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SOMOS HOMENS, APENAS

REGINA SARDOEIRA
Ontem deitei um relance ao filme O Filho de Deus, de Christopher Spencer (2014). Uma cena e uma frase tiveram o poder de me levar a reflectir. 
Jesus estava no início da sua vida de devoção à causa humana; e, no mar da Galileia, encontrou o pescador Pedro desiludido com a falta de peixe. Entrou no barco, lançou sobre o mar os seus poderes e as redes encheram-se. A seguir, voltou-se para o homem, aturdido com a súbita e inesperada abundância, e disse-lhe: Junta-te a mim; segue-me e farei de ti pescador de homens. Confuso, Pedro perguntou: E o que vamos fazer? E Jesus respondeu, laconicamente: Mudar o mundo.
Conheço bem este e outros filmes sobre a vida de Jesus, tal como conheço os Evangelhos e muito mais sobre o tema, sobre a ideologia religiosa do cristianismo e, em geral, sobre a história do mundo, desde então e até aos dias de hoje. 
Ouvir aquela frase simples – Vamos mudar o mundo – fez com que acedesse a reflexões contraditórias. 
É verdade: a missão conjunta de Jesus e dos seus discípulos de então, esses que, um após outro foram chamados a deixar as suas vidas, em prol de valores mais altos (que decerto não chegaram a entender), mudou realmente o mundo. Mudou-o, ao menos num pormenor muito simples de verificar: este ano de 2016 que estamos a viver de momento, é produto de uma contagem feita a partir desse outro em que Jesus reuniu 12 discípulos e se dispôs a cumprir um pacto com aquele a que chamou seu pai – Deus. 
Mas a mudança de que Jesus falou a Pedro, nessa tarde, no mar da Galileia, não previa, decerto, apenas as alterações ao calendário; não significava, meramente, fazer daquele tempo histórico o ano zero de uma nova era. Porém, quando afirmamos que este é o ano de 2016, depois de Cristo, estabelecemos um corte, enunciámos, de facto, uma mudança. E decerto é importante reflectir sobre isso. 
Pouco importa que sejamos ou não crentes na divindade – esse Deus pessoal que quis ter um filho humano. Pouco importa que as ocupações da nossa vida frenética nos afastem destes episódios, cujas testemunhas não poderemos nunca questionar, cuja veracidade histórica ninguém pode, em absoluto, garantir. O certo é que o homem misterioso que abordou o pescador Pedro e o incitou a tornar-se pescador de homens para, em conjunto, mudarem o mundo, conseguiu lançar o caos sobre a sociedade estabelecida no seu tempo. Conseguiu reunir multidões e espalhar um conjunto de ensinamentos, à revelia das leis – do seu próprio povo e do império que o dominava -, afrontou sacerdotes e políticos, inverteu toda a doutrina herdada ancestralmente e reproduzida sem cessar, produziu escândalos, derrubou poderes e não fraquejou quando a condenação à morte lhe interrompeu a vida. 
Creio tratar-se de uma personagem exemplar, para nós, que somos homens, como ele era e pouco ousamos realizar que faça jus ao convite feito a Pedro, no mar da Galileia. Ninguém, depois dele – e já passaram 2016 anos! – fez fosse o que fosse de tão radical; ninguém, de entre os homens, se ergueu da atrofia profunda em que a humanidade mergulhou, para realizar uma obra de tão vastas repercussões. 
Pode argumentar-se que Jesus, o Cristo, era Deus, com poderes sobre-humanos que nenhum de nós acredita possuir. Mas semelhante argumento é uma falácia, com a qual afastamos a responsabilidade humana e nos eximimos de lhe seguir o exemplo. 
Eu não creio que Jesus, em si mesmo, fosse Deus, nem me parece lógico supor que Deus – o hipotético pai – tivesse necessidade de uma entidade corpórea – o seu filho – para transformar o mundo. Deus é absoluto, omnipotente, omnisciente, etc., e um ser desse porte não tem necessidade de intermediários humanos para executar seja o que for. 

Como é evidente, estou a supor que Deus existe, como pessoa, como ser dotado de atributos supremos. Mas se tal personagem não passar de um mito que nos alimenta a angústia da fraqueza? Se crermos que existe um Deus, deste modo concebido, não passar de um subterfúgio para justificarmos a nossa fragilidade, a nossa impotência? 
Feuerbach, um eminente filósofo do século XIX, escreveu mais ou menos o seguinte: “Nós, homens, somos omnipotentes, omniscientes, infinitos e tudo o resto que é uso atribuirmos a Deus. E quanto mais de nós dermos a Deus, menos nos resta.” 
Subscrevo, em absoluto, estas palavras. E, quando evoco o judeu Jesus e o seu périplo revolucionário pelas vilas e cidades da Palestina, chego a duas conclusões. 
Se ele era o filho homem de Deus e Deus existe, a mensagem da sua odisseia, das suas parábolas e da sua morte significam que qualquer um de nós, homens, pode, se desse modo acreditar em si, dar os passos certos para mudar o mundo. Se ele era apenas um homem comum, filho de um carpinteiro, e se Deus não existe, isso significa, do mesmo modo, que todos, sem excepção, somos capazes, na nossa humanidade, de nos superarmos, engrandecendo o mundo. 
Como resulta óbvio, estou a deixar em branco toda a história do cristianismo, feita depois de Cristo: porque ele, Jesus, não fundou o cristianismo, não estabeleceu nenhum ritual, nenhum dogma, nenhuma prática concreta. Os seus seguidores próximos (que, repito, talvez não o tenham compreendido) e os que se lhes seguiram e interpretaram o que foi deixado, como relato e testemunho, engendraram uma religião e sobre ela edificaram igrejas e impérios. 
Não é isso que importa, porém. O importante é, simplesmente, aquele apelo ao pescador de peixes, Pedro, aquela promessa, Vou fazer-te pescador de homens, e aquele repto, Vamos mudar o mundo. 
Pescar homens é convertê -los a uma nova visão de si mesmos e de todos os outros, mostrar -lhes que o mais fraco, pobre e desprotegido encerra dentro de si uma potência suprema. É retirá-los dos seus tugúrios de miséria e das suas pobres rotinas e mostrar-lhes o caminho virgem onde tudo pode ser semeado e florir. Mudar o mundo é perceber a
força aprisionada que cada um alberga e dar -lhe a vazão necessária. 
Eu creio que Jesus, esse que nasceu judeu numa terra escravizada e oprimida, nada teve, de facto, a ver com aquele Deus terrível do antigo testamento. Não poderia, portanto, ser o seu filho: um pai não deseja que o herdeiro destrua o seu legado. Filho de homens, movido pela determinação e pela vontade de mudar o mundo, lançou à terra uma semente tenaz que, para verdadeiramente eclodir, necessita da participação de todos os que, como ele, são homens, apenas.

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