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O TEATRO ABSURDO DO SISTEMA DE ENSINO PORTUGUÊS

“Na Escola da Ponte não há turmas, nem testes

A Escola Básica da Ponte, no concelho de Santo Tirso, marca a diferença no ensino público português há 40 anos. Nesta escola não há ciclos, nem turmas, nem testes. A escola organiza-se em núcleos de projeto e são os alunos, em conjunto com os “tutores”, que definem, quinzenalmente, os objetivos de aprendizagem e vão sendo avaliados à medida que vão dizendo que “já sabem” aquilo a que se propuseram. Na última avaliação externa, levada a cabo pela Inspeção-Geral da Educação, a escola foi avaliada com Muito Bom em todos os parâmetros.”*

REGINA SARDOEIRA
Há alguns anos atrás soube da existência desta escola e fiz uma pesquisa detalhada do seu funcionamento. 
Percebi que o meu estilo de professora e o modo como dava as aulas e me aproximava dos alunos, se não era 100% coincidente com este projecto, aproximava -se muito dele. Não era coincidente, nem poderia sê-lo, uma vez que sempre leccionei em escolas de currículos estereotipados, tendo que seguir um guião pré – estabelecido. Mas fugia-lhe. E ao fugir-lhe, na exacta medida da fuga, fui somando sucessos – eu e os alunos. 
Arrumei sempre o manual. Eu (e os alunos) íamo-lo fazendo, aula a aula, de modo a ficar pronto no fim do ano. Ainda conservo vários cadernos com o registo diário de cada aula, que era escrito por cada um dos alunos da turma e lido no início da aula seguinte. 
Ia leccionando de acordo com objectivos e não com conteúdos ou metas. Importava-me que os alunos aprendessem por si mesmos e aplicassem o que aprendiam. Saltava conteúdos curriculares, de acordo com a especificidade das turmas, alterava-lhes a sequência, criava modelos de aprendizagem, em função dos interesses, das dificuldades ou das potencialidades dos alunos, tentava chegar a todos e cada um, fazendo com que uns estabelecessem a ponte com os outros em função das respectivas potencialidades e/ou interesses. 
Resultava? Sim, resultava, mesmo dentro do programa estabelecido, com provas globais e exames nacionais. Como lhes dava a oportunidade de aprenderem a tocar os diversos instrumentos necessários , apresentando-lhes os mestres, como referências e guias, eles tornavam-se capazes de estabelecer conexões e aplicar o que sabiam a novas situações. 
Consegui manter este modo de ensinar até ao ano lectivo de 2011-2012. Consegui ignorar manuais e planificações, modelos de testes estereotipados, etc., até ao dia em que fui confrontada com um modelo de exame nacional rígido para o qual era necessário preparar rigidamente os alunos de acordo com temas obrigatórios para todos. Era necessário dizer aos alunos para decorarem isto e isto e mais aquilo, a seguir verificar esse trabalho nos testes de avaliação e depois torná -los aptos para realizarem o exame. 
Certamente ninguém estranhará que o ensino seja realizado como acabo de descrever. Nem professores, nem alunos, nem pais, nem o país considerarão errado dar aulas de modo a que os alunos decorem a lição, que a debitem nos testes e nos exames a fim de obterem uma certa e determinada classificação. A classificação possibilitará o acesso a estudos superiores onde se irá perpetuar o sistema de decorar e debitar, de modo a obter um diploma. 
É assim que acontece, e, ao que tudo indica, continuará a acontecer por tempo indeterminado. 
No fim, os jovens saem das universidades para a vida e não sabem nada de nada – principalmente do que constituiu o tema essencial de estudo durante 4, 5 ou 6 anos. O médico nada sabe da prática médica ou o engenheiro de engenharia ou o licenciado em direito, de advocacia. O professor nada percebe de ensino, o enfermeiro de enfermagem…e por ai adiante, até ao fim. 
Para que serviu estudarem durante toda uma parte considerável da vida – já que começam aos cinco ou seis anos e terminam aos vinte e dois/vinte e três – quando, atirados para o mundo do trabalho (se conseguirem aí chegar) de nada lhes serve o que passaram anos a memorizar e a debitar, se têm que aprender tudo desde o início com aqueles que já adquiriram, na prática, as competências? 
“As escolas têm excelentes professores, mas a trabalhar do modo errado. Não faz sentido alunos do século XXI terem professores do século XX, com propostas teóricas do século XIX, da Revolução Industrial. A grande questão é que as escolas têm sido geridas por burocratas e não por pedagogos e as políticas públicas têm sido desastrosas: mais exames, mais alunos por turma.”*
Cito aqui José Pacheco, o líder do projecto “Fazer a Ponte” que deu origem à já referida escola da Ponte e a outros projectos nacionais e internacionais. E nem vale a pena comentar o excerto pois, quem quiser pode muito bem compreender o sentido destas palavras. E é exactamente por causa disto que os professores estão desmotivados e começam o ano sem entusiasmo e os alunos pensam nas aulas como uma “seca”. E só se aguentam todos porque os primeiros precisam de trabalhar, por causa da sobrevivência e os segundos precisam de médias para terem um diploma que lhes possibilite, mais tarde, a sobrevivência. 
“Mais exames não vão melhorar o sistema porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. Mais exames para quê? Os exames não avaliam nada. O teste é o instrumento de avaliação mais falível que existe. Conceber itens de teste, garantir fidelidade e tudo mais é um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições são as mesmas para todos quando se aplica o teste. E corrigir o teste também introduz uma subjetividade enorme. Além disso, esses instrumentos de avaliação apenas “provam” a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar no exame e esquecer.”*
Exames, testes, provas, nada disso garante o que quer que seja de válido, trata -se meramente de uma absurda perda de tempo e de dispêndio de energia com os quais professores e alunos se vão iludindo, crentes de que os 18s e 1

9s que ajudam a conseguir ou que conseguem significam sucesso! Qual sucesso? 

“Então como se deve avaliar as aprendizagens dos alunos?
Através de uma avaliação formativa contínua e sistemática, que é o que não se faz nas escolas. Nas escolas aplica-se teste e dá-se uma nota sem saber o que se faz. Há quem confunda avaliação com classificação e dê a nota a partir dos resultados dos testes. Eu sei que se alega considerar uma percentagem da nota dada a partir da avaliação de atitudes. Porém, não se apresenta os instrumentos de avaliação, que permitam medir atitudes como a autonomia, a criatividade. Diria que essa avaliação é feita a ‘olhómetro’.”*
Está, parece-me, tudo dito. O sistema está errado, há inúmeras provas de que está errado, cada vez vai estar mais errado. Mas, ao que parece, interessa aos burocratas, a empresas de produção de materiais e de serviços, a certas linhas políticas que, de um modo ou de outro conduzem o mundo, que a cegueira, a ignorância e a incompetência se vão perpetuando. 
Poderia ter tomado outros temas como mote da crónica de hoje. Mas, como estamos no início de mais um ano lectivo, achei que devia partilhar com quem me lê este conjunto de reflexões e também a entrevista inteira a José Pacheco – um professor lúcido num universo demente.

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