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AS DELÍCIAS DA MATERNIDADE

LUÍS ARAÚJO
A maternidade é um acontecimento único que encerra momentos únicos de beleza e que, apesar de praticada já há alguns anos permanece como algo de nebuloso para a totalidade dos homens.
Se algum homem algum dia disser, ainda que remotamente, que compreende tal fenómeno está claramente a mentir e devia ser violentamente flagelado na praça pública pelo menos até o Sporting voltar a ser campeão.
Ora, sendo eu homem, escapam-me por completo e absoluto todas e quaisquer nuances relacionadas com algo tão puro e bonito, fruto do amor incondicional entre duas pessoas (ou de àquela hora não se ter encontrado nenhuma farmácia aberta) por isso não compreendo a necessidade de partilha com o resto da humanidade, que inexoravelmente afecta todos os recém papás e mamas, especialmente por essa partilha ser maioritariamente feita através do berreiro ininterrupto do rebento em restaurantes, hotéis, aviões e em todo e qualquer sitio para o qual não se devia levar uma criança de tenra idade.
Choca a minha alta sensibilidade que se ande para ai a exibir as crianças com o mesmo afã e entusiasmo com que se mostra o carro novo, o último modelo da apple, ou a novel amante que se mandou vir directamente do Nordeste brasileiro.
Não me interpretem mal, eu adoro crianças, mas de preferência já com 18 anos feitos e o liceu completo.
Há uns anos atrás um amigo meu, fumador compulsivo, nicotinodependente em ultimo grau e um caso de estudo para a ciência por ter nos pulmões alcatrão suficiente para se colocarem pelo menos 5 kms de tapete novo na autoestrada e ainda assim ter conseguido chegar aos 30 anos sem nenhum cancro, dizia, a propósito da proibição de fumar nos restaurantes, “eu, com o cigarro, incomodo a mesa que esta ao meu lado, uma criança a chorar incomoda o restaurante inteiro”.
De facto, com a maternidade deveria existir uma consciencialização para os babados progenitores, de que as escolhas de restauração se devem restringir àquela cadeia que tem um enorme M amarelo à porta, o único transporte público aceitável é o monovolume (invariavelmente Renault ou Citroen) e a hotelaria que deviam ser autorizados a frequentar é a casa do Sr. António que alugaram no Algarve e que fica na 16a linha do mar.
A própria expressão “babados progenitores” deveria dar uma dica a estas pessoas, pois, apesar de se fantasiar que o “babados” diz respeito ao orgulho de serem pais, na realidade é uma descrição factual ao modo como se apresentam em público, com a roupa cheia de baba e algum ranho do estafermo do crianço.
Por razões que me escapam completamente, é raro o pai (ou mae) que tem consciência de que o dia em que entrou na maternidade é o último dia da sua vida, e assim, continuam alegremente, lutando contra todas as evidências, a tentarem viver como se fossem pessoas normais.
Ora, eu bem tento evitar o contacto com este tipo de pessoas, janto em restaurantes caros e de comidas exóticas, só pernoito em hotéis para maiores de 18 anos e nunca jamais em tempo algum coloco o pé num transporte publico.
Mas, como no melhor pano cai a nódoa, fui recentemente apanhado num dos meus poucos deslizes, aconteceu numa travessia transatlântica em que um pai achou por bem submeter o estafermo da criança a uma viagem de 11 horas sem escala dentro de um caixão com asas, o que, sem nenhuma surpresa resultou em estrepitoso berreiro, durante um número absurdo de horas, tão intenso que atravessava toda a classe turística e ainda tinha força para vir abanar a minha taça de champanhe na primeira classe e que deu ímpetos a 340 pessoas de cortarem os pulsos com uma faca de manteiga.
Ahhhhhh, as delícias da maternidade…

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