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O DOURO E EU

REGINA SARDOEIRA
Fui passar uns dias numa quinta em Sabrosa. Magnífica. Percebi que não conhecia, de facto, a região do Douro, mesmo julgando saber de cor a paisagem. Mas aquele pedaço do mundo não é só paisagem. 
Pude penetrar no âmago desse universo que, até alguns dias atrás, me era exterior. E fiquei assombrada. 
Pela beleza, sim. Mas a beleza é facilmente apreendida e qualquer fotografia pode sugeri-la. Foi então que me dei conta da impossibilidade absoluta de retratar, como um todo, o que aqueles sítios provocam em emoção, em sentimento. 
Alugar, por uns dias, o direito a usufruir dos benefícios de uma quinta como aquela, relaxar nas salas e nos terraços ou nadar na piscina, sorver a paisagem deslumbrante que entra pelas janelas e nos invade é um dos lados da questão, o mais óbvio, o mais comum. Mas olhar, do alto da estrada, desabrigada em absoluto, o precipício, e saber que aqueles socalcos inverosímeis foram plantados e são trabalhados, pelo homem, ano após ano, permanecendo sempre iguais, numa imponente geometria, constituiu uma revelação. 
Imaginei a dureza do labor de quem cultiva as vinhas do Douro e sei que o poder da minha imaginação fica muito aquém da evidência. Não consegui perceber como foi possível criar semelhante arquitectura viva, como pode manter-se, sempre idêntica, ano após ano, a uniformidade sublime da paisagem. Tudo me pareceu uma espécie de milagre, onde os homens e a natureza se têm, mutua e reciprocamente, superado. Tudo excedeu o meu conhecimento e a minha compreensão e só pude guardar, na memória do olhar, o deslumbre que nenhuma fotografia captou. 
Em simultâneo, apreendi duas realidades antagónicas, interdependentes mas, de certo modo, viradas de costas uma para a outra.
De um lado, os grandes proprietários, herdeiros de uma ancestralidade que remonta há vários séculos, mantendo-a, quase incólume, ainda que transformada em negócio de lazer. Do outro lado, os trabalhadores, ocultos, enquanto pessoas, mas absolutamente presentes no resultado. De um lado, a elegância herdada, o saber receber, o acervo patrimonial, várias vezes centenário, com as marcas de muitas civilizações, preservado e harmonicamente distribuído, a ilustrar o que já foi. Do outro, as mãos calejadas, as costas curvadas, a pele tisnada, o cérebro exangue de quem labuta de sol a sol e depois mediocremente descansa num modesto casebre. 
Não me deixei confinar às paredes da casa ou aos sítios de lazer que o sítio proporciona. Saí. Com temperaturas que acreditei extremas, pois o sol dardejava e o bafo do vento era um sopro ardente com vestígios desérticos, percorri alguns lugares, vilas e aldeias, mais ou menos próximas. E, olhando os autóctones, vislumbrei indícios de demência nas expressões dos rostos, vazios, espantados ou apenas ausentes. 
“Nove meses de inverno e três de inferno” é o provérbio que define o rigor de ali viver e subsistir a duras penas. E eu soube que muitos daqueles homens e mulheres que fui encontrando não saem nunca do seu pequeno mundo e talvez escassamente entendam o que vão lá fazer os turistas.
Também não tenho a certeza de que, quem ali vai, para além da possibilidade de desfrutar alojamentos e programas confortáveis e de bom gosto, entenda cabalmente aquilo que vê. 
Era necessário, julgo eu, permanecer no terreno um ano inteiro, partilhando os dias com os que, pelo trabalho, mantêm vivo, aquele património mundial e então saber, de dentro para fora, o significado profundo do que, de fora para dentro, é somente uma paisagem deslumbrante. E talvez no fim, à semelhança do que acontece aos que ali vivem e trabalham, já não houvesse ocasião de fascínio. 
Nada sei acerca dos sentimentos e impressões de meia dúzia de hóspedes estrangeiros que estiveram na quinta ao mesmo tempo que eu. Não sei o que disseram eles, entre si, ou o que contarão aos amigos no final da estadia. 
A estrada de acesso ao sitio era terrível, cheguei de noite e do meu lado esquerdo perfilava-se um negrume onde adivinhei um abismo. Um solavanco do carro, um tremor das mãos, uma tentativa de escapar a um buraco no chão poderiam produzir a queda sem apelo no buraco insondável. E eu pensei: Serão bárbaros os que, deste modo, nos recebem em suas casas, fazendo-nos atravessar um percurso deste modo hostil? Ou será que (pude supor isto, no dia seguinte, quando a luz me mostrou a crua evidência do abismo suspeitado) manter o património, incólume e autêntico, passará por preservar o precipício aberto e a estrada escavada e assim ser fiel à ancestralidade? 
Confesso que esta segunda suposição satisfez a minha necessidade de compreender e pôde acalmar o nervosismo resultante do primeiro contacto. Com efeito, dotar a estrada de protecções de aço, ou alargá -la e suprir os buracos seria uma cedência atroz ao vício civilizacional; para todos os efeitos, só quem assim o deseja se aventura por tais caminhos. E então, se aqueles sítios são património mundial da humanidade devem manter-se tão iguais quanto possível pelos tempos fora. Não faz o mínimo sentido alterar a paisagem com vias adaptadas a carros delicados e gente temerosa: quem ali vai, precisa de ter um certo espírito ou então deve preparar -se cuidadosamente. 
Reconheço que não me preparei, nem sabia muito bem as linhas exactas do percurso. Se a minha prudência foi beliscada, no início, soube, mais tarde, que tenho o espírito necessário para uma tal incursão. Regressei acrescentada e não apenas por haver desfrutado durante três dias de um espaço nobre e requintado, mas, essencialmente, por sentir que pude irmanar-me com uma natureza, construída pelo homem, porventura única no mun

do. 

Miguel Torga, o nativo de S. Martinho de Anta, fez-se homem e poeta na luxúria desse mesmo Douro (ele chamava-lhe Doiro) que constantemente o assombrava e ao qual precisava de regressar periodicamente, mesmo quando outras atmosferas lhe serviram de morada. De igual modo fui assombrada por esse sortilégio quando li, de um fôlego só, os dezasseis diários, os cinco volumes de A Criação do Mundo, os Contos da Montanha e os inúmeros poemas, que são uma parte considerável da sua obra. A imponência da paisagem, a rudeza das fragas e a toalha, realmente doirada, do rio perpassam, constantemente, nas palavras empolgadas do poeta e ficam a ressoar dentro de quem lê. Pelo menos ficaram em mim, que quando pus os olhos no primeiro livro dele, nunca mais o larguei, querendo devorar -lhe o enorme poder. E sofri quando lhe soube da morte, e quis acompanhá -lo nessa última viagem, ainda em S. Martinho de Anta, e lamentei não poder ler o XVII diário e XVIII… Nestes dias que vivi em Sabrosa, naquela quinta pendurada numa encosta sobre o Douro, aproximei-me outra vez do poeta (esquecido?!) e creio ter aderido a uma mais intensa comunhão com aquele que diz:
“O Doiro sublimado. O prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. Socalcos que são passadas de homens titânicos a subir as encostas, volumes, cores e modulações que nenhum escultor, pintor ou músico podem traduzir, horizontes dilatados para além dos limiares plausíveis da visão. Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta.” 
Miguel Torga in “Diário XII”

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