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CONVERSAS PRIVADAS COM… O PODER LOCAL

«Feliz de quem entende que é preciso mudar muito 
para ser sempre o mesmo.»
Dom Hélder da Câmara
MANUELA VIEIRA DA SILVA
Nunca fui de ter ambições irrealistas ou mesmo desmesuradas, tentei sempre fugir de um mundo pequeno sem horizontes em que os caminhos pareciam todos não terem saída.
Acabei por conhecer os meus limites ultrapassando-os com excesso de trabalho e de apaga-fogos em todo o tipo de «vegetação», sem qualquer tipo de regras, disciplina, horários, com imensas noites sem dormir, ou apenas 2/3 horas diárias. Valeu-me o marido que me obrigava a fazer o jantar a horas para quando chegasse do emprego ter a comida na mesa e, assim, também eu acabava por ter uma refeição diária normal. 
(É interessante verificar como funciona o cérebro se o deixarmos fluir num sentido. O cérebro em si não funciona sozinho, precisa do impulso do nosso pensamento e da nossa vontade. E eu estava decidida a levar em frente rapidamente um empreendimento que deveria ter um final feliz.)
… Precisava sobretudo de cumprir horas de reuniões e entregas de trabalho, prazos dos pagamentos e despesas, fazendo frente a todos os problemas e impedimentos que iam surgindo, tendo apenas a preocupação dos compromissos e dos deveres para com os outros, esquecendo-me totalmente de mim, sem tempo para me olhar ao espelho, com olhos de ver, para as olheiras, que disfarçava com óculos escuros — não pelas olheiras mas pela luz do dia da rua que me ofuscava, dificultando a condução — ou para o próprio corpo, que se ia modificando sem eu me aperceber. Nem a cor da roupa preta mudava, prolongando o luto pela morte da minha mãe, incapaz de escolher o que vestir. 
E foi assim… com o tempo, meses e anos seguidos, com tudo a acontecer à minha volta, eu sempre a cumprir os meus objectivos ou a tentar lá chegar, porque, quanto mais queria chegar a um destino, mais ele fugia… até que um dia o cérebro mandou-me parar pregando-me um susto de morte, impedindo-me de ler e, na sequência, de trabalhar. Aprendi novas técnicas de saúde e de meditação que pratiquei durante anos para ter energia para tudo fazer, ferramentas mentais e nutrientes orgânicos e espirituais, sem os quais não teria conseguido sobreviver, com a lucidez necessária para os desafios e a violência que surgiam no dia-a-dia, e continuei a trabalhar e a tratar de todos os processos que o meu vizinho intentava nos tribunais e na Câmara Municipal… Ao fim de 20 anos de processos em tribunal, acabou de dar entrada um novo, para «apagar», ou, melhor, abafar uma condenação de um processo cível que perdeu, na 1.ª e na 2.ª Instância, e no Supremo Tribunal, que ainda não cumpriu ao fim de um ano.
Livre-pensadora, iniciada na filosofia existencialista, após profundas vivências cristãs na corrente da Teologia da Libertação no seio do catolicismo progressista, senti-me na obrigação de ver, julgar e agir segundo as minhas convicções, quanto aos conceitos de Liberdade, Justiça, Paz e Verdade, Igualdade e Fraternidade.
Um dia, por diversas razões, precisei de procurar casa por, por mim podia ser em qualquer lugar, mas o meu marido (filho de boas famílias abastadas), com frequência, falava com saudade de Sintra, onde passou várias e longas épocas de férias, além das assíduas visitas. Conhecia todos os monumentos, terras, jardins, quintas, estradas, e cantos, desde a vila de Sintra, inclusive, até à costa. Pelo contrário, eu não conhecia nada, nem era filha de famílias abastadas, mas com educação e boa formação, adquirida anteriormente em França. Fizemos uma aposta em como eu iria conseguir uma casa em Sintra, tinha de ter espaço de terreno, porque chegámos a ter cinco cães e eu gostava que eles fossem à rua fazer as necessidades e brincar à vontade sem trela e sem a preocupação de infestações de parasitas. Comecei, de imediato, a consultar jornais nas páginas de alugueres de casas em Sintra (campestre). Numa semana encontrei, através de uma agência imobiliária, que nos trouxe a ver a casa, onde ainda vivemos.
Nunca houve problemas com a vizinhança durante os primeiros seis anos. Vivemos em paz e felicidade com os nossos cães, dedicados ao trabalho, à casa e ao quintal, que tratávamos com muito amor e prazer, construindo o nosso jardim e a horta. Decidimos comprar e fizemos a proposta ao senhorio, o qual acedeu depois de algum tempo de negociações sobre valores. Uma das minhas vizinhas, alguns meses mais tarde, através de um filho, sargento da Marinha, também compra ao senhorio dela. Com o apoio de mais dois filhos, ou seja, irmãos do sargento, um funcionário da Protecção Civil e outro dos Serviços Florestais, dão início a uma luta mesclada de inveja, loucura e ganância. Faço notar que a origem desta família é a serra de Mafra e todos os filhos nasceram aí. Entre eles e nós há apenas uma diferença de 13 anos de estada neste local, enquanto inquilinos de senhorios diferentes.
E é aqui que começa verdadeiramente a história, uma autêntica aventura pelos meandros da chamada cultura do «saloio» e o conluio da grande maioria das instituições públicas locais envolvidas neste caso, com destaque para a Câmara Municipal de Sintra e os Tribunais, nomeadamente Criminal e Cível, mas também a GNR.
A vivência do meu marido nesta zona, na sua juventude, tinha um padrão específico, que ele ignorava, que ainda hoje existe, mas noutro formato. De famílias proprietárias ricas, as quintas tinham seus respectivos empregados, trabalhadores domésticos, da lavoura, tratadores de animais, etc. Com o tempo, essas quintas foram sendo vendidas a pessoas de fora, normalmente endinheiradas. Os trabalhadores, por vezes, ao serem despedidos, recebiam como recompensa pelos bons serviços prestados uma pequena fracção da quinta onde estiveram durante alguns anos, que depois tentam aumentar a área, de todas as formas possíveis e impossíveis e imaginárias. Outros, tendo trabalhado durante anos numa determinada quinta, tendo já a sua própra casa e constituído família, mudam de profissão, passam a dedicar-se, por exemplo, à construção civil. A zona é propícia a bons rendimentos e não tenho conhecimento que houvesse desemprego. 
Os sonhos nascem com as ideias. Se forem sonhos de aquisições materiais at

