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NUTRIÇÃO E DOENÇA DE ALZHEIMER

DIANA PEIXOTO
A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência, representando cerca de 50 a 70% de todos os casos, sendo classificada como um transtorno mental e comportamental.
Esta doença caracteriza-se pela morte neuronal em determinadas partes do cérebro, com algumas causas ainda por determinar.
À medida que as células cerebrais vão sofrendo uma redução de tamanho e número, vai impossibilitando a comunicação dentro do cérebro e danificando as conexões existentes entre as células cerebrais. A morte destas células traduz-se numa incapacidade de recordar a informação. Deste modo, conforme a Doença de Alzheimer vai afetando as várias áreas cerebrais vão-se perdendo certas funções ou capacidades. E quando a pessoa perde uma capacidade, raramente consegue voltar a recuperá-la ou reaprendê-la. 
Estima-se que em Portugal existam cerca de 182.000 pessoas com demência, das quais 130.000 representam a doença de Alzheimer.
É de extrema importância que, tanto para doentes, como para os seus familiares e para os prestadores de cuidados, se tenha o maior conhecimento possível acerca da doença de Alzheimer e, por isso, debrucemo-nos sobre a atual evidência científica, que tem salientado que a nutrição tem um papel importante na prevenção desta doença. A adoção de um padrão alimentar saudável com um consumo diário de fruta e hortícolas ricos em antioxidantes, a diminuição do consumo de gorduras saturadas (como por exemplo através da diminuição do consumo de carnes vermelhas e processadas) e aumento das gorduras insaturadas, o aumento do consumo semanal de peixe (no qual deverão estar incluídos os peixes gordos), de frutos oleaginosos e de óleos vegetais, a inclusão de leguminosas e cereais e a moderação do consumo de álcool parecem ser a melhor estratégia para a prevenção da Doença de Alzheimer. Assim, a adoção de alguns padrões alimentares como a Dieta Mediterrânea ou até mesmo o da nova dieta híbrida MIND parecem ser uma opção de recomendação. A dieta MIND recomenda o consumo de uma refeição de peixe pelo menos uma vez por semana.
Para além das pessoas com doença de Alzheimer serem doentes com maior risco de desnutrição proteico-energética, também os seus níveis e aporte de micronutrientes e ácidos gordos essenciais podem estar comprometidos ao longo da progressão da doença. Assim, as atuais abordagens no tratamento consistem em ajudar as pessoas a manter as suas funções mentais o melhor preservadas possível e retardar os sintomas. Neste sentido, é fundamental que o doente seja acompanhado por uma equipa multidisciplinar, constituída por diferentes profissionais de saúde.
Ainda não existindo evidência científica suficiente para suportar a recomendação de suplementação específica na prevenção e tratamento da doença de Alzheimer, deve-se, portanto, tentar que sejam atingidas as doses diárias de ingestão recomendadas destes nutrientes, preferencialmente através da alimentação.
No caso da vitamina C, atua como antioxidante, protegendo os neurónios contra o stress oxidativo. Uma revisão da literatura mostrou ainda que as pessoas com Alzheimer têm normalmente baixos níveis plasmáticos de vitamina C e que a manutenção de valores normais desta vitamina pode ter uma função protetora contra o declínio cognitivo.
A vitamina E é importante para o funcionamento dos neurónios, sendo um constituinte das membranas dos neurónios e um potente antioxidante. Não há benefícios da ingestão desta vitamina acima das doses diárias de ingestão recomendadas em indivíduos com Alzheimer, no entanto, é importante que seja assegurado diariamente o consumo das doses diárias recomendadas.
Já o selénio, é um micronutriente que quando ligado a aminoácidos permite que estes atuem contra a diminuição do stress oxidativo, o que é, como já vimos, particularmente relevante na prevenção e progressão da doença de Alzheimer. Por isso é importante atingir as doses diárias recomendadas deste micronutriente para a prevenção da doença, mas também e principalmente, monitorizar a ingestão de selénio nos indivíduos com Alzheimer tendo como referência as doses diárias recomendadas de ingestão.
O aporte insuficiente de vitaminas do complexo B está associado a défices cognitivos, sugerindo que estas vitaminas possam ter um papel preventivo em relação à patologia de Alzheimer, portanto, deve garantir-se a ingestão das doses diárias recomendadas destas vitaminas através da alimentação.
Sendo assim, a utilização de suplementação deverá ser reservada apenas para a correção de deficiências clinicamente comprovadas como por exemplo em pessoas com baixas concentrações de B12 e ácido fólico, e por várias razões, como por exemplo na prevenção de anemia perniciosa, neuropatia periférica e outros sintomas neuropsiquiátricos.
Relativamente ao consumo de álcool, para quem já tem por hábito de consumir, o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável Nutrição e Doença de Alzheimer, 2015 recomenda que continuem a consumir, mas com moderação (entre uma a três porções/dia), sendo que, o ideal seria duas porções para homens e uma para mulheres por dia.
Relativamente à cafeína, que é um estimulante psicoativo, resulta num maior estado de alerta e melhor desempenho cognitivo. Estudos indicam que a cafeína quando administrada cronicamente, tem efeitos benéficos, contra um número de perturbações neurológicas agudas e crónicas, incluindo a doença de Alzheimer. Os estudos mostram alguma evidência de que o consumo de café, chá e de outras fontes de cafeína pode ter um papel protetor contra o declínio cognitivo, sendo esta eventual proteção mais evidente em mulheres do que em homens. No entanto, relativamente a esta associação falta ainda estabelecer uma relação dose-resposta, devendo-se, por isso, recomendar um consumo moderado de cafeína não ultrapassando as doses diárias máximas recomendadas (EFSA – Autoridade Europeia de Segurança Alimentar recomenda até 400mg de cafeína por dia).
Os indivíduos com Alzheimer têm também um risco acrescido de desidratação devido à dificuldade que têm em reconhecer que estão com sede, em comun

