volta, talvez por ainda estar penetrado na relíquia que estava a ler, dei por mim a tentar perceber o que ia na cabeça daquelas pessoas. Porque estavam ali, que relações tinham com o ser humano que estava à sua frente. Vi de tudo, presumíveis casais, grupo de amigos, grandes famílias. Todos eles tinham algo em comum: estavam a seguir um costume – sair para tomar “café” e socializar com uma bela vista de modo a tornar o momento mais solene.
Séquitos obsequiosos, todos eles cumprem os requisitos de formalidade acompanhados por um cinismo exacerbante. Estar ali numa esplanada faz-lhos sentir parte integrante de algo, têm pessoas à sua volta que estão a praticar o mesmo que eles: o “convívio” sob forma de representação. Tudo vai bem naquelas vidas, os casais estão completamente apaixonados, os grupos de amigos transbordam alegria e camaradagem, as famílias são unidas, nutrem um carinho e um respeito mútuo. Perante tamanha felicidade que me rodeava tentei decifrar o que cada um estava a pensar naquele momento. Há quem diga que se soubéssemos o que iria na cabeça da pessoa que está mesmo à nossa frente o mundo seria um lugar inabitável. Não entro numa de misantropia, de desconfiança da humanidade, todos nós somos portadores de virtudes e defeitos, mas admito que a frivolidade com que o ser humano finge ser feliz me incomoda. Parece algo despiciendo, estar numa esplanada a conversar, mas não é algo diáfano, não sai fluidamente, obedece a muitos requisitos de formalidade que torna o momento uma verdadeira produção cinematográfica.

Na minha breve estadia na esplanada também me deparei com pessoas solitárias como eu, pessoas mais velhas que aparentavam ter acabado de sair do trabalho e que apenas queriam desfrutar do por do sol na companhia de mais pessoas, estar rodeados de seres que não conheciam, mas que aparentavam ser felizes.

Tentei abstrair-me de novo do mundo à minha volta e voltar para a volúpia que o meu livro me proporciona, no entanto, já não consegui mais, não sei porquê. Havia algo que me dizia que estava ali a mais, aqueles olhares vilipendiavam, vituperavam a minha presença. Não estava a seguir o protocolo deles, estava a ser impoluto. Não tinha nenhuma máscara que irradiasse felicidade extrema, estava apenas a desfrutar da vista e do meu rico livro. Um rapaz bem-parecido, sozinho a ler um livro. Devem ter pensado: “algo está mal neste rapaz”.

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