é atingirem um patamar semelhante ao dos seus ex-patrões, na mesma zona, vão-se criando alianças entre esses ex-trabalhadores das diversas quintas entretanto vendidas também a pessoas de fora. As quintas, entretanto, são desmembradas, retalhadas em pequenas quintas, diminuindo de tamanho. Fazem-se moradias nesses espaços, uns maiores que outros, que serão vendidos como quintas ou quintinhas. Os proprietários rentabilizam ao máximo os seus negócios com as pessoas de fora do concelho, endinheirados e figuras públicas da política, das artes, da música, etc., fazendo arrecadar ao erário público e privados substanciais somas de dinheiro. 

Outras pessoas que comprem casa nesta zona, que não sejam figuras públicas com poder ou com muito dinheiro, arriscam-se, sem saber, a comprar uma fonte inesgotável de problemas e conflitos que poderão durar dezenas anos, ou, então, se puderem, abandonam ou desistem da sua propriedade, vendendo ao desbarato pela impossibilidade de ter um pouco de paz na vida. As instituições são passivas perante os conflitos gerados pelos «saloios», substimam as situações como sendo «guerras de vizinhos», sem qualquer interesse, e até protegem quem prevarica, dando-lhes benefícios e fazendo favores sobre o objecto do conflito, que ainda aumenta mais a injustiça dando-lhes o poder que não têm. As pessoas recém-chegadas, que não tendo conhecimento do ambiente do local, apenas do que compraram, ficam sujeitas a todo o tipo de mentiras, de insultos, difamações e outras situações menos próprias, como violência física, por parte dos vizinhos próximos que têm interesse em alargar as suas propriedades, roubando ao novato, em aliança com os seus «amigos» de conveniência que servem de «testemunhas» para corroborar essas mentiras. Assim, todos ficam a ganhar, menos os proprietários recém-chegados, que não têm poder para fazer valer os seus direitos, nem lei por onde se reger, que, apesar de existir, é ignorada.
Passadas duas gerações são os filhos daqueles, bastantes são funcionários públicos, que perpetuam estes conflitos, agora com tráfico de influências, manipulações, intrigas, enredos bem elaborados, documentos falsos… que se mexem como peixe na água em todos os serviços públicos, qualquer que seja a área, em que tudo é possível. E tudo é mesmo tudo. 
Tenho consciência de que estou a pôr a minha vida e a do meu marido em risco, mas o sofrimento e o prejuízo acumulados nestes 20 anos, superiores ao que um simples humano pode suportar, que nos enclausuram para a vida, impelem as palavras a soltarem-se, há demasiado tempo aprisionadas num casulo feito de paciência, já desgastado pelo vento e pelas muitas intempéries. 
Será esta a nova era, a nova civilização de um país que se pretende livre e democrático, em que se apela aos vizinhos para que denunciem situações de violência doméstica? Estarei a viver no mesmo país?
«Feliz de quem entende que é preciso mudar muito para ser sempre o mesmo.» 

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