icar ou mesmo pelo próprio esquecimento de beberem água. Isto pode levar a sintomas e efeitos da desidratação como dores de cabeça, confusão aumentada, infeção do trato urinário, obstipação, entre outros. Portanto, é importante que a pessoa doente tenha sempre uma bebida à mão; que se usem copos transparentes para que possa ver o que está dentro; que se coloque o copo na linha de visão da pessoa com Alzheimer; se verifique se o copo é adequado (não seja muito pesado ou tenha forma difícil de agarrar) e se suplemente com alimentos ricos em água, nomeadamente, sopas, batidos e gelatinas.

Concluindo, quando a doença se Alzheimer já se encontra instalada a suplementação parece, por si só, não melhorar o estado mental e cognitivo dos indivíduos como parece acontecer com o fornecimento de alimentos e fórmulas que contêm vários nutrientes nas suas formas naturais. Tendo isto em conta o padrão alimentar variado da dieta Mediterrânea poderá ser uma benéfica opção para esta concretização pois a sua adesão parece estar associada a uma menor mortalidade destes indivíduos. Assim, tendo em consideração que os défices nutricionais, nomeadamente de vitaminas A, C, E, D, K, Ácido fólico, B12, B6, selénio, e ácidos gordos ómega 3 são frequentes nos indivíduos com Alzheimer, é de extrema importância tentar assegurar o aporte das doses diárias recomendadas destes nutrientes através da alimentação, devendo-se corrigir sempre que se sejam detetados défices nutricionais nestes indivíduos.
A malnutrição associada à perda de peso é bastante frequente nesta patologia, embora as causas variem. Podem incluir falta de apetite, dificuldades em cozinhar, problemas com a comunicação ou reconhecimento de fome, má coordenação motora, maior cansaço, dificuldades de mastigação e deglutição. Por isso, a avaliação do risco e estado nutricional dos indivíduos com Alzheimer deverão fazer parte da monitorização da doença, visto que a perda de peso e a desnutrição são indicadores da sua progressão.
No que diz respeito aos nutricionistas, os profissionais de referência dentro da área da Nutrição, também assumem um papel muito relevante para as pessoas com Alzheimer e para os seus cuidadores, visto que a malnutrição associada a dificuldades alimentares e comportamentos alimentares eversivos é bastante frequente. A intervenção específica destes profissionais passa pela identificação do risco nutricional e posterior avaliação do estado nutricional dos pacientes. Assim, podem estabelecer uma intervenção nutricional adequada, adaptada e personalizada, tendo em conta as necessidades nutricionais, a condição clínica, os hábitos alimentares, as crenças e a cultura dos indivíduos com a doença e também dos seus cuidadores. Sempre que possível as intervenções realizadas devem ser constituídas por equipas multidisciplinares.

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