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AS REGIONAIS ESPANHOLAS E O PSOE

RUI SANTOS
A Galiza e o País Basco escolheram no passado domingo os respectivos parlamentos regionais. Estas eleições podem ser vistas como a resposta dos eleitores não só à forma como as suas regiões estão a ser governadas, como também ao actual impasse político do Estado espanhol. Os socialistas foram os grandes derrotados das regionais galegas e bascas. Foi sem margem para dúvidas o partido que mais votos perdeu relativamente às eleições anteriores realizadas em 2012.
Na Galiza, tal como as sondagens previam, o Partido Popular (PP) venceu com maioria absoluta ao eleger 41 deputados (em 75), mais 3 que o necessário para governar em maioria. Alberto Núñez Feijóo, o líder reconduzido nos destinos da Galiza, foi o grande vencedor das eleições. No cargo desde 2009, Núñez Feijóo já anunciou que este será o seu último mandato e já se fala que poderá suceder a Mariano Rajoy, um outro galego, à frente do PP espanhol. Não terá sido por acaso que Núñez Feijóo se distanciou de Rajoy durante toda a campanha, não querendo aparecer ao lado do líder do governo espanhol. Com certeza que esta atitude não foi tomada levianamente. A coligação En Marea (Podemos, Esquerda Unida, Anova e vários movimentos de cidadãos) elegeu 14 deputados, os mesmos que o Partido Socialista da Galiza (PSdG), o braço galego do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), mas este obteve menos 17 mil votos que a En Marea. O Bloco Nacionalista Galego concorreu coligado com a Federación Obreira Galega e o Partido Comunista do Pobo Galego, sob a sigla BNG-NÒS, e elegeu 6 deputados.
Relativamente às eleições regionais de 2012, o PP manteve o mesmo número de deputados, a votação da En Marea manteve os eleitores da força política que a antecedeu – AGE – e foi buscar votos ao PSOE e ao BNG.
As sondagens atribuíam a vitória no País Basco aos conservadores nacionalistas moderados do Partido Nacionalista Basco (PNV) e o mesmo veio a acontecer. O PNV elegeu 29 deputados (em 75), mais 2 do que em 2012. Em segundo lugar ficou a coligação EH Bildu (composta por vários partidos de esquerda e independentistas) com 17 deputados, menos 4 que os conquistados em 2012. Depois de ter vencido no País Basco as eleições legislativas de 26 de Junho, o Podemos surgiu coligado sob a designação Elkarrekin Podemos (Podemos, Ezker Anitza e Equo) e obteve 11 deputados. Como não existe histórico de participação anterior em eleições regionais, a comparação face às últimas eleições tem de ser feita recorrendo às legislativas de Junho. Sendo assim, o Podemos perdeu 177 mil votos no País Basco. Enquanto isso, o PSE-EE (socialistas bascos; designação pela qual concorre o PSOE nas eleições no País Basco) elegeu 9 deputados quando em 2012 tinha eleito 16 deputados. Foi a força política mais penalizada pelos eleitores bascos. O PP ficou-se pela quinta posição também com 9 deputados – perdeu 1 relativamente às eleições de 2012 – e menos 17 mil votos que o PSOE. A abstenção foi de 37.74%. em 2012 foi de 34.17%
A vitória de Núñez Feijóo consagra-o como politicamente e dá ânimo a Mariano Rajoy que luta para reabilitar a sua imagem junto do eleitorado espanhol, capitalizando para si a vitória do PP galego. Resta saber se os processos judiciais em curso contra dirigentes do PP, alegadamente envolvidos em casos de corrupção, irão estragar o plano de Rajoy para ampliar o seu eleitorado.
A situação dos socialistas na Galiza é terrível para o PSOE espanhol. Sem militância activa por parte dos seus membros e ultrapassado em número de votos pela coligação En Marea. No País Basco a situação não é muito diferente. Desde 2009 que o PSOE tem visto grande parte do seu eleitorado fugir para o EH Bildu.
