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ÁGUA DE PAU: ONDE A PORCA FUROU O PICO

CARLA LIMA
Estou a ler o livro “A vida no campo” do escritor Joel Neto. Livro que aconselho a toda a gente. Este livro é um voltar às raízes e fala sobre a importância do lugar de onde somos e da nossa família. Li algures que nunca nos conhecemos verdadeiramente se não conhecemos as nossas raízes. Por isso decidi escrever sobre Água de Pau.
Antes vou fazer o “bilhete postal”, que é como quem diz, a apresentação sumária da Vila e dos seus maiores atractivos e depois vou falar do que Água de Pau significa para mim.
Água de Pau é uma Vila pertencente ao concelho da Lagoa, na costa Sul da ilha de São Miguel, nos Açores. Tem aproximadamente 20 km² de área e cerca de 4000 habitantes.
Grande parte da sua população dedica-se à agropecuária, à agricultura e à pesca. O artesanato tem uma grande importância, sendo de realçar os trabalhos em vime.
No contexto do povoamento do arquipélago dos Açores é uma freguesia muito antiga, constituída em 28 de Julho de 1500. A fixação dos primeiros habitantes terá ocorrido devido à presença de nascentes de água potável e por ser atravessada por uma ribeira.
Sobre esta localidade referiu Gaspar Frutuoso:
“Água de Pau, assim chamada porque, segundo alguns, indo por ali os antigos descobrindo a costa do mar, acharam uma ribeira que caía de um alto e não sabiam determinar se era pau, se água, mas chegando mais perto viram ser água que corria por um pau que ali estava derribado. Mas, segundo outros mais certos, vendo os primeiros descobridores da ilha cair pela rocha a água desta ribeira, curva e arcada, para o mar, lhe parecia pau por onde a água corria, e uns apostavam com os outros que era pau, outros que era água, até que chegando mais perto viram ser ribeira, e pela diferença que tiveram sobre ela, se era pau ou água, ainda que por pau não corria, lhe chamaram Àgua do Pau.”
A 28 de Julho de 1515, por carta régia de Manuel I de Portugal, Água de Pau foi elevada a Vila.
ERMIDA DO MONTE SANTO
Em 1918, a Vila de Água de Pau tornou-se num reconhecido centro de peregrinações devido às aparições de Nossa Senhora a uma menina chamada Maria Joana Tavares do Canto, no Monte Santo, onde a 5 de Julho de 1918, cerca de doze mil pessoas assistiram ao milagre da aparição da Virgem. Depois de tal milagre, a menina viria a falecer, tendo previsto a data da sua própria morte. Os seus pais, em sinal de fé, mandaram então construir no local das aparições uma Ermida no Monte Santo. O templo apresenta um corpo hexagonal e um só altar com a imagem de Nossa Senhora do Monte, que foi mandada fazer em Lisboa, e é ornamentada com algumas jóias que pertenceram a Maria Joana. A Ermida do Monte Santo apresenta ainda resquícios do estilo gótico.
A pequena montanha que ficou a ser conhecida como Monte Santo depois das aparições, era chamada antes, como Pico da Figueira. Há uma lenda envolvendo esse Pico e uma porca, que revolta os Pauenses, mas que é conhecida em toda a ilha e que não podia deixar de ser mencionada aqui:
“A lenda da porca que furou o pico”
Há muitos anos, na freguesia de Água de Pau, vivia, na Rua da Boavista, um casal com uma filha única, já grandinha. O homem da casa era um honrado camponês de poucas posses. Para arranjo da vida costumava ter uma porca de criação, um regalo de animal, mansa e boa amamentadeira dos marrõezinhos, que paria duas vezes por ano. Era um animal muito estimado por ser muito pachorrenta e também porque, com a venda dos leitões, a família fazia dinheiro para pagar a dívida da mercearia e outras pequenas contas em atraso. Logo de manhã, a primeira coisa que o dono fazia era ir ao pé do pátio da