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“A INTERVENÇÃO DO TERAPEUTA OCUPACIONAL EM LARES DE IDOSOS”

GABRIELA CARVALHO
Na área do envelhecimento, a intervenção a ser realizada por uma Terapeuta Ocupacional (TO) é muito vasto.
Do meu ponto de vista (e repito: do MEU ponto de vista) é a área mais global para um TO, a área que o “obriga” a ser mais polivalente.
Vá, admito que puxo bem a brasa à minha sardinha!
Durante os últimos oito anos cresci muito e aprendi muito com o trabalho na área da Geriatria e Gerontologia na instituição onde exerço a minha profissão: Santa Casa da Misericórdia de Amarante.
Intervir nas duas valências de lar de idosos – Lar Conselheiro António Cândido e Estância Nossa Senhora da Piedade – com tão grande diversidade de pessoas, de vidas, de vivências e de patologias, fez-me analisar o envelhecimento de uma perspectiva diferente.
A crónica de hoje é direccionada para a INTERVENÇÃO DO TERAPEUTAOCUPACIONAL NOS LARES.
Antes de tudo, o fundamental é CONHECER. Conhecer e perceber aquela pessoa (e não aquele conjunto de pessoas que tem em comum a faixa etária). É primordial uma avaliação direccionada e adaptada àquele caso em concreto.
No lares, os casos de intervenção podem ser muitos:
– Temos a D. Maria que entrou para o lar porque queria ter mais acompanhamento e não queria sentir-se tão só, mas que não apresenta qualquer diagnóstico que “nos preocupe” (além do normal processo do envelhecimento);
– Por outro lado, temo a D. Emília que foi diagnosticada com uma demência e que, apesar de ser capaz de se vestir e de ir à casa-de-banho sem ajuda, não é capaz de organizar e gerir o seu dia-a-dia;
– E, temos ainda o Sr. António que aos 81 anos sofreu um Acidente Vascular Cerebral e se tornou fisicamente dependente (apesar de não apresentar nenhuma alteração no funcionamento cognitivo).
Especificamente sobre a intervenção com o Sr. António…
RELEMBRANDO (12.08.2016):
“INDEPENÊNCIA e AUTONOMIA são termos que definem situações complementares, mas não idênticas. A autonomia está relacionada com a capacidade da pessoa gerir a sua vida, ou seja, tomar decisões sobre si. (…) A independência está relacionada com a capacidade de desempenho de actividades de vida diária e de autocuidado. No entanto, a dependência não implica uma alteração do funcionamento cognitivo e emocional.”
(Sequeira, C. (2010). Cuidar de idosos com dependência física e mental. Lisboa, Lidel – edições técnicas, lda.)
Talvez, por não implicar uma alteração do funcionamento cognitivo e emocional, a transição para a dependência é um processo extremamente complexo e multidimensional.
(É importante referir que, se na teoria é fácil separar/diferenciar entre dependência física e dependência mental, na prática verifica-se muitas vezes que estas duas dimensões estão interligadas e se influenciam mutuamente).
Quando surge uma dependência ela vai implicar, obrigatoriamente, uma transição para uma nova vida, independentemente de ser um acontecimento antecipado (dependência que acontece de forma progressiva) ou um acontecimento não antecipado (algo que surge de forma abrupta, por exemplo, um acidente).
Alguns países definem a dependência de uma pessoa com base na necessidade de cuidados e na quantidade/tipo de ajuda que necessitam por parte de outra pessoa.
Apesar de ser importante esta avaliação, há uma escassez de dados fiáveis neste domínio que permita uma comparação inter-paises fidedigna.
Em Portugal, existem alguns instrumentos (uns mais simples e outros mais complexos) que permitem a avaliação da dependência da pessoa:
– Índice de Barthel
– Índice de Katz
– Índice de Lowton
– Escala de actividades de vida diária de Lowton e Brody
– Mini Dependence Assessment (MDA) – Actividades corporais, sensoriais, locomotoras e mentais
– Escala de Incapacidade da Cruz Vermelha
Compete ao serviço/instituição, em conjunto com o profissional de saúde (neste caso o TO), seleccionar os mais adequados em função dos objectivos, das necessidades dos idosos e da sua área clínica.
Independentemente do instrumento de avaliação utilizado, “a utilização de instrumentos de medida é fundamental para um diagnóstico rigoroso.”
Após uma avaliação cuidada (e não esquecer que antes de aplicar um instrumento de avaliação mais específico devem recolher-se todos os dados para uma avaliação global do idoso), definem-se as estratégias de intervenção, que devem estar directamente relacionadas com o tipo de dependência e com o grau de dependência.

Exemplo prático:
A D. Celeste foi avaliada com o Índice de Barthel, sendo que na avaliação do iten VESTIR foi cotada com 5 pontos porque “necessita de ajuda pelo menos em metade das tarefas”. Esta ajuda relaciona-se com o facto da D. Celeste não conseguir segurar nas suas mãos de forma eficiente as peças de roupa nem ser capaz de abotoar o seu casaco, dados os seus défices sensoriais e as dificuldades na motricidade fina. A D. Celeste escolhe a sua roupa e sabe a sequência correcta para se vestir, mas depende da ajuda de outrem para a tarefa de vestir (propriamente dita).
Na sessão de Terapia Ocupacional, após esta avaliação, o terapeuta vai intervir de forma a estabelecer melhorias (dependendo do caso pode até “restabelecer”) nas funções sensoriais e na motricidade fina:
1. esti

mulando a sensibilidade, com o recurso a diferentes técnicas e materiais

2. e realizando diferentes exercícios de treino de motricidade fina (exemplo: exercícios com molas de diferentes dimensões; exercícios com silicone terapêutico e objectos pequenos como grão e feijão,…)
3. para depois treinar com a D. Celeste a realização da Actividade de Vida Diária (AVD) vestir e torná-la, desta forma, INDEPENDENTE (10 pontos no Índice de Barthel).
Obviamente, que este caso é “simples” de avaliar e intervir. Obviamente que, na grande maioria existem outras e mais dificuldades que tornam a pessoa dependente. Obviamente…
No entanto, importa perceber com este exemplo, qual o raciocínio que o TO faz diariamente para estruturar a sua intervenção, neste caso concreto, num lar de idosos.
“Mais do que acrescentar anos à vida, a Terapia Ocupacional acrescenta vida aos anos.”

Referências Bibliográficas:

– Ferreira, O. G. L., Maciel, S. C., Silva, A. O., Santos, W. S. d., & Moreira, M. A. S. P. (2010). Envelhecimento activo sob o olhar de idosos funcionalmente independentes. Esc Enferm USP, 44 (4), 1065-1069.
– Ribeiro, O., C. Paúl (2011). Manual de Envelhecimento Activo. Lisboa, Lidel – edições técnicas, lda.
– Sequeira, C. (2010). Cuidar de idosos com dependência física e mental. Lisboa, Lidel – edições técnicas, lda.

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