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ENTENDER O PROCESSO DE LUTO

CARLA SOUSA
“Ao meu querido avô 
O meu querido avô deixou-me aos 10 anos, mas ficou comigo sempre. 
Acredito que as pessoas quando partem podem permanecer vivas dentro de nós! Sim, acredito! Acredito porque sinto. Sinto todos os dias, umas vezes mais, outras menos, mas não é isso que sentimos até pelas pessoas que estão vivas fisicamente e bem ao nosso lado?! 
Quis o destino, Deus, ou sabe-se lá quem… Que este senhor, ruivo, engraçado e com cheiro a campo me deixasse. Demorei muito tempo a deixar de ficar zangada com o destino, com Deus e até com o fulano da esquina… 
O meu querido avô tinha a cara com sardas e era ruivo. Todos os dias, quando chegava do campo, a minha avó cozinhava para ele, e eu sentava-me ao seu lado esquerdo a fazer-lhe companhia. 
Quando ia para casa aos fins-de-semana, recebia uma nota ou então um copinho “sempre em pé”. (E como eu adorava aqueles copinhos verdes…). Voltava no domingo com os meus pais, vestida com “a roupa de domingo”, com a pulseira e volta de ouro e dava-lhe um beijo na cara porque ele estava a dormir no quarto. Eu não ficava chateada por ele não estar acordado, pois sabia que iria ficar a dormir lá em casa. 
Todos os dias de manhã eu bebia leite da vaca com pão e açúcar, brincava na terra, com as joaninhas e andava de carrinho de rolamentos. Ia à escola e outras vezes acompanhava a minha avó a levar-lhe a merenda. O meu avô era sapateiro e eu gostava de o ver a fazer o seu trabalho.
Todos os dias esperava que ele chegasse do campo. Houve um dia que ele não chegou… 
Deixei de ter notinhas, copinhos, comidas partilhadas com ele. Deixei de beber leite de vaca e acho que passei a brincar em casa. Deixei de ter o meu avô… 
É engraçado como a vida pode perder a graça num instante… E sem fazermos nada por isso. Eu tinha 10 anos. 
Antes de sentir que a graça tinha ido embora, senti medo. Antes só havia medo de bichos papões debaixo da cama ou do escuro. Não sabia o que era o medo de perder alguém, o medo de me sentir sozinha… Este medo paralisou-me. Nunca tinha perdido ninguém. 
Quando percebi que ele tinha ido embora e não voltava, quando beijei aquele corpo frio no dia do funeral, achei que não teria mais avô. Fiquei amuada em silêncio. Conheci a tristeza, a solidão e o desespero. E nesse dia percebi que se sente desespero quando realmente não há mais nada a fazer.
Até então, na catequese, diziam que era bom ter fé, ter esperança… E naquele dia… Deixei de ter fé, esperança, e o meu querido avô. 
Tive medo de o esquecer… Mas mais medo tive que ele me pudesse esquecer… Falava com ele todos os dias. E senti saudade… Saudade daquelas fortes que batem, batem fundo e dão vontade de abraçar forte. Mas não dava… Não queria que a morte existisse, revoltei-me com Deus e com o meu avô… 
Zanguei-me! Mas uma coisa percebi, o amor não ia embora… A saudade estava dentro de mim, porque o amor também estava. Percebi que o amor que tinha por ele era tão grande quanto o que ele tinha por mim. E não precisei de perguntar-lhe, pois eu sabia a resposta. 
O meu avô continuava vivo dentro de mim. A saudade e o amor podem ser uma coisa boa… Faz-me sentir que não estou sozinha e posso ter pessoas vivas dentro de mim, como o meu querido avô, que permaneceu e permanece em mim. E foi aí que eu percebi o que era o amor…. E que quando estivesse triste, ou só, bastava olhar para dentro de mim e perceber que o meu coração está cheio. Cheio de amor.
Sinto-me uma felizarda. “
A morte é a única certeza das nossas vidas, certeza esta que nos coloca a vida como algo finito. A ideia de morte pode muitas vezes ser acompanhada de pensamentos e sentimentos de medo, angústia, tristeza… O que nos leva por vezes a ter dificuldade de encarar a morte como algo natural da condição humana.
Para Freud o luto “é a reação à perda de um ente querido, à perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como os pais, a liberdade, o ideal de alguém e por assim diante”. É neste sentido que o luto caracteriza-se como um processo natural e um modo de recuperação emocional face à perda. 
Aqui debruço-me sobre a importância da perda de um ente querido. Dando como exemplo a perda de um avô. 
O luto é sempre um processo que se inicia com a perda propriamente dita da pessoa querida e que pode trazer alterações temporárias emocionais e no estilo de vida da pessoa que está “em luto”, no entanto não tem que ser patológico. Cada um reage de uma forma diferente pois cada ser humano acaba por ter uma estrutura emocional, vivências e capacidades diferentes.
Este processo deve ser vivido e não reprimido. O tempo varia de pessoa para pessoa e é normal que se sinta com raiva, sem vida, lentificado, sem forças para trabalhar, com dificuldade em se concentrar, irritado, sem paciência, com culpa e algum remorso por coisas que não disse ou não fez, ou até “desmembrado”. Estes sentimentos acabam por servir de “absorventes do choque psicológico” até que a pessoa enlutada esteja preparada para tolerar de forma adequada a perda da pessoa amada. É importante que a pessoa enlutada consiga guardar uma imagem saudável da pessoa perdida.
Existem diferentes fases num processo de luto e estas variam consoante o tipo de perda. A duração de cada uma destas fases é variável. No entanto, se sentir que possa estar “parado” ou sentir-se “

