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A MULHER GRANDE DOS BIJANTES

CRÓNICA DE JOANA BENZINHO
Na Guiné-Bissau, o respeito pelos mais velhos é uma evidência e uma realidade que por cá, deste lado do mundo ocidental, já vemos cair um pouco em desuso.
Apesar de a esperança média de vida não passar os 50 anos, é um país onde vemos vários idosos e muitos rostos sem idade, curtidos pelo tempo e pelo sol que ignoram por completo p ano do seu nascimento.
Na Ilha de Bubaque (Arquipélago dos Bijagós) visitei por diversas vezes a mulher grande da Tabanca (aldeia) dos Bijantes, uns bonitos olhos esverdeados num corpo intemporal mas com uns pés que acusam as décadas passadas. Diz que tem mais de 90 anos. É bem provável, mas nunca o iremos saber.
A mulher estava invariavelmente no alpendre da casa, ligeiramente elevado para poupar a casa da época das chuvas, sentada no tradicional banquinho de madeira tão visto e usado por aqueles lados.
Aquando da visita à Tabanca, nunca pode faltar o tabaco e a aguardente para o Régulo e para esta mulher grande. Ele dá-nos alegre as boas vindas. Ela agradece com um aceno reconhecido, mais expressivo que qualquer palavra e, depois dos cumprimentos de circunstância, lá fala numa voz arrastada de quem já vivenciou e contou muitas histórias a outros forasteiros que por ali passam.
À sua volta encontram-se sempre várias mulheres e crianças que lhe fazem companhia, dão-lhe de comer e de beber e acodem a todos os seus pedidos, com uma simpatia que não cheira a servidão mas sim a respeito. Muito respeito. E ela ali está, na sombrinha do colmo que lhe tapa a casa e o corpo do sol a viver os seus dias numa paz e no meio de um carinho colectivo da aldeia que enternece as pessoas mais distraídas.
As crianças da aldeia reagem excitados à presença de visitas na expectativa de receber uma caneta ou um rebuçado mas, assim que se abeiram e nos encontram sentados no alpendre a conversar com esta matriarca calam-se e ouvem respeitosamente o que nos diz.
E esta mulher grande, como por ali se chama, fala das suas inquietações e da aldeia com uma clarividência e uma sabedoria que esmagam. A sua preocupação são as crianças, as muitas que correm e pulam pela aldeia sem nada para lhe ocupar os dias. Preocupa-a a falta de um ensino de qualidade e de uma escola com condições, a falta de emprego para os jovens, a falta de oportunidades para os adultos, a falta de futuro para as gerações mais novas da sua Ilha e do seu país. Não quer que repliquem a dura vida que lhe coube, aquela de passar parte do ano acampada na vizinha Ilha de Rubane a cultivar arroz na bolanha de sol a sol, ou na cultura do amendoim e da mandioca para a alimentação diária nos campos da Ilha de Bubaque. Deseja para estes jovens a oportunidade de estudar e de poder viver um futuro melhor.
Os seus 90 anos, mais coisa menos coisa, são um ensinamento para quem a ouve e uma lição não só para nós mas também para aquelas crianças que a fixam de olhos muitos abertos. A sabedoria desta mulher que nunca aprendeu a ler nem a escrever enche-nos a alma.
Não sei se ainda vive. Mas gostava de voltar a cruzá-la. Talvez continue no alpendre e já tenha cumprido um século de vida. Na memória, guardo a intemporalidade das suas palavras, a beleza do seu olhar e a dureza da vida retratada nos marcados traços dos seus pés.

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