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JOVENS DESTRUÍDOS

HERMÍNIA MENDES
A perda é um sentimento muito difícil de compreender e apreender.
Não estamos preparados para perder o que queremos muito, o que nos faz viver e respirar. Passamos pela fase da negação em ver e acreditar, como se cada dia e noite não fossem mais do que um sonho torturador e daqui saltamos para a revolta. Para a luta interior com a injustiça que vemos na vida, no ser, na criação. Tudo é posto em causa. Tememos pensar em, mas sentimos abaladas todas as nossas crenças e dogmas. E a revolta aumenta na medida em que esta fraqueza nos entristece. Este “estremecer” das bases do fio condutor em que fomos criados e educados. O tempo vai apagando e aclarando este horizonte turvo e sinuoso, mas nunca deixarei de ter para comigo que saber lidar com a perda “como gente” é só para os fortes. Aqueles que ventos e tempestades não derrubam, nem assustam. Os que mantém a firmeza de razão e espírito negado a outros. Eu, infelizmente, estou nestes outros. Quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, eu tinha sido mãe há muito pouco tempo. Passava e ultrapassava a fase em que tudo me fazia chorar e cair numa tristeza imensa.
Recordo o terror das notícias e das imagens daquela noite, mas jamais consegui esquecer o facto de passados uns dias, penso eu, ter sido encontrado o corpo de uma jovem mãe agarrada ao filho bébé. Nem o medo, o desespero e a força da corrente daquele rio, abriram os braços daquela mãe. Ela nunca perdeu o filho. Lutou contra a perda para além da morte.
Durante anos recordei este facto de quando em vez, mas com a tragédia em Itália revivi esta notícia. É humanamente impossível ficar indiferente a tanta perda. A perda dos afectos e dos lugares de uma vida. Aos sobreviventes nada restou. Perderam a família, os amigos, as casas, os objectos, todos os locais que lhes poderiam trazer algum apoio e recordação. 

Não ficaram imagens, lugares ou cheiros comuns. Nada lhes resta.
E mais uma vez me vem à cabeça a descrição da imagem da irmã mais velha que sob os escombros e com o corpo, protege a pequenina e a deixa viver. A vontade desta criança vai muito para além da luta com a natureza em fúria e vence-a. A imensidão da força e do amor…
Enquanto estes seres humanos com uma vontade e força inimagináveis, lutam pela vida, ouvimos as notícias de outros que matam e agridem, bárbara e gratuitamente. 
O motivo mais ou menos fútil, leva jovens a espancar quase até à morte.
Quando nuns casos a existência humana é de tal forma preciosa que se preserva até com a própria vida, noutros parece que nada existe para além do “eu” egoísta, feroz, sem meios nem fins. Ou melhor, do “eu” cego e amoral que não olha a meios e se conforma com todos os possíveis fins.
O verdadeiramente trágico e temerário é o facto de em pouco mais de uma semana, ter havido duas agressões semelhantes, com jovens sensivelmente da mesma idade e ambas terem produzido resultados devastadores. O que motiva atitudes com estes requintes de malvadez e violência?
A criminalidade violenta sempre existiu e é impossível de erradicar. A mente humana atinge estádios de verdadeiro regresso ao estado selvagem mais puro. Mas trata-se de jovens, vidas que mal começaram, personalidades em formação e completamente alheias à consequência dos seus actos.
Não quero acreditar que estes seres não tenham a consciência e a dor da perda, que não amem a si e ao próximo o suficiente para preservar a vida. Mas o facto é que parece haver casos em que se estabelece um alter-ego colectivo, que não vê nada para além da sua vontade.
E radicaliza-se um medo e insegurança generalizados. Os pais temem pelos filhos, a sociedade passa a viver obcecada com o recurso á violência na solução das contrariedades e problemas.
É muito difícil imaginar que enquanto que uns lutam e se revoltam contra a morte, contra a perda, outros a vejam somente como um efeito potencialmente previsível da vivência humana.
O homem é um ser muito complexo, de desígnios imprevisíveis. Numa mesma sociedade formam-se, lado a lado, personalidades perfeitamente conformadas com o respeito pela vida e integridade física e moral do próximo e outras para quem não existe qualquer um destes valores. 
Enquanto uns lutam por si e pelos seus para além da morte, outros desprezam o valor da vida humana e vagueiam no meio do lodo , do ódio, da irracionalidade. Não podemos lançar mão da desculpabilidade com a exclusão ou marginalização sociais. Em muitos dos casos não existe motivo, só um lamentável “sentimento” de impunidade ou indiferença com o possível resultado da acção.

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