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A QUANTOS MENDIGOS DAMOS ABRIGO EM NOSSA CASA?

FERNANDO COUTO RIBEIRO
Nós somos uns felizardos – não digo felizes porque, feliz, a maior parte não é. Faço aqui uma distinção, da minha responsabilidade, entre felizardo (que é aquele que tem uma série de circunstâncias exteriores favoráveis) e feliz (que é aquele que constrói as suas circunstâncias). É claro que Portugal – e alguns países europeus – tem vivido tempos difíceis, mas acredito que não há tempo pior que a guerra e nós perdemos a memória da guerra (nós vivemos a guerra do Ultramar, mas resolvemos o assunto não falando nele, e como aquilo de que não se fala parece não existir…).
Claro que vemos os filmes e as séries e jogamos jogos de consola com os nossos filhos e, de um jeito artístico, tiramos humanidade (somos surpreendentes) àquilo que mais desumano há: os efeitos colaterais. Reparem que, “efeitos colaterais”, engloba desde o buraco na estrada até uma criança sem mãe. 
Depois há as benditas generalizações e estatísticas que nos permitem falar de tudo sem falar de nada nem de ninguém. Estão, todos os dias – é curioso como as televisões deixaram de falar do assunto como se os refugiados também tirassem férias – a chegar à Europa pessoas que fogem de lugares onde a dúvida da vida e a certeza da fome são a certeza da morte e a dúvida de alimento. 
Como deve ser horrendo, desumano, duro, insuportável, cruel, feroz, medonho o lugar de onde se decide partir sem saber para onde e com uma hipótese muito certa de morte durante a viagem, nossa e dos nossos. Temos de os ajudar. Temos de os ajudar sem pensar demasiado no momento da ajuda, de uma forma pessoal e possível para cada um. Temos de os ajudar, mas como quem ajuda.
E não podemos cair na tentação de criticar com tanta raiva e tanta segurança moral aqueles que, ao verem chegar tanta gente que não conhece, fica impotente e com medo. Um dia, quando já não formos cegos para ver ao perto, haveremos de ser mais bondosos para com aquilo que vemos ao longe.
Acho que todos entendemos o medo provocado por aquilo que vemos, olhos nos olhos, mas há, hoje, um medo muito maior provocado por aquilo que não vemos e que nos desumaniza…

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