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ERA MUITO MAIS DO QUE INDISCIPLINA

MÓNICA AUGUSTO
Já lá vão alguns anos que uma experiência profissional alterou a minha postura enquanto docente e enquanto pessoa. É verdade que cada escola pela qual passamos nos deixa marcas, algumas menos boas, mas que, na verdade, depois de uma reflexão, se mostram essencialmente positivas. Existem escola muitos difíceis, com alunos muito problemáticos, mas essas escolas ensinam-nos muito e todos os alunos acabam por nos deixar boas recordações. Efetivamente já tinha passado por algumas dessas escolas problemáticas, já tinha conhecido alunos muito difíceis, contudo, nada me tinha preparado para a situação com a qual me deparei. 
Licencie-me numa altura em que os estágios pedagógicos eram parte integrante do curso, ocupavam um ano letivo inteiro, o ano de estágio é um ano difícil, o primeiro contato com uma sala de aula no papel de docente é uma mudança radical, mas o estágio prepara-nos para alguns dos aspetos inerentes ao funcionamento de uma escola, as próprias unidades curriculares do âmbito da pedagogia e organização escolar frequentadas ao longo da licenciatura permitem-nos ter uma noção teórica do que podemos encontrar numa escola. Contudo, nenhuma unidade curricular ou indicação ao longo do estágio nos explica certas realidades. Fui colocada numa escola, pelo Ministério da Educação, à semelhança de anos anteriores, mas a apresentação nessa mesma escola revelou-se bastante diferente: as minhas funções não seria ali exercidas, mas sim num outro local, um pouco distante… Ninguém me soube explicar exatamente do que se tratava, deram-me as indicações do local e parti à descoberta… ao deparar-me com uma residência que, à partida me parecia normal, com exceção do excessivo gradeamento achei estranho, fui recebida por um segurança e pela direção que me pôs ao corrente da situação. Eu iria lecionar num local concebido para receber jovens com comportamentos desviantes que, por imposição de um tribunal estariam sujeitos a medidas tutelares educativas em regime fechado. Conheci as instalações e percebi que efetivamente a vida daqueles jovens se resumia àquela residência, a proximidade entre zonas privadas e salas de aulas era evidente. Durante um ano letivo acompanhei a vida daqueles jovens, as suas inquietações, os seus comportamentos tantas vezes desajustado, confesso que ouvi insultos que não julgava existirem, era muito mais do que indisciplina. Muitas vezes fiquei triste, senti-me ofendida, outras vezes senti-me em perigo, e era um perigo real, eramos advertidos para essa possibilidade. Nas situações limite estive perto de quebrar, mas sabia que se cedesse nunca mais recuperaria a minha autoridade, era preciso ser forte o tempo todo, era preciso nunca mostrar medo e ter sempre presente que, independentemente da ofensa, eram apenas miúdos. Mas se nas situações de maior agressividade foi possível manter a calma e continuar em frente, outros momentos eram ainda mais perturbadores: os momentos em que os alunos falavam das suas vivências e queriam explicar por que motivo estavam ali. Motivos que tentei sempre não saber, mas que muitas vezes foi inevitável. Percebi que alguns tinham cometido crimes graves, mas que afinal eram miúdos, fruto de uma sociedade pela qual todos somos responsáveis. Ao ouvir as suas experiências de vida entendi as conjunturas que para ali os empurraram, a brutalidade dos relatos não mais se apagará, ainda que vários anos tenham passado, confesso que aí sim, quebrava, apesar de aparentemente manter a postura de seriedade, não raras vezes saí com as lágrimas a brotarem. Não mais se apaga da minha memória o barulho da porta principal a ser fechada nas minhas costas e pensar que, uma vez sozinha, já podia deixar de conter as lágrimas. Pensei muitas vezes que era apenas o equivalente a lecionar num estabelecimento prisional, mas não era, ai eram só miúdos! Posteriormente, também no exercício da atividade profissional, contatei com a população prisional, e confirmei: não é a mesma coisa, ali eram só miúdos! 
Apesar das dificuldades, quando o ano letivo terminou, ficou a tristeza, foi o abandonar aquelas vidas que acompanhei tão de perto. Sei que muitos deles também foi difícil deixar para trás os professores tão próximos, nós viemos embora, eles ficaram por lá. Ainda hoje me questiono acerca do rumo que levaram aquelas vidas, lembro-me de todos, sem exceção. Sei que alguns percursos não foram bem sucedidos, os reencontros revelaram-me situações dramáticas, senti que tinha sido um ano em vão, que o minha presença naquela instituição não tinha tido valor algum, que não tinha conseguido contribuir para nenhuma alteração positiva naquelas vidas. Mas sei também que alguns daqueles jovens seguiram o seu caminho de forma correta, encontrei-os alguns anos depois no seu posto de trabalho. Foi um reencontro perturbador, o olhar profundo e o reviver daquele ano que, se foi difícil para mim, muito mais o foi para eles. Era muito mais do que indisciplina, aqueles jovens foram o fruto de contingências que a maioria de nós não consegue sequer imaginar, que, na sequência de infâncias destruídas, não tiveram uma adolescência normal, que se viram privados da liberdade e que afinal… eram só miúdos!

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