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NÃO FOI CONVIDADO PARA JANTAR

ELISABETE SALRETA
Há muito que sonhava com aqueles dias passados na montanha, naquela casa de madeira que tão bem conhecia. A correria dos dias na cidade mata-nos um pouco e já ansiava pela fresquidão das manhãs nas terras altas. Dava por mim a imaginar-me a beber das fontes sempre a correr e que nem o gelo do inverno as fazia parar. Por ali, só mesmo as águas das fontes e os ventos corriam. Pareciam crianças nas suas infindas brincadeiras.
Passei todo o primeiro dia a dormitar e pouco do que estava à minha volta me importava. Pelo cair da noite, ouvi um roído de algo a roçar no chão de madeira. Achei que fosse um ratito do campo a esconder os seus tesouros. Mas pensando bem, seria um rato muito grande para fazer todo aquele barulho. Mesmo assim, fui-me deitar mais um pouco. Mas toda a noite o barulho perseguiu-me. Não sei se era real ou a minha imaginação que já fazia um filme. Acordei e agarrei-me a uma grande chávena de café. Deambulei pela casa e de janela em janela a ver o tempo cinzento lá fora. Esfriara e eu agradecia as meias quentes nos pés e o chão de madeira, tão acolhedor. Quando cheguei à janela das traseiras pareceu-me ver um tufo branco que desaparecia pelo meio da lenha.
À noite, pouco antes do jantar, aquele ruido que já me era tão familiar, começou de novo. Abri a luz do alpendre e espreitei pela porta das traseiras. Lá ia o tufo da manhã, para o meio da lenha. Bem, no dia seguinte tinha o que fazer. Procurar o tufo branco, ou o seu dono. Mas dali a pouco o ruido continuou. Desta vez não vi nada. Coloquei uma fatia de pão ao lado do tapete da porta das traseiras e continuei nos meus afazeres. Estava a sopa quase pronta quando olho na direção da porta e fui presenteada com a melhor visão que poderia ter naquele momento. Ali, a olhar para mim, agarrado à porta, estava o coelho mais branco e mais felpudo que eu podia imaginar. Abri a porta devagarinho e ele entrou de imediato, seguindo para a sala e enroscando-se numa almofada. Ficou a deleitar-se com o calor da casa e com toda aquela mordomia.
Estava eu a jantar quando senti um ligeiro puxão nas calças do pijama. Era o Simão (assim o chamei) a pedir o seu jantar. Dei-lhe uma cenoura e uma maçã que devorou com muita sofreguidão.
Assim teve inicio uma amizade que durou muitos anos. Veio comigo para a cidade onde viveu numa casa quentinha e com muito amor. Gostava da sua fatia de pão e era doido por maças. Acompanhava-me ao jantar como se fosse uma pessoa da família.
Hoje agradeço a quem o deixou para trás num local tão inóspito e no fim do outono. Um animal sozinho, no que para ele era uma selva, depois de conhecer a mordomia de uma casa, não duraria muito tempo. Tantos perigos e sustos o seu coraçãozinho deve ter passado. Hoje somos uma família.
Quem deixa um animal para trás dá sempre a desculpa de que ele vai ficar bem. Que vai sobreviver porque afinal, é um animal e eles sabem. Nada mais longe da verdade. Nós criamo-los para serem eternas crianças. É isso que eles são. Eternas crianças. Não precisam de crescer porque lhes damos tudo o que precisam e gostamos das suas gracinhas. Depois, quando incomodam, deixam-nos à sua sorte. Não aprenderam a defender-se nem conhecem o meio. Acabam por morrer de fome, frio ou de doenças, se não acabarem nas mandíbulas de um qualquer predador…

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