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A GRANDEZA AMESQUINHADA

REGINA SARDOEIRA
Passei algum tempo da tarde do último sábado numa esplanada no Largo Conselheiro António Cândido (ou Arquinho) e essa permanência levou-me a confirmar a impressão, já experimentada noutras passagens, mais breves: o último e muito demorado arranjo desta praça da cidade de Amarante é confrangedor. E feio. 
Durante a minha vida amarantina, ou seja desde os meados da década de 80, assisti a duas transformações do espaço. Quando, primeiro, por lá passava, havia bancos de madeira pintados de vermelho, de um lado e do outro, a estátua do Conselheiro, que lhe dá o nome, erguia-se, altaneira, num dos extremos, com a mão erguida voltada para o Marão e, pelo menos uma árvore – um “chorão” – criava um halo de sombra a quem desejava por ali a descansar um pouco. 

Mais tarde, nasceram umas obras monumentais; e uma construção em pedra, demasiado elevada, pois quem estivesse do lado direito da praça, por exemplo, não conseguiria ver nada para o lado oposto, começou a erguer-se, criando desníveis e ornamentos arquitectónicos decerto desmesurados. A grande árvore resistiu e a estátua do Conselheiro permaneceu aí, no seu lugar de sempre (creio eu). 
A seguir, umas obras de fundo, destruíram o monumento arquitectónico erguido no largo, as pedras – em grande número! – desapareceram, um grande fosso foi cavado e permaneceu aberto alguns anos, descobriu-se o arquinho medieval que terá dado, primeiro, o nome ao sítio. Todos aguardávamos que, por fim, o Largo Conselheiro António Cândido traria a esta entrada de Amarante alguma da dignidade perdida em múltiplas alterações. E, um dia, a estátua do Conselheiro regressou do exílio, foi restituída ao espaço; mas, em lugar de se erguer, altiva e elevada, ao fundo, voltada para o Marão, ficou à frente, quase rente ao chão, com o braço levantado ainda, mas não abrangendo, em altura, mais do que as escadas do Edifício Navarras! 
O arquinho medieval ficou escondido, debaixo de um gradeamento metálico, o chorão desapareceu e em seu lugar construíram um pequeno habitáculo de vidro e cimento destinado a informação turística. Se por acaso alguém quiser sentar-se ali não tem sombra, não tem bancos…e terá vontade? 
A minha permanência no espaço fez-me reflectir no modo como, querendo mudar, querendo “requalificar” (eis uma palavra cujo significado ainda não entendi, no que diz respeito ao urbanismo), querendo mostrar que é possível fazer melhor, destruindo o que estava feito, se vai tornando o mundo cada vez mais feio. 

Olhar o Largo do Arquinho fez-me evocar a Avenida dos Aliados, no Porto, transformada, por um arquitecto de valor reconhecido, num deserto estéril de cimento. Dantes, havia ali um magnifico e úbere jardim. 
A minha questão é apenas esta: que vai acontecendo aos homens e ao seu mundo? Que paira nas circunvoluções dos cérebros de quem projecta e valida estas aberrações? O que se passa connosco, que nada fazemos para devolver ao nosso ambiente a sua legitima feição? 
Custa-me, cada vez mais, viajar por cidades, vilas e aldeias deste país e deparar com a descaracterização absoluta, pois, vemos os castelos, é verdade, mas no sopé da colina onde se erguem, avulta a fealdade (veja-se, por exemplo, o Castelo de Leiria); vemos monumentos de valor incomensurável e de beleza extraordinária; e ao lado, quase a esbarrar com a jóia histórica, uma estrada nacional e um arsenal de lojas mesquinhas de recordações e esplanadas e restaurantes… (veja-se o Mosteiro da Batalha); vai-se até um santuário, onde o sagrado deveria pontificar, mas, rodeando-o por completo, o comércio e a indústria agigantam-se, estendendo os tentáculos hiantes (veja-se o Santuário de Fátima). 

O fenómeno ergue-se à escala global. A Grande Muralha da China está, por norma, tão atafulhada de gente que se amesquinhou; em torno das Pirâmides de Gizé aglomeram-se tais multidões que já não nos cremos no deserto. Os canais de Veneza regurgitam de barcos estridentes e velozes, a ultrapassar gôndolas e barqueiros tornados obsoletos. 
Já não temos para onde fugir se acaso quisermos mergulhar, por inteiro, na grandeza ou prestar culto à harmonia: tudo se banalizou. E a sublimidade que resiste, vinda de outras eras, em que o homem se transmutou em semi-deus e construiu mundos admiráveis foi afogada na pequenez dos pequenos negócios a ponto de também se reduzir.

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