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FILOSOFIA, EDUCAÇÃO, ESCOLA

ISABEL ROSETE
Independentemente de aderirmos ou não à questão que indaga sobre a problemática da existência de uma didáctica específica para a disciplina de Filosofia no Ensino Secundário, não concebo esta área de abordagem senão enquanto fundamentada no âmbito da Filosofia da Educação, quer dizer, no espaço de emergência da reflexão de uma concepção de Educação, de Ensino e de Aprendizagem, de Aluno e de Professor, enquadrada no âmbito geral de uma concepção não globalizada de Sociedade e de Humanidade. É preciso criar uma Cultura nova que veja a própria Escola como o seu produto e produtor directo. Só uma interacção deste tipo poderá ser frutífera face às ambições do mundo actual, cujo motor de desenvolvimento se centra, cada vez mais, no tipo e nível de Educação a ministrar aos seus membros. O que se pretende, então? Dar aos espíritos a capacidade de um contínuo desenvolvimento, de molde a aperfeiçoar a Sociedade em que vivemos na sua “Humanitas”. Estes dois objectivos reduzem-se, afinal, à mesma ideia: “porque desenvolver os indivíduos é aperfeiçoar a sociedade, e porque do carácter da sociedade depende, por sua vez, o desenvolvimento dos indivíduos”, como afirma António Sérgio, nos seus «Ensaios I» [1].
A Educação começa na Família, passa pela Escola, embora não termine neste domínio institucional, mas no meio sociocultural em que o aluno se circunscreve, num “continuum” processo de socialização. Faço, por isso, a apologia de uma noção progressiva de Educação, fundada na ideia de uma estreita conformidade entre as capacidades intelectuais do aluno e os ensinamentos ministrados, de modo a evitar o obscurecimento da ordem natural do educando, cuja estrutura intelectual deve ser devida e dignamente respeitada, ao mesmo tempo que salvaguardada em todo o seu processo evolutivo. Esta ideia permite-nos ultrapassar a concepção estática da Educação, em defesa de uma perspectiva educativa que prima pela dinamicidade, pelo persistente porque, antes de mais, o Saber é algo que se vai construindo ou per-fazendo ao longo da existência de cada ser humano, e não uma instância que esteja pautada por uma rigidez absoluta, apriorística e definitivamente elaborada: aprender é inventar ou reconstruir por invenção e, por sua vez, ensinar significa fazer-aprender.
Como sublinha Kant – filósofo que muito prezo no que concerne a assuntos desta natureza – o aluno não deve “aprender pensamentos, mas aprender a pensar; não se deve levá-lo, mas guiá-lo, se se pretende que no futuro seja capaz de caminhar por si mesmo (…). É uma maneira de ensinar deste tipo que exige a natureza peculiar da filosofia. O adolescente que saiu da instrução escolar estava habituado a aprender. Agora, ele pensa que vai aprender Filosofia, o que é, porém, impossível, porque agora ele tem de aprender a filosofar.” [2] Para se aprender Filosofia, considera ainda Kant, era necessário que existisse realmente uma, concebida à maneira de uma disciplina acabada, perante a qual pudéssemos dizer: eis aqui a Filosofia; aqui está a sabedoria e o critério seguro para a sua cabal aprendizagem. Não obstante a legitimidade da polémica questão kantiana – assim compreendida mediante as características da sua época, e obviamente defensável mediante um certo ponto de vista, que não nos cabe agora discutir – afirmo, sem reservas, a possibilidade inegável do ensino da Filosofia, pelo menos enquanto postura existencial perante o Mundo, enquanto uma forma específica de mundivisão.
Cada filósofo estudado, que funciona como base ou de ponto de partida para tal ensinabilidade, embora jamais deva ser considerado como modelo absoluto de um qualquer juízo emerge, no entanto, como uma das grandes oportunidades para cada um – professor e aluno – pronunciar um juízo sobre ele, ou até mesmo contra ele, ao mesmo tempo que proporciona, pelo método de reflectir por si mesmo, o despoletar de um pensar que é capaz de produzir, autonomamente, uma certa interpretação indicadora do caminho a seguir enquanto “ser-lançado” no Mundo. Nesta perspectiva, a Filosofia, enquanto disciplina integradora do curriculum do Ensino Secundário, surge como o domínio essencialmente reflexivo-crítico, como uma espécie de higiene mental – sendo ela a única – que auxilia os alunos a situarem-se no espaço e no tempo que são efectivamente os seus. A Educação filosófica torna-se um processo de auto-construção-guiada, reservando-se para o pedagogo o papel de Orientador, de Formador ou “Modelador” de uma matéria, que não obstante todos os gérmenes potenciais que intrinsecamente a compõem, ainda se encontra de certo modo desenformada.
O professor de Filosofia não pode ser mais o simples conferenciador; não pode jamais contentar-se em debitar soluções previamente resolvidas, devendo situar-se, ao invés, num espaço de abertura e de flexibilidade que o direccionem ao concretamente vivido. Deve mover-se numa esfera que alargue o restrito espaço da sala de aula não só à Comunidade, mas ao Mundo, pois a ampliação das fronteiras da Escola exige uma correspondente dilatação das fronteiras do professor e da sua metodologia de ensino. Esta mudança não é unicamente o resultado calculável do novo conceito de Escola que agora se impõe, aescola-comunidade-educativa, mas o resultado mais imediato das exigências que o actual corpo discente coloca imperativamente a cada instante, jamais de olhos vendados perante o “magistral” e “irrepreensível” Saber do professor. Os alunos de hoje, contrariamente aos alunos de ontem, dispõem, sem qualquer espécie de freios, de meios de informação que lhe oferecem gratuitamente, de um modo fácil e diversificado, o Conhecimento. O aluno de hoje jamais poderá ser encarado como um escravo do mestre, como aquele que se limita a escutar e a repetir as “verdades” proferidas por este. Muito pelo contrário: deverá ser convidado a substituir a postura passiva em que geralmente era colocado pelo “ensino tradicional”, por uma participação activa e criativa, que fará dele um elemento realmente interveniente no processo de ensino-aprendizagem, pelo exercício pleno da sua liberdade e responsabilização correspondente.
A Educação não pressupõe, propriamente falando, a introdução de algo novo, mas o fazer desabrochar do já existente. Esta ideia aproxima-nos, em grande medida, da metodologia socrática – relativamente à qual manifesto também a minha preferência, em virtude da sua pragmaticidade – por oposição aos tradicionais métodos “caquécticos” que introduzem a mecanização nas jovens mentes em formação. Como o que interessa desenvolver no aluno é a razão prática reflexionante, e não a razão meramente especulativa, e como verificamos que cada indivíduo aprende, ou seja, retém mais facilmente e de um modo mais sólido o “manancial teórico” que extrai de si próprio, deveremos proceder socraticamente na educa

