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SR. RIBEIRO, O TAXISTA

FERNANDO COUTO RIBEIRO
O meu pai (hoje reformado) foi, grande parte da vida, taxista. Foi taxista numa aldeia de Marco de Canaveses, e sempre foi um homem honrado.
Ser taxista, como o meu pai foi, é ser uma espécie de confidente: partilhava dores e alegrias, medos e segredos, e estava lá a qualquer hora. Quando digo a qualquer hora, digo as que se contam para contar os dias e as que se contam para contar a vida.
Num meio pequeno como era aquele em que vivíamos , o meu pai era mais conhecido que “o arroz de 15” e eu, durante muito tempo da minha vida, vivi sem nome próprio – era o filho do Sr. Ribeiro. E ser o filho do Sr. Ribeiro estava certo. E era bom. Confesso, com algum orgulho, que sonhei ser taxista.
Naquele tempo, não havia Uber nem sucedâneos, eram os táxis e os amigos que nos levavam aonde precisávamos ir, até porque os carros particulares eram muito poucos. Para se ser taxista era necessária uma licença que implicava uma praça (um lugar de paragem) e o mercado era regulado. Não sei se alguma coisa se alterou no entretanto.
Não defendo, não revejo o meu pai e não me revejo a mim nas imagens que vi na televisão. Não vou tentar desculpar nem justificar ninguém. Há taxistas que são verdadeiras bestas mas, segundo sei, ser besta é uma qualidade pessoal e não uma qualidade tribal.
Há taxistas que são gente de bem e que seriam gente de bem em qualquer profissão.
Não sou contra a tecnologia nem contra o avanço do mundo, muito pelo contrário, mas sou a favor de regras iguais para tarefas iguais. Não sou um neoliberal desenfreado mas sou a favor da liberdade individual e do mérito pessoal. O mundo está em transformação incontrolável, e temos de ter cuidado com consequências que não conhecemos.
O meu pai será para sempre o Sr. Ribeiro Taxista e eu sou, com muito orgulho e admiração, filho do Sr. Ribeiro Taxista!

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