Todos estes factos mostram a crise que o PSOE atravessa. Pode-se falar numa «pasokização» do PSOE? Este é um desafio que Pedro Sánchez tem pela frente: estancar a perda de eleitorado para partidos à sua esquerda. E se o PSOE perde eleitores para partidos à sua esquerda, não consegue atrair eleitores vindos do centro.
Por sua vez, a situação do Podemos é diferente. Pablo Iglesias, o seu líder, elogiou a ascensão do partido na Galiza e no País Basco. Utilizando o Twitter, afirmou que a coligação galega En Marea se tinha transformado na «primeira força da oposição» naquela região espanhola, ao passo que no País Basco o Podemos é «a primeira força de âmbito estatal», atrás do PNV e do EH Bildu, mas à frente dos socialistas e dos populares. Pode-se dizer que muita da comunicação realizada pelo Podemos gira em torno do fim do bipartidarismo espanhol e tem cativado eleitores descontentes com os partidos mais «tradicionais».
Espanha já teve duas eleições gerais e vai a caminho de uma terceira no espaço de 1 ano. Se a situação não for debloqueada até 31 de outubro próximo, o rei Felipe VI terá de dissolver o parlamento nacional e convocar novas eleições.
Perante os resultados na Galiza e no País Basco, o PSOE vê a sua posição enfraquecida junto do eleitorado e dos dirigentes de outros partidos, incluindo aqueles com quem, hipoteticamente, poderia coligar-se. Agora, Pedro Sánchez, pede ao partido umas eleições primárias para obter um voto de confiança junto dos seus militantes e apoiantes. Tal acto eleitoral deverá ocorrer dia 23 de Outubro mas antes terá que ser aprovada pela direcção socialista numa reunião a ter lugar no próximo sábado.
Sánchez esta muito desgastado junto dos líderes regionais que veriam com bons olhos uma mudança na direcção do PSOE. Pela primeira vez, assume que a sua liderança é questionada no seio do partido e que existem diferenças entre os militantes sobre qual o projecto político que deve ser apresentado pelo PSOE. Contudo, o tempo que vai de 23 a 31 de Outubro é curto para que Sánchez consiga encontrar parceiros para oferecer uma alternativa de governo a Espanha.
Os espanhóis anseiam por um governo e o PSOE, caso persista na sua posição, poderá pagar caro a sua teimosia ao opor-se a um governo do PP, ou liderado pelos populares. Após as eleições de Dezembro de 2015 era natural que o PSOE procurasse uma solução «à portuguesa», isto é, mesmo perdendo as eleições poderia encontrar parceiros políticos que viabilizassem o seu governo. Contudo isso não se verificou. A mesma situação foi criada no escrutínio de Junho deste ano. O PSOE não vence as eleições nem co

nsegue arranjar apoio parlamentar junto de outras forças partidárias. Sánchez faz lembrar um menino mimado que só brinca com os outros se puder escolher o brinquedo que quiser. Parece-me difícil, para não dizer impossível que Sánchez consiga uma solução até 31 de Outubro e só lhe restará abster-se quando um governo liderado pelo PP, mais que provável vencedor de umas novas eleições, for sujeito a aprovação no parlamento espanhol. Caso contrário, poderá ser o fim da sua liderança. O PSOE não ganha as eleições, não forma governo com o PP e não consegue coligar-se com outros partidos políticos para viabilizarem um governo socialista. Sánchez ainda não percebeu que a sua teimosia fará com que cada vez mais socialistas espanhóis passem a votar Podemos, entrando o PSOE num caminho idêntico ao do grego PASOK que foi «devorado» pelo Syriza. É preciso saber perder e por os interesses do país à frente dos interesses partidários e Pedro Sánchez, com toda a sua arrogância e vaidade, não o sabe fazer.

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