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O RIO DA MINHA ALDEIA

DANIELA FONSECA
Podia falar de Pessoa para justificar este título, como se alguém o tivesse pedido, mas, à parte esta minha bela insegurança para falar do poeta, tinha de o conhecer e estou em crer que não é esse o caso. Pelo contrário, sou de Camões, sempre fui, e isso fez com que enviasse Pessoa para um segundo plano, apesar de conhecer alguma da sua obra. Se calhar a riqueza do seu universo está precisamente aí: aí, onde ninguém o conhece. A questão é que, por mais que busque a Poesia, à chegada, há lá sempre Pessoa: pela beleza do pormenor e pela grandeza das coisas simples. Exemplo disso é o excerto que está na base deste texto: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia” (Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos).
E não é o Tejo o rio da minha aldeia. O máximo que lhe podia ter acontecido, à minha aldeia, era ter o Douro no rio. E tem-no na verdade, ainda que por caminhos enviesados. Faltou-lhe um bocadinho assim para lhe beijar o chão: mas não tem mal, porque o Douro não só não é o Tejo como também não é o rio de águas transparentes e doces, onde coloco, sempre que posso e não posso, os meus pés travessos e sós. Não, este rio onde passeio é o rio da minha aldeia. Tem um nome e uma vida que prefiro ocultar. É anónimo, como sempre quis que ele fosse e como o quis Pessoa para o rio dele.
Largo o Tejo, deixo o Douro, e abandono Pessoa, para me dedicar a esse rio de pedras verdes, com lodo escorregadio e solto, de peixes estranhamente pequenos, e de uma água límpida e suave ao tacto. Falo talvez desse rio que vi, ora domesticado pelas altas temperaturas de Verão, ora indomável pelas ravinas incertas e friezas de Inverno. 
As pedras e pedrinhas, que compõem o fundo desse meu rio, reflectem as cores de um vasto oceano do passado e acabam por me fazer cair outra vez na memória, sobretudo, quando salpico, ansiosa, a imagem ingénua dos companheiros de viagem. Na fuga, larga alguém um grito de medo a apontar para uma cobra ribeirinha. “Ai, ai”, deixamos a água num speed tremendo a estremecer de emoção. Era tão-só uma minhoca mais compridita, ao que parece. Agora já nem se diz emoção; chama-se adrenalina. Dantes era emoção. “Ai ai,” gritámos nós outra vez, ao rever a teimosa ondulação das ervas verdes de formato de cobra rebelde e altamente letal. Excitadinhos, tentamos alcançar, de um só salto, a margem distante do rio, agora pela força do tempo. Fomos brincar.
Enquanto isso, as mulheres iam trazendo bacias de roupa branca para pôr a corar na relva fresca e ordenada, quase emanada com o rio. Corámos também; eram infinitas as asneiras somadas e infantil a atitude de nos deitarmos de barriga para cima à espera que o céu nos viesse embalar. Nenhum de nós tinha a lata de pôr protector solar ou de, sequer, abrigar a cabeça do sol. Não; isso era coisa de ‘copos de leite’. E alguns de nós eram ‘copos de leite’, mas ‘da secreta’. ‘Copos de leite magro’, poder-se-ia dizer. 
Uma das coisas mais engraçadas dessa existência de gang é que não tínhamos medo das cobras terrestres. Só receávamos as do rio, porque, além de imperceptíveis pela luz da água, faziam escorregar os pés descalços de miúdos de 7 anos de idade. Éramos crentes; e o rio era nosso: pensávamos o que queríamos. Brincávamos até cair, e, se estafados, voltávamos à erva humedecida pela roupa ‘já não a corar’ de há bocado. 
Partíamos, enfim, para o lanche. Como de costume, ficara alguma coisa para trás: a sobremesa. Pas du problème: havia por ali uma velha macieira da vizinhança que saciaria os nossos desígnios. Não os meus. Nunca fui capaz de roubar uma maçã. Além disso, passava muito bem sem o sabor de ‘pêros verdes’. Já tinha descoberto esse terrível mistério, tão proibido lá em casa, que era a virginal acidez de uma maçã em esverdeada formação. É que o meu pai tinha um pequeno pomar de macieiras. Tinha, já não tem. Mas não vem ao caso esta história. O que eu queria era falar desse meu primeiro delito, nesse saudoso pomar, onde decidi colher uma verdusca maçã, para saber do sabor de um ‘pêro verde’; voilà. E era um sabor novo, de facto, algo diferente, algo ácido e ao mesmo tempo desafiador. A barriga nunca lhe ficara indiferente; e, não obstante, havia naquele pequeno pêro toda a ciência da provocação. Por isso é que o gang vibrava aos berros com a triunfante chegada, de pau em riste, do dono da macieira; percebo-o bem. Os afoitos fugiam, vitoriosos; os covardes ficavam, entristecidos. Era o meu caso. Eu tirava as maçãs lá de casa, quando muito. 
Com a fuga, não havia acusação, nem pena, a não ser a de ver, moribundos, os pequenos pêros na relva, ou a flutuar, preguiçosos, no rio, que os transportava de novo para outras paragens. Tudo acabava por fim: uma cambada de putos descalços, corados, com dores de barriga, de chinelos na mão, a caminho de casa pela estrada que fervia e que, felizmente, não tinha alcatrão. Ao menos isso.
O rio ficava por lá, sossegadinho, à espera do dia seguinte.

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