ção da Razão. Sócrates – que se auto-denomina “parteiro” dos conhecimentos dos seus interlocutores por ajudar a “dar à luz” os conhecimentos que latentemente se encontram nas suas almas adormecidas, hoje cada vez mais proliferantes – dá-nos vários exemplos do modo como podemos conduzir os alunos a extrair muitas coisas do seu próprio intelecto. Trata-se de um método investigativo, progressivo e não dogmático, naturalmente estimulador da capacidade intelectual dos alunos, da sua actividade e espontaneidade, através do qual são chamados a reinventar a verdade que é necessário assimilar.

Na aula de Filosofia não há modelos a seguir. Há pistas indicadoras que se destinam a promover uma busca contínua, sobre as quais é susceptível exercerem-se juízos pessoais que não obedecem, necessariamente, aos cânones estabelecidos pela exterioridade. O professor de Filosofia deve entender a Educação, de que é um condutor privilegiado, como um processo interior progressivamente realizado mediante as potencialidades que comandam a ordem natural do educando.
A Educação visada pela Filosofia deverá encontrar na Natureza a sua justificação e razão de ser: a Educação consuma aquilo que a Natureza deu ao homem como gérmen e possibilidade; é o cumprimento supremo e aperfeiçoado da Natureza. É precisamente neste sentido que devemos interpretar a tese que afirma “que o homem só se pode tornar homem pela educação”, pois “ele não é senão o que a educação faz por ele” [3]. Urge trabalhar no plano de uma Educação conforme aos princípios humanos, legando à posteridade as instituições fundamentais que permitirão a sua realização plena. Não deveremos encarar esta ideia como quimérica ou simplesmente rejeitá-la por a considerarmos como um belo sonho minado pela utopicidade de um ideal meramente inalcançável, mesmo se encontrarmos obstáculos que se oponham à sua consumação, pois uma ideia não é senão o conceito de uma determinada perfeição que não está ainda concretizada na experiência. A ideia da existência de uma Educação que desenvolva plenamente todas as disposições naturais do Homem é certamente verídica, e a Humanidade, presente e futura, deve canalizar todos os esforços para levar a cabo este brilhante e necessário ideal.
A Educação deve compreender o indivíduo no seio do progresso geral da Humanidade, de modo a fazer dele um homem do futuro, um elemento intrinsecamente pertencente ao conjunto das gerações que ocuparão o palco da História vindoura: é em vista do futuro, em vista do progresso parcial que cada indivíduo pode representar, que devemos educar os nossos alunos. O futuro será sempre, certamente, o critério de todas as nossas aspirações educacionais. A Educação, tal como a Filosofia da História, descobre um outro tempo, uma outra temporalidade. Não é em função do passado que se constrói o presente, mas sim em função do futuro. A Escola dever-se-á fundar sobre a ideia de Humanidade e da sua destinação total, concretizada pela visão de um futuro possível e melhor, pois o tempo da Educação não é o tempo do ser mas o tempo do dever-ser; o seu fundamento originário é a fé no futuro, como princípio e norma orientadora do presente.
Caberá à Educação do presente/futuro concretizar o ideal da Aufklärung (Iluminismo), para o qual nos devemos direccionar desde já, o qual consiste em extirpar o Homem da menoridade de que é culpado, quer dizer, da “incapacidade de se servir do (seu) entendimento sem a orientação de outrem”, e despertá-lo para a maioridade, ou seja, para a conquista da sua própria autonomia e liberdade, para a libertação da Razão, que se pretende que seja devidamente esclarecida [4]. Eis os grandes objectivos a concretizar na aula de Filosofia.
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[1] António Sérgio, Ensaios, Tomo VII, p. 225.

[2] Kant, Informação Acerca da Orientação dos seus Cursos no Semestre do Inverno de 1765 – 1766, in Filosofia, Publicação Periódica da Sociedade Portuguesa de Filosofia, Vol. 11 – N° 1/2 – Primavera/88.

[3] Kant, Reflexões sobre a Educação, p. 73.

[4] Kant, Resposta à Pergunta: O que é o Iluminismo?, in A Paz Perpétua e Outros Opúsculos, pp. 11-19.

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