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A ESCOLA FECHOU

CRÓNICA DE MÓNICA AUGUSTO
Há dez anos a escola da aldeia fechou…
À semelhança de muitas outras espalhadas pelo país, a escola fechou e com elas ficaram também fechadas as memórias de tantas gerações. Foi, e continua a ser, no imaginário de todos, um local mágico, de saberes, de construção, de convívio, onde todos os naturais da terra começaram a desenhar os seus percursos, as suas personalidades. Não há quem não tenha uma história para contar, um episódio para recordar.
Antes, muito antes do encerramento em massa das escolas “primárias”, por cá, devido a acentuada quebra demográfica, já se falava da possibilidade de fechar a escola. Sempre que o assunto surgia a população insurgia-se. Em tempos idos organizavam-se manifestações na tentativa de travar o processo que acabou por se concretizar. Aconteceu há dez anos e, então, a população resignou-se, afinal, nos últimos anos restavam apenas duas alunas… de facto não poderia ter sido de outra forma…
Em tempos idos a escola teve tantos alunos que eram suficientes para “formar duas equipas de futebol” (sem contar com as meninas), ultimamente não era assim! A população que tanto se indignava, em tempos idos, com a mera possibilidade de encerramento, resignou-se face às evidências.
Em tempos idos a escola era muito mais do que um estabelecimento de ensino, do que um edifício, era o símbolo cultural, o símbolo da autonomia, o orgulho da população. Ficar sem a escola significava a perda de identidade e, de alguma forma um tanto inexplicável, a submissão à povoação para onde o ensino seria deslocalizado. Os detentores do saber eram os detentores do poder!
Tudo mudou, as crianças de todas as aldeias convergem para o grande Centro Escolar da sede do concelho onde contam com melhores condições, infraestruturas, possibilidade de convívio, de troca de ideias. Mas tal como a escola, também a aldeia ficou vazia…
Para as gerações anteriores a escola mantém o seu simbolismo, muito mais do que um edifício, é o local onde se depositam as melhores recordações, dos melhores anos, do início das nossas vidas, dos nossos percursos que ali começaram a ser traçados.
Muitas destas construções, tão semelhantes entre si, fruto de uma época, estão vetados ao abandono. Outros, fruto de iniciativas públicas ou privadas, foram conhecendo uma nova vida, foram reabilitadas e adquiriram novas funções. É sempre com tristeza que olhamos aquelas que ficaram abandonadas e que de dia para dia se vão deteriorando. Não é fácil encontrar uma nova vida para estes edifícios outrora fervilhantes. Contudo, se olharmos à volta podemos encontrar soluções que minimizem a degradação e possibilitem a conservação da memória coletiva. Por vezes soluções simples que não obrigam a grandes esforços ou investimentos: em todas as aldeias encontramos associações, grupos de jovens, comissões de festas, etc, interessados em zelar pelo espaço em troca da obtenção de um local para as suas reuniões e eventos. 
Foi assim que, passados dez anos voltamos à escola! Reabrimos os portões, passamos pelo pátio e entramos na sala de aula agora vazia, mas “com o mesmo cheiro”. Voltamos a sentir-nos crianças, as memórias em catadupa, recordamos tantas aventuras, conseguimos visualizar a disposição dos objetos agora ausentes. Em grupo inicia-se a limpeza e o espaço retorna à vida. As janelas abertas, por si só, chamam a atenção de quem passa, entra e se comove! Várias gerações voltaram à escola, sinais dos tempos: usam-se os telemóveis para registar o momento do regresso, ocupando os mesmos lugares de há tantos e tantos anos atrás, escreve-se no quadro: o local, a data, do outro lado o alfabeto, tudo parece igual! Alguns destes intervenientes não viam o interior da sua escola há mais de 30 anos, mas as suas memórias continuavam frescas, outros dos presentes foram “apenas” as últimas alunas daquela escola… O encontro de gerações volta a fazer-se naquele local e assim vai continuar. O espaço fica ao serviço dos jovens e dos menos jovens que dele queiram usufruir, muitos planos estão já no horizonte, muitas ideias, muitos eventos ali vão ter lugar. Dez anos depois do encerramento, sem grande logística ou investimento, a escola reabre e revive, basta o esforço e empenho de uma comunidade. Independentemente da posse efetiva, e escola retorna ao seu proprietário afetivo: “o povo”, zeloso e dinâmico, não deixará que a nossa escola feche novamente.

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