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A FALÁCIA DA SINCERIDADE

DIOGO VASCONCELOS
A sinceridade é tudo. Sincera e vazia, totalmente vazia. A sinceridade que dispara em todas as direções sob a forma de puritanismo. Ser sincero é a defesa para a falta de educação, serve para tudo. Basta dizer: “Ao menos fui sincero!”. Até o mais pérfido quando diz algo que não devia tem sempre a desculpa da sinceridade quando a invoca. Todavia esta virtude é, nada mais, nada menos que uma espúria, uma forma de fugir ao confronto, uma forma de ficar em paz consigo próprio sem necessitar de exercitar a mente.
Se todos fossemos sinceros ao mesmo tempo seria impossível a espécie humana coabitar, viveríamos num mundo de ódios e sentimentos de repúdio, numa misantropia. De facto era uma sociedade transparente, isso ninguém pode apontar. Mas até que ponto é que o loroteiro é o mau da fita? Saber estar implica, por vezes, um discurso cincunlóquio, pouco direto. Quantas vezes já não me apeteceu ser sinceros com o meu melhor amigo? Os meus pais? Os meus avós? Com o homem do café? Mas não fui não porque seja falso, mas porque tenho a noção da Realidade, se todos falássemos antes de pensar, viveríamos num local inóspita. É a capacidade de discernir que torna uma criança num adulto, saber o que é possível ou não dizer.
Para mim a pessoa mais irritante do mundo é aquele que é estupidamente sincera, ao ponto de dizer coisas risíveis sob a batuta da “sinceridade”. Não falo daqueles que dizem truísmos, algo que é evidente e salta à vista de todos, antes aqueles que analisam cada pormenor com malícia, uma oportunidade para atacar o outro recorrendo sempre à “sinceridade”. Eu posso ser loquaz e ao mesmo tempo cuidadoso na abordagem que faço. Às vezes parece que as pessoas com o seu baixíssimo nível elementar de pensamento imaginativo são absorvidas pelo inconsciente para causar a mais ínfima das perturbações.
Já todos ouvimos falar da tirania da “decência”, tudo o que foge à regra está mal, tudo o que é contrário às visões com palas de cavalos é um aviltamento, uma mera forma para chamar a atenção. É por isso que existe uma grande clivagem entre as gerações, somos sinceros para fugir ao pensamento, ao porquê de aquela pessoa se comportar daquela forma. Depois criticamos e criticamos antes de fazermos uma autoinspeção, antes mesmo de ver o Mundo à nossa volta. Como ele mudou. Ao menos fomos sinceros!

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