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PLEONASMOS

REGINA SARDOEIRA
A verdade muda. Não há um caminho único, uma única certeza. Cada homem é um abismo e cada abismo contém, a par da multidão das certezas, a multidão das incertezas. 
Correr atrás da verdade é o mesmo que vogar em círculo ao redor de um centro; e se o círculo se alarga com o tempo, nem por isso deixa de ser, apesar de tudo, círculo. Ora, apesar da noção de círculo arrastar atrás de si, inevitavelmente, a noção de centro, a verdade é que não existe um centro e talvez que tudo na vida, afinal, se caracterize pela ausência de centros ou pela sua multiplicidade infinita. 
A verdade muda – ficou dito. Mas enquanto não muda, no torvelinho atroador da ambição humana, ela permanece como alvo da procura. Acima de tudo, o vício heurístico de uma humanidade sedenta de certezas opõe-se às divagações, absolutamente necessárias quando nos agita uma réstia de fulgor imagético! E contudo, pobre daquele (ou muito rico em função da perspectiva individual: que esta questão da pobreza ou da riqueza nunca deixou de ser extraordinariamente relativa) pobre ou rico, portanto, de quem não assume o sonho e o separa, à força de trincheiras, da implacabilidade do mundo real.
Eis o que o homem para si próprio construiu: um mundo real, com todo o peso alienatório que o termo “real ” implica, separado por trincheiras do mundo, dito ilusório, do sonho. E sempre que a imaginação, incauta ou diligente, ultrapassa a barreira proibida, logo desce a vergasta e a obriga a respeitar os seus limites. A imaginação converte-se, deste modo, num precioso alvo a conquistar. Mas de que forma? Agora as brumas do sol interior são as leis sociais com que o mundo espartilha o pensamento…mas não haverá um outro espartilho, radicado no cerne do próprio indivíduo, comprimindo por dentro, o que por fora foi sendo gradualmente comprimido? Sim, por demais conhecemos esse outro liame interior. Ele arrasta, arrasta para o fundo a consciência, numa vertigem de descida abissal, penetra cada vez mais em baixo zonas íntimas onde a penumbra é cortada, a espaços, pela luz mais que potente do pensamento onírico. E não há nada a fazer. Nós tentamos, num esforço supremo, deter a avalanche que tudo empurra para o caos primitivo, tentamos a ordem do mundo interior, tentamos a ordem da lei colectiva. Mas o caminho irrevogável é o abismo, sabemo-lo. Esta sabedoria, que em nós é um lema de vida, não é pessimismo fundamental, antes conhecimento dialéctico da força irremissível que sempre dissolve a afirmação no seu contrário, e isto vem sendo afirmado ao longo de gerações dos mais sábios de entre todos, não são ideias novas, estas, subitamente apanhadas na corrente do pensar. A despeito disso, continuamos a ver o homem cheio de espanto e confusão quando o terramoto abala e torna em frágeis carcaças a razão da sua vida. Pois quê?! Então ele não sabia já que é tremor e caos a estabilidade em que se apoia? Sabe e sabia-o desde sempre; sabe-o nas profundidades mais recônditas de si mesmo, sabe-o porque a prática o confirma, violentamente, de vez em quando; sabe-o porque a teoria diariamente lho demonstra. Mas na sua cegueira pusilânime recusa-se a fazer dessa noção o verdadeiro ponto de partida. O homem é de natureza cobarde.
E agora eis que surge a inevitável pergunta: se é terreno incerto aquele em que o homem se apoia não será absolutamente vã toda a construção e absolutamente estéril qualquer busca de equilíbrio?
Somos nós – os que tomamos consciência da inconsciência em que o mundo se atola – que forçaremos à resposta essa questão dentre todas insolúvel! Paradoxo dos paradoxos! Pasmai, homens positivos, pasmai ó tecnocratas, pasmai ó competências institucionalizadas, ó obreiros da perfeição! Pasmai ante o paradoxo e ante quem vos afirma o paradoxo como essência e contra-essência do já feito e do devir! E, depois de terdes pasmado, continuai, hirtos, nos cadeirões estofados da vossa consciência, continuai o trabalho interrompido, olhai a cifra incompleta e, acima de tudo, vede bem o nó da gravata! A propósito: já almoçastes? Então cuidado, não vá o paradoxo interromper a vossa digestão e apressar o desenlace! É bem verdade que os paradoxos são indigestos, é bem certo que a vida é uma tremendíssima indigestão (ainda que para vós ela deslize sem nenhum fragor de tempestade.) Para vós?! Mas quem sois vós? Ah, não o pergunteis ainda, é muito cedo, estão encerrados os taipais das lojas da definição e vão abrir… sei lá, talvez não abram nunca!
Reparem: há demasiados narcóticos, demasiados mecanismos de esquecimento, muito ópio flutua à superfície viscosa dos oceanos da cultura. Não, nada de drogas! Este livro é um anti-livro, justamente por causa disso, quer sair do circuito e afirmar-se, fora dele: mas talvez não o consiga nunca! Pois como pode afirmar-se um anti-livro que, sob todos os aspectos, partilha com os seus contrários forma e conteúdo? Pois bem, deixemos isso, para já, resolvê-lo-emos depois. Faz ainda parte do paradoxo a afirmação do que é, afinal a sua própria negação.

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