preso” numa delas deve sempre procurar ajuda psicológica.

Segundo Kübler-Ross (1969), o luto compreende cinco fases. 
Na primeira fase, “a negação”, a pessoa enlutada não acredita no que está a acontecer, sente-se em choque, atordoado e desamparada, apresentando-se como um mecanismo de defesa perante esta situação tão dolorosa. 
Surge depois a segunda fase, “a raiva”, onde aparecem pensamentos de “porque a mim”, sentimentos de inveja e raiva. Nesta fase, qualquer palavra de conforto, parece-nos falsa. Muitas vezes a pessoa enlutada vira-se contra amigos, médicos, familiares, Deus… E quando há um sentimento de culpa em relação a si mesmo acaba por afastar-se de amigos e perder o prazer e interesse no mundo externo. 
Numa terceira fase, a “negociação”, o indivíduo começa a por a hipótese da perda. Tenta negociar e na maioria das vezes negoceia com Deus, para que esta não seja verdade. Normalmente sempre sob forma de promessas ou sacrifícios. 
Na quarta fase, denominada “a depressão”, a pessoa em processo de luto, normalmente toma consciência de que a perda é inevitável, incontornável e que não há como escapar à perda. Sente-se o “espaço” vazio da pessoa que perdeu. Toma também consciência que nunca mais irá ver aquela pessoa e que a mesma desapareceu fisicamente.
A última fase, centra-se na “aceitação”. A pessoa aceita a perda com paz e serenidade, sem desespero nem negação, “Vai tudo ficar bem”. Nesta fase o espaço vazio deixado pela perda é preenchido. Esta fase depende muito da capacidade da pessoa mudar a perspetiva e preencher o vazio.
As fases do luto, não possuem um tempo predefinido para acontecerem. Depende da perda e da pessoa. Porém sabe-se que o que leva mais tempo é da fase da depressão para a fase de aceitação.
Podem sempre haver recaídas, principalmente em datas que possam lembrar a pessoa perdida (nascimentos, aniversários ou mortes). É importante a pessoa sentir-se confortada e compreendida. 
Devemos sempre valorizar o que temos, enquanto o temos. Pois não sabemos quando o vamos deixar de ter.

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