porca ver como estava, coçá-la, dar-lhe umas palmadas no lombo em sinal de carinho. Por vezes levava-lhe uma tigela de milho em grão. Aconteceu, certo dia, que ao aproximar-se do curral, não viu a porca lá dentro. Correu a avisar a mulher e começaram a lamentar-se . O burburinho foi grande e logo apareceram alguns vizinhos, que se decidiram a ir procurar o animal desaparecido.Correram ruas e canadas dos arredores. Bateram palmo a palmo a freguesia, mas nada encontraram. Foram depois para mais longe e a filha da casa, vendo os pais aflitos, também se pôs a procurar. Tanto que ela gostava dos marrõezinhos que a porca levou consigo! Lembrou-se de subir o Pico e qual não foi o seu espanto, quando ao olhar para o caldeirão que ficava na cratera, viu lá em baixo a porca deitada e rodeada pelos marrõezinhos. Radiante de felicidade e não sabendo como tinha a porca ído ali parar, a rapariguinha gritou: – “A porca furou o Pico! A porca furou o Pico!” Trouxeram o animal para o pátio e tudo voltou à normalidade. Mas a frase pronunciada ingenuamente pela menina nunca mais foi esquecida e, ainda hoje, as pessoas que ali passam de carro ou camioneta, perguntam ironicamente: “Foi aqui que a porca furou o Pico?”. Os habitantes, sentindo-se apelidados de ingénuos, reagem, soltando pragas e fazendo gestos de revolta e fúria.
Portanto, se passarem por Água de Pau não convém perguntarem pela porca…
FESTA DE NOSSA SENHORA DOS
ANJOS
A maior festa religiosa de Água de Pau é a Festa da Nossa Senhora dos Anjos, que é a Santa padroeira da Vila e é uma das maiores festas religiosas da ilha de São Miguel. Esta festa, que acontece no Verão, reúne milhares de pessoas e é fortemente marcada pela presença dos emigrantes, com um vasto programa cultural e religioso, mas o ponto alto é a procissão no dia 15 de Agosto. Durante esta, a imagem da Nossa Senhora dos Anjos, juntamente com mais 13 andores enfeitados pelas famílias da comunidade, percorre as principais ruas da Vila e vai recebendo ofertas em dinheiro, fixado em coroas, decoradas com flores, que vão sendo enfiadas no braço da imagem, que está erguido na vertical.Além deste gesto, é também prática comum enfeitarem-se as janelas e as ruas com flores naturais. A festa termina com fogo-de-artifício.
Muito fica por dizer sobre Água de Pau. Mas para mim Água de Pau é a terra da minha família. Onde os meus avôs moravam, e os meus tios e primos ainda moram. Onde as matanças de porco duravam dias e pareciam uma festa e uma reunião de família, comida, risadas e cheiros. Almoços e jantares com histórias mirabolantes contadas pela minha Tia Mariazinha e as famosas histórias da tropa, regadas a vinho tinto, contadas pelo meu primo Emanuel, também conhecido como Marruel. O meu avô a ensinar-me a sachar a terra e a plantar tomates e morangos. Eu, a minha irmã e as minhas primas vestidas de anjinhos na Procissão da Festa da Nossa Senhora dos Anjos. A minha avó Maria dos Anjos a cantar o hino da Festa e nós quase todos a escondermos as lágrimas comovidos. Eu e a minha avó Isolina a rezarmos o terço. As histórias sobre espiritismo e fantasmas.
 

CARLA LIMA NA PROCISSÃO

As “personagens” habituais da praça. O restaurante “Denni´s manager speaks english”.

Um baú de memórias. Mas o melhor de Água de Pau são as pessoas. Podem parecer “enredeadeiras” mas quando algo acontece a um dos seus, unem-se. Há muitos anos ouvi uma entrevista na rádio em que alguém dizia: “Água de Pau é a Nova Iorque dos Açores. Há sempre gente na rua a qualquer hora do dia. Como se estivessem de vigia.”

“Um homem que não sabe nada sobre o seu pai nunca saberá nada sobre si próprio…”

Joel Neto

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